“Um bando de malfeitores”

No fundo, a explicação para a proposta de desactivação da estação de Santa Apolónia é dada pelo artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso esta semana. Todo o artigo é imperdível; transcrevo aqui uma parte. Atenção à última frase.

Acompanhado pelo seu incontornável ministro dos Gastos Públicos, Mário Lino, José Sócrates anunciou mais uma “obra estruturante” para o país: investir cerca de duzentos milhões de euros do Estado para multiplicar por quatro a área do terminal marítimo de contentores de Alcântara, no coração de Lisboa. A obra é um velho sonho do Porto de Lisboa – tapar o rio com contentores ou o que seja para que os lisboetas desfrutem dele o menos possível. E é também um velho sonho da empresa que detém, por concessão, o monopólio do negócio dos contentores no porto de Lisboa: a Liscont, pertencente à Mota-Engil (sim, a de Jorge Coelho). Para servir os interesses da empresa, o Estado vai então gastar dinheiro a dragar o rio e a enterrar o comboio e redesenhar os acessos rodoviários à zona, porque não é brincadeira fazer escoar milhares de contentores diariamente do centro da cidade. Oferece-lhe ainda uma área de luxo para desfrute em exclusivo e a histórica Gare Marítima de Alcântara, com os painéis de Almada, por onde gerações de portugueses partiram para a emigração ou para a Guerra de África e gerações de turistas desembarcaram em busca da cidade debruçada sobre o rio. Mas a Liscont também investe a sua parte: 227 milhões. Condoído do seu esforço, porém, o Governo compensa-a por esse magnânimo gesto, prorrogando-lhe por mais vinte e sete anos, até 2042, o monopólio que detém e que expirava dentro de sete anos.

Portanto, saem dali os paquetes de passageiros que, desde que me lembro, desde que o meu avô me levava a vê-los em criança e eu aos meus filhos, era a única coisa de interesse em Alcântara e uma das coisas que faziam de Lisboa uma cidade diferente. E para onde vão? Vão para onde deviam ir os contentores: para uma extrema da cidade e da frente de rio, para Santa Apolónia. Parece-vos absurdo que se lembrem de pôr os turistas a desembarcar numa ponta desabitada da cidade e os contentores a desembarcarem nas Docas, junto aos Jerónimos e à Torre de Belém? Não, não é absurdo: faz parte de um plano maquiavélico do Porto de Lisboa (mais um), arquitectado passo a passo. Com o abandono da Doca de Passageiros de Alcântara e a sua transferência para Santa Apolónia, onde nenhuma infra-estrutura existe para os acolher, o Porto de Lisboa tem assim uma excelente oportunidade para lançar mãos àquilo de que mais gosta: a construção e especulação imobiliária à beira-rio. A APL propõe-se construir um contínuo de edifícios em Santa Apolónia ocupando uma frente de rio de 600 metros para o novo terminal de passageiros (até se prevê a construção de um hotel, partindo do raciocínio lógico que os turistas, uma vez acostados ao cais, abandonarão os seus camarotes já pagos a bordo para se irem instalar no hotel em frente ao navio…). De modo que, de um só golpe e com a habitual justificação do interesse público para enganar tolos, os engenheiros que nos governam acabam de roubar mais um bom pedaço de rio a Lisboa: 600 metros em Santa Apolónia e outros tantos em Alcântara. Chama-se a isto uma expropriação pública em benefício de interesses particulares.

E, como de costume, quando se trata de dispor da cidade e do rio, com pontes ou terminais de contentores, é Sócrates e a sua equipa do Ministério das Obras Inúteis quem faz a festa e lança os foguetes. Se é que Lisboa tem um presidente de Câmara, mais uma vez ninguém o viu nem ouviu.

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18 respostas a “Um bando de malfeitores”

  1. al diz:

    O MST é absurdo. Lisboa é um sonho urbanístico, inveja da Europa, tudo bem conservado, com políticas inteligentes da protecção do património (Santa Apolónia estará, com certeza classificada e nem se poderá tocar), enfim, tudo bem planeado, a cheirar bem, como dizia a canção, um gosto! O MST está tonto. Onde é que esta gente vai buscar estas ideias de compadrios, ganância e especulação imobiliária?

  2. o sátiro diz:

    Como não tenho a ironia de “al”, resta-me dizer que é mais uma obra que vai deixar Lisboa ainda mais insuportável do que já é.
    Um pandemónio durante o dia e uma tristeza à noite…

  3. Sérgio diz:

    Eu não ponho os pés em Lisboa à 8 meses.
    Antes disso vivi 32 anos, seguidos, em Lisboa. Desde que nasci, portanto.
    Bairro Alto, Madragoa, Alcântara são os meus bairros de sempre.
    Sinceramente, não sei de que Lisboa fala o al.
    Mas aposto que sei que cartão partidário tem o al na carteira.

    “Onde é que esta gente vai buscar estas ideias de compadrios, ganância e especulação imobiliária?”

    Si monumentum requires, circunspice.

  4. Sérgio diz:

    Bem, eu sinto-me um pouco palerma …as minhas desculpas al.
    A constantes confirmações, nos últimos meses, de que fiz bem em pôr-me na alheta já começam a pesar…

  5. xatoo diz:

    1. se porventura se trocasse Santa Apolónia para os contentores e os turistas para Alcântara, o MST escreveria exactamente a mesma coisa – uma vez que o verdadeiro problema está na massificação da construção.
    2. enterrar a linha férrea entre Alcântara e o Cais de Sodré já deveria ter sido feito há décadas, uma vez que temos essa barreira entre a cidade e o rio justamente na parte mais nobre da cidade
    3. O sistema de transporte da cidade beneficia com o desvio das linhas suburbanas para um interface em Alcântara
    4. por fim, é incrível que se esteja a iniciar este tipo de projectos sem um plano geral de conjunto

  6. Ana Martins Barata diz:

    Uma vez mais, vários anos depois de ter sido erguido na parte mais nobre da zona ribeirinha, entre dois edifícios que fazem parte da história da arquitectura moderna portuguesa , um “muro” de contendores, eis que, novamente, outros valores mais altos se levantam para completar o que então se iniciou. Ouvimos falar de novas estações de terminais de cruzeiros. Para quê, se a cidade já tem 2, magníficas, estrategicamente situadas a meio caminho dos locais mais visitados pelos que por mar (e por terra) nos demandam – a torre de Belém, os Jerónimos, o Museu dos Coches, a Baixa Pombalina, em frente de um novo equipamento cultural a inaugurar na próxima semana, o Museu do Oriente. As duas Gares marítimas que o arq. Pardal Monteiro projectou e para as quais o pintor Almada Negreiros criou alguns dos mais significativos frescos da história da pintura portuguesa contemporânea, encontram-se tristemente esvaziadas na função para a qual foram criadas. O circuito dos passageiros dos cruzeiros há anos que deixou de ser feito pelas salas onde se encontram as pinturas de Almada. Estas, agora só se abrem por ocasião de eventos mais ou menos sociais ou vagamente culturais. E mesmos aos lisboetas não é fácil a elas aceder. Mas também quem se interessará por meia dúzia de pinturas antigas, descoradas…. Novos terminais? Concerteza, que o erário público é farto, como todos nós contribuintes deste país sabemos. Em Santa Apolónia? Pois claro! Que tem espaço e largueza para permitir o desembarque dos milhares de passageiros dos novos barcos, que implicam a mobilização, nas excursões que organizam durante a sua curta estadia, de dezenas de autocarros de turismo, que geralmente têm que embarcar às horas mais movimentadas do trânsito da cidade. Mas que interessam estes pequenos detalhes em comparação com os milhões que a MOTA-Engil pode oferecer ao estado? E os que outras empresas podem lucrar com a construção de uma nova estação de cruzeiros? Nos debates públicos não têm faltado as boas intenções dos representantes da CML, da APL, do governo…. acerca dos planos que têm para a zona ribeirinha. Mas, como sabemos, de boas intenções está o inferno cheio.
    Escrevi este comentário há dias para o blog cidadanialx . Deixo-o hoje aqui também. Concordo em absoluto com o texto de MST. Acrescento ainda que uma investigação sobre os planos sucessivamente apresentados para a zona ribeirinha da cidade nos últimos cem anos mostra como para a parte ocidental, para lá da Praça do Comércio, sempre privilegiaram uma ligação dos lisboetas com o rio, e que as actividades portuárias sempre foram remetidas para a parte oriental. O arq. Miguel Ventura Terra, que foi durante alguns anos vereador na CML (1908-1912), chegou a envolver -se em polémicas com a então administração do porto, porque desejava que toda a parte ocidental fosse apenas ocupada com espaços ajardinados e equipamentos de lazer e antes dele, em 1888, um engenheiro francês T. de Gamond planeou para toda a zona entre a Praça do Comércio até Belém, um imenso e largo boulevard que permitia uma direcção directa com o Tejo. Acresce também dizer que, é claro, todos estes planos não chegaram a passar do papel e do sonho dos seus autores. Porque, tal como hoje, sempre interesses mais altos do que os da cidade se levantaram.

  7. al diz:

    Eu? Marxista? Ahahaahah Essa é boa 🙂
    E não sou de nenhum partido.

  8. Ricardo Santos Pinto diz:

    Nisto tudo, só não percebi a ironia do Filipe Moura no início do post. Não acredita que esta gente pudesse fazer isso a Lisboa? Não acredita em Miguel Sousa Tavares? Não acredita que façam isto por mal? Não acredita que não exista Presidente da Câmara?
    Não sei. O que sei é que a Mota-Engil acaba de conseguir (logo após a entrada de Jorge Coelho! Coincidências…) o prolongamento por 27,5 anos da concessão do Terminal de Contentores de Alcântara.
    Haja vergonha! E depois não querem que se insulte esta gente que governa o país. Como se eles não insultassem constantemente a nossa inteligência com este tipo de medidas. Agora, já é mesmo à descarada!

  9. Não há ironia absolutamente nenhuma no que escrevi, Ricardo. Sou como a Barbara Bush: “I mean what I say and I say what I mean”. O que eu não percebi se era ou não irónico foi o comentário do al.

  10. al diz:

    Oh Ana Martins Barata, não seja conservadora, Lisboa tem de evoluir. Olhe a língua, que essa evolui mais que a inglesa. Isto vai num ápice. E Lisboa há-de evoluir mais do que Londres. Eu juntei-me já ao progresso e quando soube da nova direcção da dinâmica empresa Mota-Engil comprei logo uma meia dúzia de acções com o que tinha nos certificados de aforro (que o governo não gostava deles e eu estou aqui é para facilitar a vida ao governo). Temos de nos juntar à contemporaneidade. Se souber de mais empresas modernas, não hesite em dizer-me. Se a modernidade pagar, dá para se sair daqui e não os ouvir e não os ver, nem ao que fazem a Portugal.

  11. Luís Lavoura diz:

    Sem pretender contestar o ponto de vista do Miguel Sousa Tavares, eu diria que, se Lisboa existe e está ao pé do Tejo, isso não se deve às belas vistas do rio, mas sim… à utilidade do porto.

    Ou seja, os homens instalaram-se neste local, desde tempos muito remotos, não para disfrutarem da vista, mas sim para comerciarem e instalarem um porto.

    Eu diria ainda que, em muitas outras cidades, se passa exatamente o mesmo. Em Hamburgo, por exemplo, não se põe a vista em cima do Elba – toda a faixa litoral da cidade está coberta pelo porto. Suspeito que em Roterdão se passe o mesmo, e em Huelva, etc.

    É claro que é muito aprazível passear à beira rio, de acordo. Mas o interesse primordial do rio, para Lisboa, é e deve ser um porto rico.

  12. Ricardo Santos Pinto diz:

    Filipe,
    Então se não é irónico, o título é mesmo aquilo que pensa?

    Luís Lavoura,
    Os tempos mudam. É certo que os primeiros habitantes de Lisboa não estariam certamente preocupados com a beleza das vistas, mas, passados tantos milénios, querer acabar com elas por razões meramente economicistas é demasiado. E já nem vou falar da vertente turística. Não conheço Hamburgo, mas não me parece nada bem que não se ponha a vista em cima do Elba.
    Olhe o caso do Porto: o rio foi sempre o que é e continuará a ser, mesmo que tenha sido intensivmente utilizado do ponto de vista comercial (Vinho do Porto). É também isso que faz as suas belezas. Não venha comparar com um monte de ferro e betão, guindastes e contentores.
    Provavelmente, também é a favor do fim da Linha ferroviária do Tua para fazer uma simples Barragem.

  13. Ricardo, agora entendi a sua questão. I did not say that, digamos assim: aquilo está entre aspas e portanto é uma citação. Entendido?

  14. al diz:

    Este Lavoura faz-me lembrar aqueles aprendizes de tecnocratas do tempo do Prof. Marcello Caetano. Com esta sagacidade e poder de analogia há-de ir longe. Eu gostei muito daquela “desde os tempos mais remotos”. Pensei que já ninguém usava.
    Se isto tudo não fosse trágico, que farsa divertida.
    E como sabe ele que os homens não se instalaram em Lisboa por causa da paisagem?

  15. Sousa Tavares, mais uma vez, raia o absurdo e o completo desnorte. Embrulhado em frases sonantes, cheias de boas intenções e de raciocínios à base de de “senso comum”, o seu texto contém as maiores barbaridades e incongruências sobre o tema que aborda, como salientou o xatoo, e muito bem.

    Demore-se um pouco a nossa atenção nesta “pérola” inenarrável:

    « [os terminais de cruzeiros] Vão para onde deveriam ir os contentores: para uma extrema da cidade e da frente de rio, para Santa Apolónia. Parece-vos absurdo que se lembrem de pôr os turistas a desembarcar numa ponta desabitada da cidade e os contentores a desembarcarem nas Docas, junto aos Jerónimos e à Torre de Belém?»

    Para o transtornado Sousa Tavares, Santa Apolónia, situada junto à Baixa e a Alfama e na base da colina do Castelo, é nada menos do que “uma ponta desabitada da Cidade”, uma “extrema da Cidade e da frente de Rio” para onde, segundo ele, deveriam ir os contentores (e todas as infra-estruturas pesadas de transporte associadas à respectiva movimentação). Presumo que Sousa Tavares, que só pode estar doido, ou precocemente senil, chame habitantes aos noctívagos das Docas (e aos passeantes domingueiros de Belém) e suburbanos (estrangeiros?) aos alfacinhas de gema que moram desde a Sé até ao Parque das Nações, passando por Xabregas, Beato, Poço do Bispo, Olivais. Umas poucas dezenas de milhar de habitantes, coisa pouca.

    E igualmente se atinge melhor o alcance da extraordinária afirmação « (…) porque não é brincadeira fazer escoar milhares de contentores diariamente do centro da cidade.» Não, para Sousa Tavares, isso deve ser menos do que uma brincadeira, deve ser de somenos importância. Claro. Saberá ele, porventura, que uma elevada percentagem de mercadorias destinadas à Região de Lisboa são, desde há mais de uma década, descarregadas no Porto de Barcelona, por motivos económicos, e fazem o “resto” do percurso de camião TIR, por estrada? Saberá ele contabilizar as externalidades associadas a esta aberrante situação em termos não apenas económicos, mas sobretudo ambientais (e até em termos dos níveis de segurança rodoviária nas auto-estradas)? E acaso terá alguma ideia da distribuição, em termos geográficos, dos destinos das mercadorias descarregadas no Porto de Lisboa? E quais as vias (tortuosas) que actualmente são forçadas a usar? Será que ele não conhece ninguém que tenha de esperar minutos infindáveis na 24 de Julho sempre que uma composição de mercadorias atravessa a Avenida e faz actuar o semáforo ferroviário? Não sabe nada, nem quer saber. Interessa-lhe apenas, como “jornalista de opinião” que é, intoxicar os seus desprevenidos e crédulos leitores.

    No fundo, só duas questões motivam este Artigo, poderia tê-lo dito logo (poupava imensos disparates): macular Jorge Coelho e enxovalhar o Presidente da Câmara de Lisboa.

    O qual, como se sabe (o anterior Artigo de Filipe Moura até tem um “link” e tudo sobre o assunto…), não “ficou calado”, antes avançou logo com sugestões sobre esta matéria, tendentes precisamente a minimizar os efeitos da ocupação prevista pelo Porto de Lisboa em Santa Apolónia! Ah, mas isso agora não interessa para nada, só foi relevante para a questão do mau planeamento da rede de Metro (também imputada à C. M. L.)…

    Pois é, demagogia sem parar. Para quem quer saber algo mais, informe-se bem sobre as limitações e entraves a que a Autarquia de Lisboa (não só Ant.º Costa) está sujeita, legalmente, no que concerne ao território ribeirinho, administrado pelo Porto de Lisboa.

    Ou então, funde o Partido Quixotesco e concorra à Presidência da C. M. Lx…

  16. Ana Martins Barata diz:

    Infelizmente para a cidade, foram opiniões como as de Luís Lavoura que transformaram a zona ribeirinha no que hoje podemos observar. E que já em 1924 levaram Raul Proença a escrever no Guia de Portugal o seguinte: “Cidade posta em anfiteatro, em sucessivos terraços… ora perdendo-se lá longe,…ora avançando sobre o rio como o estreito tombadilho duma nau.(…) Como aproveitou o lisboeta estas condições naturais tão singulares, esta dávida do céu e da água? Que partido tirou ele do Tejo? Voltou-lhe as costas, simplesmente. Na faixa marginal da cidade tem-se a impressão de que as edificações que ali se ergueram obedeceram à intenção de tapar com um biombo de cantaria a vista do Tejo… E em vez de tudo convergir para o rio fantástico, de ele ser o fundo dos quadros decorativos, de constituir, por assim dizer, o leitmotiv da estética citadina, e de se abrir a seu lado uma das mais belas avenidas do mundo, corre ali um paredão inestético de casaria, de fábricas, de armazéns, e até de gasómetros, ocultando ao lisboeta a vista do seu largo e claro rio”. Mas, claro, Proença era um escritor.

  17. al diz:

    Caro Sergio,
    Vc sentiu-se um pouco palerma? É bom sinal.
    Desculpas aceites, claro. Gostei do latim. Nos tempos que correm uma insinuação de concuspicência em latim (ou mesmo baixo latim) é um luxo.

  18. Compreendi muito bem o que o MST quis dizer e que aliás, já foi inúmeras vezes vincado por Ribeiro Telles ao longo de quarenta anos! É evidente que vivendo os portugueses um período onde a suspeita se tornou regra, certas atribuições, declarações, projectos ou intenção de tal, não poderão deixar de se tornar alvo de contestação imediata. Quem hoje entre em Lisboa pela barra. depara com uma série de aberrações “arquitectónicas” que começam logo com a pseudo-torre inclinada, continua com o mamarracho que o regime deixa construir junto à Torre de Belém, ao mesmo tempo que se adivinha uma massiva volumetria para o terreno da antiga FIL e para Alcântara. O betonismo dos rotativos no seu melhor! Chegamos ao Cais do Sodré e deparamos com mais uma construção pavorosamente rasca – é o termo!-, patrocinada pela galopinagem bruxelense. Agora tiveram a supina ideia de desactivar Santa Apolónia, precisamente alguns meses após a inauguração do metro que propicia transporte a quem chegue da linha de Vila Franca. É o eleiçoeirismo fácil, a angariação dos subsídios betoneiros, é a vergonha depredadora do património. Vão à avenida da Liberdade, percorram as Avenidas Novas (todas) e vejam o que tem sido feito. Imaginem o que a Câmara autorizará para o Rato – vi, o Expresso publicou, que MERDA, que escândalo!-, para os terrenos da Feira Popular – que deviam ser nacionalizados e transformados num prolongamento do Jardim do Campo Grande – e num futuro distante, o uso que darão ao aeroporto. O que se chama hoje Alta de Lisboa, é um miserável rebotalho e caos terceiro-mundista sem qualquer interesse. E falam de democracia…
    Lisboa cresce “marreca”, estende-se em construções miseráveis e caóticas para os vales em direcção à rasquíssima Loures e afins. Deixa o rio para a mera especulação. Deixa todo o património anterior aos anos sessenta, desabar ou ser descaracterizado, tal como foi o pavoroso Heron Castilho, bela fachada para uma cabeça Frankenstein.
    Daqui a cem anos, o que dirão de nós? Tenho postado dezenas de fotos com prédios a cair, sem que se faça algo que obste a este mal que liquidará a cidade como local aprazível (que ainda consegue medianamente ser).
    O Pombal, o Mardel, Fontes, Ressano Garcia ou Duarte Pacheco, morreriam de novamente. Para não falarmos dos arquitectos que ergueram toda a Baixa, os Prémios Valmor que pontilhavam a Avenida, a Fontes Pereira de Melo, a D. Amélia (vulgo alm. Reis) e a Ressano Garcia (vulgo república). Enfim, uma inenarrável calamidade. E estou a ser optimista…

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