Nunca é tarde para ver a luz, como o prova Einstein

Luis Buñuel disse uma vez que iria converter-se ao catolicismo antes de morrer, só para aborrecer os amigos. Boutade à parte, certo é que a senhora Morte tem um carisma mais do que bastante para levar muita alma antes ferreamente racionalista a tentar, in extremis, jogar pelo seguro, agarrando-se a qualquer coisa com ar de bóia salva-vidas.
Albert Einstein, ao que parece, teve a lucidez e a coragem bastantes para tomar o caminho inverso: da crença num Deus manifesto e visível na ordem do Universo, passou, nos últimos dias da sua vida, ao realismo mais cru: “a palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma colecção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis.”
Esta bela declaração está numa carta recém-descoberta, em que o físico expõe com clareza total a sua descrença em Deus, no mito do “povo escolhido” e em qualquer forma de actividade religiosa. Certo é que passagens como a que transcrevi estão a anos-luz de anteriores palavras suas acerca da Bíblia, como a conhecida proclamação “nenhum mito está preenchido com tanta vida”. Mas, a partir de agora, pode ser que as resmas de charlatães que andam sempre com o nome do santo Albert no teclado vão procurar cúmplices involuntários para outras paragens.

Mas claro está que nada disto belisca o Dom que é a minha Fé na Única e Vera Igreja Pastafariana.

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12 respostas a Nunca é tarde para ver a luz, como o prova Einstein

  1. Vasco diz:

    Ainda não li essas cartas, mas já se sabia que Einstein não era um homem religioso, Luís. Ele não deixou de acreditar em Deus só às portas da morte, nunca acreditou. O tom mais enfático (ao que parece) da carta provavelmente traduz a sua irritação com a forma abusiva com que o começaram a citar e não uma mudança de opinião, nem um pico de lucidez – raios, falamos de Einstein, o homem estava saturado de lucidez – e ainda menos “coragem”. Ele já antes havia clarificado a sua posição:

    “it was, of course, a lie what you read about my religious convictions, a lie which is being systematically repeated. I do not believe in a personal God and I have never denied this but have expressed it clearly. If something is in me which can be called religious then it is the unbounded admiration for the structure of the world so far as our science can reveal it.
    (…)
    I am a deeply religious nonbeliever. This is a somewhat new kind of religion. I have never imputed to Nature a purpose or a goal, or anything that could be understood as anthropomorphic. What I see in Nature is a magnificent structure that we can comprehend only very imperfectly, and that must fill a thinking person with a feeling of humility. This is a genuinely religious feeling that has nothing to do with mysticism. The idea of a personal God is quite alien to me and seems even naive.

  2. Nobel inventou a dinamite, Luis Rainha descobriu a pólvora.

    Ouçam bem todos os que são católicos/religiosos porque o Einstein também “era”: podem voltar a não ser sem medo. A razão está do vosso lado.

  3. on diz:

    Permitam-me que discorde. Einstein gostava de usar frases como “Deus não joga com os dados”, que apontam noutra direcção. Era obvio que era ateu, mas em princípio um ateu mais “doce”, do tipo “Deus é a natureza”.

  4. Luis Rainha diz:

    Vasco e on,

    Julgo que o tema é algo mais complexo. Em 1930, Einstein escreveu “I maintain that the cosmic religious feeling is the strongest and noblest motive for scientific research.” E não se trata de uma frase retirada do contexto.
    Se é certo que ele sempre manifestou a sua descrença num “deus pessoal”, inegável é que ele por várias vezes julgou encontrar uma ordem divina por detrás das estruturas naturais do universo.

    David,
    Julgava que a combinação tinha ficado clara: nós ficamos com a razão, vocês guardam a superstição.

  5. Tárique diz:

    cuidado que o teu ex-companheiro frei rodrigo ainda te queima por heresia.

  6. Luis Rainha diz:

    Tárique,

    Espero bem que não, pois estou a contar beber uns copos com ele ainda hoje.

  7. Vasco diz:

    Luís,

    Einstein também escreveu: “if something is in me which can be called religious then it is the UNBOUNDED ADMIRATION for the structure of the world so far as our science can reveal it” (destaque meu). Creio que a “unbounded admiration” é equivalente ao “cosmic religious feeling” de que falas, ou seja, trata-se de uma exaltação, de uma sensação – um arrepio na espinha, se quiseres – e não forçosamente de uma crença numa estrutura divina ao estilo dos adeptos do intelligent design, que é para onde apontas. De resto, só assim esta outra frase faz sentido: “I have never imputed to Nature a purpose or a goal”. O “Deus” de Einstein é absolutamente metafórico, podia ser substítuido por “Natureza”e a única coisa que se perdia era o impacto mediático e literário das suas famosas tiradas. Não resulta pôr a natureza a jogar poker…

  8. Luis, o seu religioso (digo bem) frémito anti-católico/religioso é tal que só “lê” o que lhe enche as medidas.

    Veja lá bem a quem se refere “A razão está do vosso lado.” que eu escrevi no coment.

    E diga-me lá se me inclui a mim nesse “vocês guardam a superstição” e se sim, porquê? Que mal fiz eu? Que foi que eu disse?

    “Julgo que o tema é algo mais complexo.” Pois se é, não percebo como em duas penadas superficiais se deu ao trabalho de escrever o post. Em que ficamos?

  9. Luis Rainha diz:

    Vasco,
    Julgo que ele escreveu, ao longo da vida, coisas bem incongruentes sobre este tema. Como, por exemplo, “I believe in Spinoza’s God who reveals himself in the orderly harmony of what exists, not in a God who concerns himself with fates and actions of human beings.” (Einstein: The Life and Times, Ronald W. Clark) e “Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da Natureza, e o senhor descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso”.

    Não me parece que isto seja o simples pasmo ante a profundidade dos mistérios do Cosmos. “Veneração” é algo mais. Mas, como todos nós, houve um Einstein diverso em cada momento da sua vida, não se trata de uma entidade imutável, a ser julgada agora pela consistência das suas crenças…

    David,

    Ficamos em que devia haver um Dom do sentido de humor.

  10. “Ficamos em que devia haver um Dom do sentido de humor.”

    Lá está o Luis a fazer confusão outra vez; ter sentido de humor não é achar piada a tudo o que mexe; um racional devia saber disso.

    Mas, pronto, se o tom do post é, digamos, humorístico, peço desculpa: não achei graça; o meu sentido de humor não reparou.

    Claro que o que interessa não é que o texto diz mas a reacção que provoca; até porque o texto não diz nada, alguém o lê, né? Eu li; e se não quer que eu leia não escreva.

    Ass: David, imbuido do seu próprio sentido de humor.

  11. Vasco diz:

    Bem, o Deus de Spinoza é por muitos interpretado como a própria Natureza. Em resumo: Einstein não acreditava num Deus barbudo (estamos de acordo). Talvez não fosse um ateu, apesar da retórica de Dawkins, que tenta recrutá-lo para o clube – Einstein queixava-se de despertar tal tentação nas pessoas. Seria muito provavelmente um panteísta e, logo, não um homem religioso no sentido corrente e, seguramente, não no sentido que davas ao texto e que faria desta nova carta uma bomba. Mas se Einstein era panteísta por expressar um deslumbramento pela natureza, a maioria dos cientistas que conheço e que não se definem como religiosos também serão panteístas, até os que conscientemente apenas veneram a “força” do Star Wars. O que se passa é que hoje as fileiras estão mais serradas e evitamos falar em Deus, mas isto nem sequer chega a dirty little secret da classe.

  12. Vasco diz:

    ERRATA: “cerradas” e não “serradas”, f###-s#…

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