Na noite do jantar do 5 dias

Mote:
“MRC: o que escreve, como o escreve é um exemplo tenebroso da cultura da morte que atinge o Ocidente.” (comentário de al a um post anterior)

Glosa:
Eu não sei que raio é a “cultura da morte”, conhecia o “Viva la Muerte!” do Milan Astray, mas como esse era da Espanha “una, grande y libre”, julgo que o seu “viva la muerte” dessa altura lhe daria hoje entrada num qualquer movimento “pró-vida”. Mas não é isso que interessa. O que interessa é a aparente inevitabilidade de qualquer corpo de pensamento minimamente articulado dar logo origem à sua vulgata. Que os católicos produzam vulgatas, cela va de soi, afinal foram eles que inventaram o termo. Mas estão longe de ser os únicos: em 2002, vivia eu na Europa feliz, tive uma vez de ir a Londres, terra farta e culta, onde nas estações de caminho de ferro se vende o “Empire” do Negri e do Hardt em paperback. Na volta para casa (tinha seis horas de viagem pela frente, fora os atrasos), comprei o dito em Waterloo. Quando cheguei ao patelin francês em que morava na altura, encontrei um bando de jovens com os cabelos às cores e pregos na cara – chamavam-se os “No Borders” – à pancada com a polícia e a escrever com sprays nas paredes dos prédios (incluindo o meu) “La multitude contre l’empire”. Os “No Borders” perderam a batalha com a polícia, foram mesmo border fora e o senhorio restaurou prontamente a dignidade devida ao prédio em que eu morava. Em 2005, regressado a Lisboa, o inevitável Nuno Ramos de Almeida convidou-me a ir uma noite ouvir o Negri à Nova e eu nessa altura perguntei-lhe se ele achava que o “Empire” tinha dado origem ao Negrismo-Hardtismo. O homem estava cansado e com sono, e fugiu à questão. Eu estou convencido que deu, e que isso não serviu de nada, por razões que se prendem tanto com as fragilidades próprias da obra como com a minha falta de paciência para com os al todos deste mundo. Se querem discutir, façam-se entender, e deixem os chavões na porta.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Na noite do jantar do 5 dias

  1. Ines Meneses diz:

    Já tinha saudades destes posts.

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