O Ezequiel é que a sabe toda

Como ele bem disse, o velho Marcuse (uma paixão liceal, que a camaradagem ignorava), tem uma súbita actualidade, resultante de uma antiga filiação: nos idos de 60, ele acreditava a classe operária incapaz de ser revolucionária, a autonomia italiana julgava-a apenas capaz de sê-lo se se libertasse da canga da sua própria condição operária; fosse porque não pudesse ou não quisesse, o operariado era em qualquer caso impotente, pau para qualquer novo Código do Trabalho. Marcuse morreu, mas a extrema-esquerda italiana está na sua sétima vida, substituíu Marx por Espinosa, o m-l por outra coisa qualquer com hífen no meio, e continua a crer na capacidade prometeica do comunismo, mas agora sem classe, nem partido, nem massas sequer para libertar: apenas com a multidão dos indivíduos isolados (surtout pas de transcendence!), na circunstância nova em que a lei do valor já terá dado tudo o que tinha a dar (aonde é que eu também já ouvi isto?). O “cognitariat”, as “creative classes”, cada membro das quais diante do seu Mac, presumo, serão os novos agentes da transformação; sejam: mas eu continuo a crer que um homem só, vale muito pouco. O avião está atrasado, parece que falhei um jantar e mais a festa da Visão, foi falta da dita, o costume.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a O Ezequiel é que a sabe toda

  1. ezequiel diz:

    Caro António,

    Não somos um “homem só”, meu querido Amigo.
    Acho que podes “ter” esperança. E, acima de tudo, escolhe-me bem as linhas aéreas em que viajas. Um grão de sal à noite para combater a desidratação. And water…eh ehe h:)
    Take care,

    grande abraço, ezequiel

  2. is a bel diz:

    Ainda bem que voltou António, até porque a sua ‘graça’ estava a fazer falta, se não ao blog pelo menos a alguns leitores.
    Ainda bem que continua a acreditar. O Gorki (o ofício das letras) diz que o individualismo, tornando-se egocentrismo, faz ‘homens inúteis’ .
    Uma coisa é certa depois do que Gorki disse no congresso de escritores soviéticos em 1934 (não se pode acertar sempre), Picasso não teria sido Picasso e eu não estaria a escrever no meu lindo mac e provavelmente em Itália ninguém andaria trocar as letras entre hífens nem a substituir M e entre multidões de indivíduos isolados e rebanhos de indivíduos… venha o diabo e escolha!
    Por isso vou voltar ao inicio: ainda bem que acredita; é um prazer voltar a lê-lo; espero que a sua ‘dita’ melhore;…
    A propósito do seu post anterior, será possível explicar ‘ligeiramente’ a sua questão com o ‘Empire’. pura curiosidade. obrigada e boa viagem.

  3. “as “creative classes”, cada membro das quais diante do seu Mac”

    (O Mac é para burgueses; eu cá sou do PC. Não me canso de o dizer.)

  4. Inês Meneses diz:

    Tenho que juntar-me ao Filipe.

  5. ezequiel diz:

    nem mac, nem pc…meu caro…

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