O Ezequiel é que a sabe toda

Como ele bem disse, o velho Marcuse (uma paixão liceal, que a camaradagem ignorava), tem uma súbita actualidade, resultante de uma antiga filiação: nos idos de 60, ele acreditava a classe operária incapaz de ser revolucionária, a autonomia italiana julgava-a apenas capaz de sê-lo se se libertasse da canga da sua própria condição operária; fosse porque não pudesse ou não quisesse, o operariado era em qualquer caso impotente, pau para qualquer novo Código do Trabalho. Marcuse morreu, mas a extrema-esquerda italiana está na sua sétima vida, substituíu Marx por Espinosa, o m-l por outra coisa qualquer com hífen no meio, e continua a crer na capacidade prometeica do comunismo, mas agora sem classe, nem partido, nem massas sequer para libertar: apenas com a multidão dos indivíduos isolados (surtout pas de transcendence!), na circunstância nova em que a lei do valor já terá dado tudo o que tinha a dar (aonde é que eu também já ouvi isto?). O “cognitariat”, as “creative classes”, cada membro das quais diante do seu Mac, presumo, serão os novos agentes da transformação; sejam: mas eu continuo a crer que um homem só, vale muito pouco. O avião está atrasado, parece que falhei um jantar e mais a festa da Visão, foi falta da dita, o costume.

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SEXTA | António Figueira
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