Só faz falta quem cá está

Acho sempre um piadão quando ouço que é importante o PSD ultrapassar esta crise porque “faz falta à democracia portuguesa”. Faz-me lembrar a descida do Belenenses à 2.ª divisão do Campeonato Nacional: o clube não podia ser despromovido porque “fazia falta ao futebol português”. A democracia precisa de partidos, evidentemente, e precisa de muito mais do que apenas partidos, ou precisa de mais do que apenas um ou dois partidos. Mas nenhum (repito: nenhum) partido em particular faz falta à democracia se estiver quieto. E nisto incluo não só o PSD e o CDS, que estão evidentemente em letargia, mas também o PS, o BE e o PCP, que estão de momento saudáveis. Caso os três partidos da esquerda venham a lidar irresponsavelmente com o resultado das eleições de 2009, como os da direita lidaram com a sua última passagem pelo poder, a frustração e descrença dos seus eleitores pode mandá-los pelo cano abaixo e depois não se queixem.


Como se diz tantas vezes, só faz falta quem cá está. Quando escrevo sobre a crise do PSD, tento sempre pensar nas pessoas que gostariam de poder votar naquela área política e não conseguem votar no PSD. É com esse eleitorado, ideologicamente diverso de mim, mas feito de gente como eu, que eu consigo estabelecer empatia. Agora com o partido em si, entendido enquanto a soma dos seus dirigentes, estruturas e trajectórias de uns e outras – desculpem a franqueza, mas não sinto pena. Raras vezes um partido fez tanto por merecer o estado de descrédito em que se encontra.

Triste não é um partido desaparecer. Triste é querer votar e não haver ninguém que represente minimamente as nossas ideias – ou até quaisquer ideias. Triste não é as facções do PSD falarem línguas diferentes. É falarem as mesmas línguas sem conteúdo algum. Triste não é desentenderem-se. Triste é ninguém se dar ao trabalho de criar o seu próprio partido, se o desentendimento é assim tão grande.

O PSD tem duas maldições. Uma é que de vez em quando chega ao poder, por uma questão de oportunidade mais do que de trabalho, e isso vai-lhe permitindo empurrar com a barriga a necessidade de pensar e transmitir ideias. A segunda é a de ter um reservatório eleitoral cada vez mais reduzido, principalmente constituído de votos conservadores, mas a que é forçado a recorrer em situações de escassez. (Já que perguntam: o PS tem o primeiro problema, mas não o segundo – além de uma série de outras diferenças entre os dois maiores partidos que normalmente são descuradas.)

Em consequência: o espaço é exíguo e só há possibilidade de oxigénio num erro clamoroso do PS.

Numa entrevista de Pedro Passos Coelho ao Correio da Manhã, notava-se este dilema. Pedro Passos Coelho parece entender que não dá para ser só liberal na economia e não o ser na sociedade. Numa conclusão natural, admite que não lhe repugna o casamento homossexual. Logo a seguir, porém, não diz se isso significa apoiar o casamento homossexual. A tentativa é interessante, mas em que ficamos? É preciso mais coragem e liderança para extrair o PSD do beco em que está metido.

Quanto a Manuela Ferreira Leite, ouvi-a lamentar-se sobre “a falta de respeito com que nos tratam”. Mas fiquei muito seriamente na dúvida de se ela está disposta a fazer o que é necessário para ganhar esse respeito, ou se quer simplesmente um tratamento à Belenenses quando está prestes a descer de divisão.

Só faz falta quem cá está – neste país e neste tempo – e o PSD não tem estado.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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11 respostas a Só faz falta quem cá está

  1. “não lhe repugna o casamento homossexual”, ao Pedro Passos Coelho. Triste frase, Rui, de facto, tipo “a coisa não me mete nojo e assim”.

  2. O Belenenses não digo, mas o Benfica não faz falta nenhuma à I liga.

    Dizem que o Rui deveria ser Bloquista. Bem falta criar um partido de 5/6 % entre o PCP e o Bloco. O Rui poderia ser o seu SG.

  3. ana, lendo a entrevista, repararás que é a pergunta que dá o mote: ‘repugna-o o casamento homossexual?’. claro que a formulação é infeliz, mas se foi assim que as coisas se passaram, a resposta é a consequência da pergunta. as consequências políticas que não são retiradas é ainda outra loiça. mas a pusilanimidade demonstrada rima com a de quase todo o espectro político português — excepção feita ao be e à js — em relação a esta matéria.

  4. Rui,

    “Só faz falta quem cá está” é uma expressão infeliz, faz-me logo lembrar aqueles que, depois de consumada a purga, dizem “só faz falta quem cá está”.
    Poderíamos dizer ser uma forma de expressão um tanto ou quanto “fascizoide”.
    Mas subscrevo a análise aos psd(s).

  5. Concordo. O P. S. D./P. P. D. não poderá sobreviver se tiver como única função desempenhar o papel de Oposição formal (virtual), que caucione o actual sistema partidário e de Governo em Portugal sem mais consequências.

    Se não conseguir ser mais do que apenas isso, acabará por, perecendo, arrastar a própria arquitectura constitucional, já fragilizada.

    Sem uma Oposição credível, o Governo será vulnerável à vozearia de qualquer crítica populista e Portugal não se salvará da emergência fatal de um ou mais Berlusconis de fancaria…

    Daí que seja urgente não apenas um Partido de Direita responsável e verdadeiramente democrático, como um seu líder credível e com postura de Estado, ao nível de um Adriano Moreira, Amaro da Costa, Lucas Pires, Freitas do Amaral, ou mesmo de um Durão Barroso dos anos noventa, que manifestamente estão a faltar ao campo político da Direita democrática em Portugal…

  6. A.Silva diz:

    Não é que me faça falta o PSD,mas contudo as tristes figuras que alguns tem feito últimamente que nos chegam através das televisões não são boas noticias para o estado da nossa democracia.Ou fecham a loja ou tem alguma vergonha,porque só provocam nos cidadãos um afastamento maior da classe politica,e não pensem que é so do PSD que se afastam é de todos em geral

  7. A simples ideia de que o B”E” ou o PC possam ser minimamente responsáveis na gestão dos negócios do Estado, é de fazer qualquer um desatar a rir, ou a chorar. Basta olhar para os países-modelo. Fazem-nos logo lembrar certos andares-modelo à venda em urbanizações escusas da área do Cacém-leste. Chiça!

  8. Nuno Góis diz:

    A unica coisa que faz ou deveria fazer falta são as ideias e ideiais, e essas ideias e ideais, para quem não os tem, vão ter que aparecer mais cedo ou mais tarde…

  9. Tens razão, Fernanda, mas também é nas respostas a estas perguntas “armadilhadas” – ainda que, aqui pra nós que ninguém nos ouve, me pareça que a formulação da pergunta foi a possível e não uma rasteira, infelizmente – que se vê a real convicção de um entrevistado face a um qualquer tema. Tenho o Passos Coelho como um homem inteligente e com traquejo político qb para não ser apanhado na contracurva.

  10. CARLOS CLARA diz:

    nuno castelo-branco

    Onde fica esse Cacém-leste? Não conheço, deve ser chic. Será que por lá se compram uns andares jeitosos com dinheiro lavadinho?

  11. mpb diz:

    Está visto que para o senhor Nuno Castelo-Branco governar o país é um privilégio do PS e do PPD-PDS/CDS-PP. Estamos em presença de um preconceito antidemocrático e que tende a ver a realidade de uma forma estática.
    E lá vem sempre a cassete dos modelos estrangeiros como factor impeditivo.
    Esta atitude é perfeitamente totalitária, senhor Castelo-Branco!

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