Vai uma aposta?

Meu caro leitor do futuro próximo: escrevo-lhe do passado recente. A separar-nos, temos apenas poucas horas. Mas aqui onde eu vivo, ninguém sabe qual foi o resultado das eleições primárias democráticas em dois estados dos EUA, a Carolina do Norte e o Indiana. No que a previsões diz respeito, não há melhor altura para as fazer do que quando a incerteza é grande. É então chegado o momento de eu lançar o meu palpite: Obama vai mesmo ser o candidato democrata às presidenciais e, excepto condições que adiante exporei, será ele o próximo presidente dos EUA.

Há muito tempo que as coisas não parecem tão más para Barack Obama. É possível até, caro leitor, que aí no seu futuro possam parecer ainda um pouco piores, sobretudo se ele tiver perdido ambas as eleições de hoje (aqui no passado diz-se que ele vai ganhar uma e perder outra). Durante o último mês, a sua campanha tem estado debaixo de um temporal. Ora é a chuva miudinha das críticas (elitista! intelectual!), ora a rajada de vento dos escândalos (pelo menos de cada vez que o pastor da sua igreja, Jeremiah Wright, abre a boca).


O meu raciocínio é o seguinte: o momento decisivo desta corrida foi quando Obama ganhou uma dezena de primárias seguidas, no mês de Fevereiro, e se distanciou de Hillary Clinton. O assunto não ficou fechado: a persistência de Hillary Clinton e “o escândalo do pastor” impediram uma vitória rápida. Mas a distância conquistada é suficiente para aguentar Barack Obama. E uma vitória após um processo prolongado, até Junho ou mesmo até Agosto, não deixa de ser uma vitória.

As dificuldades actuais ocultam o caminho notável de Obama. Um candidato pouco experiente, sem rede clientelar, e de uma minoria étnica, que concorreu contra uma candidata “do aparelho”, que aqui há um ano era considerada “inevitável” e em cuja campanha pontifica o mais popular presidente do partido. Bill e Hillary Clinton, juntos ou por si só, são adversários de respeito. Barack Obama conseguiu levar a melhor, contra os dois, a maior parte do tempo.

Da mesma forma, se Obama for nomeado (no meu palpite: quando ele for nomeado) a admiração pelo seu feito permitirá ver a uma escala correcta as dificuldades por que passou, e que agora parecem enormes. E ficará então claro que Obama escolheu a estratégia correcta: ser paciente. O próprio comando de uma campanha eleitoral americana, tarefa descomunal e esgotante, revelou que Obama possui excelentes capacidades de liderança, leitura dos ritmos políticos e gestão do esforço.

Diz-se que, de qualquer forma, Barack Obama e Hillary Clinton se andam desgastando mutuamente de uma forma que coloca em risco a vitória de qualquer candidato democrata em Novembro.

Aqui entram as minhas precauções: uma candidatura independente de Hillary Clinton, levando ao extremo a rivalidade interna, bem como um escândalo envolvendo directamente Barack Obama e não apenas um dos seus próximos, são as excepções que me farão retirar a segunda parte do meu palpite. Em todas as outras situações, Obama partirá em excelentes condições para ganhar em Novembro.

Há muita gente, à esquerda e à direita, que afirma serem poucas as diferenças reais entre quaisquer candidatos republicanos ou democratas. Não concordo. McCain e Obama têm mais do que programas diferentes. Eles vêm de mundos diferentes. Daqui até Novembro teremos muitas ocasiões para ver como é Obama quem encarna essa diferença com mais coragem e coerência, e como isso será importante para nós.

07.05.2008, Rui Tavares

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12 Responses to Vai uma aposta?

  1. xatoo diz:

    o pastor é um “teaser” Right? – funciona a favor da Hillária.

  2. The Studio diz:

    O comentador político independente Rui Tavares esteve ontem muito bem na SIC Notícias a falar sobre este assunto. Enumerou todas as virtudes do Barak Obama e todos os defeitos da Hillary Clinton. Só lhe faltou mesmo uma t-shirt e umas bandeirinhas a dizer “Vota Obama”.

  3. ezequiel diz:

    os prognósticos depois do jogo são sempre interessantes eh eh eh 🙂

  4. ezequiel, foi antes do jogo (na véspera das primárias do indiana e carolina do norte) e com a impressão generalizada de que obama estava a perder força. ainda aqui há um mês, ouvi comentar que o obama estava acabado.

  5. CARLOS CLARA diz:

    OBAMA!
    S e houvesse por aí uma T- shirt vesti-la-ia, com muito gosto, por todas as razões e mais alguma. Se Obama ganhar propunha uma festa no mundo – bem sei que não se contava com os conservadores. li hoje num diário, acompanhada com um vídeo dos States, americanos que trabalham mais de 8 horas vão á sopa dos pobres devido ao aumento e controlo da economia sobre os bens alimentares. Admirável Novo Mundo tão cheio de novos selvagens.

  6. O difícil é resistir a ficar do lado de Obama. principalmente quando do outro lado da barricada está Hillary Clinton…

    http://papel-pedra-tesoura.blogspot.com/

  7. ezequiel diz:

    Caro Rui,

    just kidding, my man!! 🙂

    west virginia e kentucky para Hillary e Oregon…magnificent Oregon para Obama…renhido, até ao fim!

    estou a aguardar la postage da Vossa conversa…3 musketeers!! (com cavalos, espadas e tudo….)

    Carlos, podes obter uma t-shirt online (os europeus andam a comprar muitas t-shirts e coffee cups….), no site do Obama… ajudas o melhor candidato à Presidência e ficas com uma recordação de um “momento” histórico…e olha que há muitos conservadores que adoram e apoiam o Senador Obama!!! Os neo conservadores são uma espécie em vias de extinção, nos EUA, é claro….eh eh eh

  8. Luís Lavoura diz:

    Concordo com o comentário de Tiago Loureiro.

    Já agora, no Rabbit’s Blog está um vídeo excelente sobre a “Hillary’s Downfall”. Vão lá ver, vale a pena.

  9. Saloio diz:

    Estimado Sr. Tiago Loureiro: permita-me a minha burrice e discordar de si e de outros atrás, que acho um pouco intoxicados com a propaganda e o espectáculo de Obama – só que ainda não percebi qual é a diferença real e prática deste senhor para a Sen. Hillary. Quando um deles for eleito, fará diferente do outro? Em quê?

    Ou tudo não passa, para os senhores, de ódio velho, made in Bill?

    (Já agora: muitos parabéns pelo seu blog – vou passar a visitar).

    Digo eu…

  10. Estou a Leste destas eleições primárias…

  11. LF diz:

    Em matéria de prognósticos tb me parece que obama vá ganhar. Agora, q Obama seja um candidato livre de clientelas já me custa a acreditar, parece-me a modos que impossível levar adiante uma campanha eleitoral nos Estados Unidos sem clientelas.

  12. Luís Lavoura diz:

    Saloio, na medida em que as suas perguntas me sejam dirigidas, respondo:

    1) Não faço ideia se Obama será melhor ou pior do que Clinton;

    2) Sim, trata-se, da minha parte, de um ódio “made in Bill”; Bill Clinton teve uma política externa vergonhosa e nojenta, com o extermínio silencioso do povo iraquiano e o bombardeamento selvagem do povo sérvio; não quero ver no poleiro a mulher dele por causa disso.

    Obama será melhor? Duvido. Pelo menos mudarão as moscas.

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