Uma boa decisão

Vasco Graça Moura escreveu um poema celebrando o sexto aniversário do blogue de Pacheco Pereira, cujo título é Abrupto, e aproveitou a ocasião para lhe lamentar a queda do “p” pelo novo acordo ortográfico, jurando que havia de pôr luto se o abrupto ficasse abruto. É bonito, sim senhor. Mas não é verdade: o “p” em abrupto não é uma consoante muda e, pronunciando-se, continuará na palavra escrita.

Aproxima-se um dia decisivo para a questão ortográfica e a confusão, voluntária ou involuntária, é geral. A confusão, acima de tudo, dá jeito. No meio disto, até há quem pense que o que está em discussão é Portugal ratificar ou não o Acordo Ortográfico. Mas não é.


Portugal já ratificou o Acordo Ortográfico. Há mais de 15 anos. Aquilo que na sexta-feira se votará no Parlamento português é uma modificação que se introduziu, entretanto, para permitir a entrada de Timor-Leste e aceitar que o acordo entre em vigor depois de ratificado por três países.

O Brasil, que se tinha atrasado a ratificar o acordo, fê-lo já com esta modificação, tal como Cabo Verde e São Tomé. Lembro-me como, do lado brasileiro, também não faltavam vozes escandalizadas alegando que o acordo era uma cedência aos portugueses.

Durante quase todo este tempo, aliás, o grande receio por parte do Governo português era que esse antilusitanismo levasse a melhor na sociedade brasileira. E tinham razão os nossos políticos e diplomatas: na verdade, não é do interesse português que o maior país da lusofonia fique fora do barco. Sem acordo ortográfico, o mundo acabaria por seguir naturalmente a norma brasileira, considerando o crescente peso demográfico e económico do Brasil. Agora que o Brasil aceitou uma norma comum, e que alguns países africanos já a adoptaram e outros a vão adoptar, seria um enorme erro estratégico fazer com que Portugal ficasse de fora.

O nacionalismo tem vistas curtas. Uma das petições contra o acordo diz que esta situação “fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular”. Será possível exagerar mais?

Vejamos a realidade. Um livrinho que contém as alterações do novo acordo e que está à venda por todo o lado tem 30 páginas em letra grande. Lê-se em dez minutos e toda a sua informação caberia facilmente num único cartaz. Há mudanças em ambas as normas, mas são reduzidas e estão longe de ser inaceitáveis. Nós perdemos as consoantes mudas e isso faz-nos uma grande confusão. Os brasileiros perdem o trema, que usam para pronunciar o “u” em lingüiça, e admito que lhes faça grande confusão, mas nós sabemos que se passa bem sem o trema. Noutros casos, teremos duas formas de escrever, o que também não é novidade: afinal, aqui em Portugal já usamos loura e loira, bêbedo e bêbado. Qual é o grande problema?

Há quem clame que o Estado não se deve meter na ortografia e que estamos (de novo) perante uma tentação totalitária. No entanto, usam sem pestanejar uma ortografia determinada pelo Estado, e que já passou pelas reformas de 1911, 1943, 1945, 1971 e 1986, entre outras.

Este sensacionalismo não é amigo de uma boa decisão. Este nacionalismo não é amigo de uma boa decisão. A retórica do “inaceitável” pode impedir-nos de fechar um bom negócio – e que nos convém muito especialmente a nós. Uma boa decisão pede cabeça fria, avaliação dos nossos interesses e visão de longo prazo – esperemos que, na sexta-feira, os deputados demonstrem estas qualidades.

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Segunda | Rui Tavares
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