Pesquisa

A sogra de Bill Clinton

12 Maio 2008 | por João Pinto e Castro

No final da primeira década do século XXI já todos os interessados presenciaram um concerto dos Stones ao vivo, escutaram um CD dos Stones ao vivo ou assistiram a um video dos Stones ao vivo.

Que poderia acrescentar “Shine a Light”, o filme de Scorsese agora estreado?

Alguns flashes de entrevistas antigas sem particular interesse limitam-se a sublinhar a longevidade da banda. Um ou noutro momento de intimidade com o que se passa no palco - a expressão de cansaço de Watts no final de um trecho mais puxado ou um vislumbre do alinhamento das canções rabiscado na face de um quadro negro invisível para o público, por exemplo - não são suficientes para justificar a empreitada.

À medida que os Stones envelhecem, cresce o protagonismo de Richards em detrimento de Jagger. Este já todos entendemos que é um genial farsante, mas o mistério do primeiro, com a sua impassível máscara de repugnante bardinas, adensa-se de dia para dia.

Só ele parece disposto a jogar o jogo até ao fim, excepto naquele raro momento em que, como qualquer pessoa normal, condescende num beijinho bem comportado à sogra de Bill Clinton, embevecida com aquela oportunidade única de privar com o mafarrico em pessoa.

Agora, que João Paulo II unilateralmente aboliu o Inferno, o diabo já não mete medo a ninguém. E os artistas malditos também não.

PS - Tendo surgido na caixa dos comentários algumas dúvidas relativamente ao que João Paulo II disse sobre o Inferno, aqui fica o que pude apurar:

“In 1999 Pope John Paul II declared that Heaven was «neither an abstraction nor a physical place in the clouds, but that fullness of communion with God which is the goal of human life.» Hell, by contrast, was «the ultimate consequence of sin itself … Rather than a place, Hell indicates the state of those who freely and definitively separate themselves from God, the source of all life and joy».

“In October the Pope indicated that limbo, supposed since medieval times to be a «halfway house» between Heaven and Hell, inhabited by unbaptised infants and holy men and women who lived before Christ, was «only a theological hypothesis» and not a «definitive truth of the faith».”

Deixo aos teólogos a responsabilidade de esclarecerem como isto deverá ser interpretado.

Comentários

Comentário de xatoo
Data: 12 Maio 2008, 14:34

e isto ainda faz parte das comemorações do Março 68.?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 12 Maio 2008, 14:45

joão, essa de ‘repugnante bardinas’ é super (ler em francês). como de resto o resto.

julgava era que o que tinha sido abolido pelo jp ii era o limbo. afinal já não há inferno? deus, para onde irei eu, então?

Comentário de al
Data: 12 Maio 2008, 14:53

João Paullo II «aboliu» o inferno? Ora diga lá onde.

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 12 Maio 2008, 15:29

O Inferno foi encerrado para reduzir a despesa pública, deixando muitos sem-abrigo ao relento.

Comentário de Saloio
Data: 12 Maio 2008, 17:27

Não sei se o Inferno ainda se mantém, apesar da sua abolição “unilateral” pelo Sr. Papa. Parece-me bem que sim e é aqui na terra.

Mas sei que os Stones deram uma grande projecção ao Diabo, com a canção SIMPATY FOR THE DEVIL, que foi tornada pública em 1968.

Conta-se que a foi a namorada de Jeagger, a Marianne Faithfull, quem lhe emprestou o livro do russo Mikhail Bulgakov chamado “Margarida e o Mestre” (o mesmo autor de “Coração de Cão”), onde são feitas referencias ao diabo e que inspiraram a canção.

Jeagger mais tarde desculpou-se e disse que a canção não era um elogio a satanás, mas sim ao “lado escuro” de cada ser humano. Richards, mais profundo, disse que era um aviso à nevegação, para que nós não nos esqueçermos dele (diabo).

Sobre esta canção existe um documentário de Jean Luc Godad - complicado, como é normal neste autor.

Por fim, recordo aqui o primeiro verso, para os da minha idade: “Please allaud me to introduce myself…”

Digo eu…

Comentário de al
Data: 12 Maio 2008, 18:25

Como vê não aboliu inferno algum. Sobre o limbo é que afirmou tratar-se de uma hipótese teológica, visto a Bíblia não lhe fazer referência e, por isso, não é um artigo de fé.
Fica bem consultar e citar fontes, evitam que digamos asneiras e depois há sempre um chato de escala que vem chamar a atenção.

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 12 Maio 2008, 21:19

João Paulo II confirmou-me em sonhos que o Inferno não existe. Se não quiserem, não acreditem.

Comentário de Maria João Pires
Data: 12 Maio 2008, 21:28

Oh João, então não sabes que o gajo de Meliapor tem resmas de discípulos?

Comentário de Carlos Fernandes
Data: 13 Maio 2008, 1:31

A existência do Inferno e das suas terríveis chamas como sítio e como “estado” é real, assim o creio mas não tenho obviamente fotografias daquele tenebroso sítio para o provar; de resto a mentira mais difundida no séc.XX e mais conveniente ao Diabo é precisamente a de que não existe Inferno, pois assim as pobres almas baixam e de que maneira as defesas e são muito mais facilmente capturáveis.

Comentário de Ines Meneses
Data: 13 Maio 2008, 8:40

Fernanda, nós vamos a todo o lado, claro.

Comentário de MPR
Data: 13 Maio 2008, 9:53

Curioso que num post sobre os Stones e o filme do Scorsese a discussão toda vai parar ao inferno (salvo seja).

Comentário de al
Data: 13 Maio 2008, 14:03

Não seja modesto, creio que foi V. que apareceu em sonhos a João Paulo II e lhe explicou tudo, tintim por tintim. Não sei porquê mas aquela infabilidade definitiva assenta-lhe melhor a si do que a qualquer Sumo Pontífice de que eu me lembre.

Comentário de Ana Cristina Aço M.
Data: 16 Maio 2008, 0:12

Nada sei sobre o inferno, limbo e, já agora, paraíso também mas ‘arrisco’ qualquer coisa em teologia. Ocorre-me contudo dizer, se não for muito inconveniente cortar com a brincadeira geral, que estes lugares, mais do que categorias topológicas, são existenciais. Para esse mundo, aqui e agora. Neste momento há centenas, melhor, milhares de crianças, mulheres e homens a viver verdadeiros infernos e outros tantos, autênticos limbos. E porque assim é, talvez suas existências englobem inferno e limbo (são situações diferentes) como categorias topológicas também. A expressão ‘ lugar vivencial’, ‘Sitz im Leben’, dá ideia disso, a meu ver. Desnecessário será exemplificar tais diferenças; o vazio do nosso tempo sinalizando limbo para uns e a exploração/opressão de outros, sinalizando inferno.
Mas penso também que, ao contrário do enfoque individual do discurso católico oficial (nesse assunto, não em tudo) esses estados de limbo e inferno são criações humanas, de pecado sim mas pecado colectivo, estrutural. O que nos coloca, à todos, diante de desafios diferentes daqueles da idade média em que inventaram tais categorias para onde ir (como quem diz…)
Quanto a estar ou não presente na Bíblia (limbo não está, se estiver, que alguém o diga, eu nunca vi) não é determinante. A linguagem e literatura apocalíptica que floresceu no período entre o Antigo e o Novo Testamentos está carregada imagens e expressões fortes. Jesus mesmo terá usado essa linguagem no seu tempo pois fazia parte da visão de mundo então. Mas é preciso fazer a distinção entre linguagem de mensagem.. A mensagem na sua essência pode ser proclamada de modo a fazer sentido, no seu tempo, através de outros recursos, mediações.
Quanto ao paraíso ou vida eterna (a outra face da moeda) articula-se de modo inteligível, a meu ver, com vida plena – vida abundante conforme João 10.10b ou Jo 3.16. É o ‘já e o ainda não’ da promessa para usar uma certa linguagem em teologia. Bem vistas as coisas, não é diferente da profissão de fé da esquerda “um outro mundo é possível”.
É também no que crêem os cristãos, em que pese suas diferenças e diferentes maneiras de buscar transformação (e como as há!).
.
Afirmações audazes de transformação surgem em períodos de crise e desespero, como foi o da linguagem apocalíptica. Serviam para dar esperança, projectando o futuro, um outro mundo possível.
A esperança radica em carregarmos as sementes do futuro, para semearmos já, neste tempo, na medida da nossa consciência, responsabilidade, movidos por uma visão transformadora e pela fé, que extrapola limitações.
Para ilustrar esta forma de estar, minha e de outros, cito o teólogo protestante Rudolf Bultmann (se bem o interpreto) colega de Heidegger em Marburg e por esse influenciado, principalmente na obra ‘Ser e Tempo’.
É a minha interpretação que vai estar em causa pois estou citando de memória:
“ A cada instante dormita a possibilidade de ser o momento escatológico. Precisas despertá-la.”

Comentário de Ana Cristina Aço M.
Data: 16 Maio 2008, 0:12

Se certo amigo meu do ’sem-muros’ por aqui passasse era capaz de dizer que fui “rebuscada com sempre”. Ao que eu lhe responderia: não faz mal não Joaquim, que esse pessoal do 5dias é bastante enigmático. Boa parte das vezes, não faço a mínima idéia do que estão a falar…
….
Xatoo, (outro caminhante do ’sem-muros’) apesar de teres trocado Maio por Março não pude segurar o riso ao ler o teu comentário/ pergunta (com um jeito um tanto inocente, ao que me pareceu). Tens mais graça aqui que lá no sem muros. De resto, o pessoal aqui tem mesmo graça…ando também a treinar ..a ver se consigo..
…..
Já que o assunto era rock, bom mesmo nessa categoria era aquilo a que se chamava ‘rock progressivo dos anos 70′…será correcto dizer assim? Aquilo é que era música! Rasgos, vôos..só se arrisca assim, quem possui boa formação musical. Não existe mais disso no rock.
Mas posso estar desactualizada.

Escreva um comentário