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a humanidade do mal

2 Maio 2008 | por Fernanda Câncio

De vez em quando surge uma história assim. Não escrevo “de vez em quando há” porque não sei, não posso saber, quantas histórias destas existem, atrás das fachadas das casas, de todas as casas. É aliás a primeira consequência de uma história assim: o desconforto com que olhamos todas as casas, na possibilidade de ocultarem histórias como esta. É uma maneira de sublimar o outro desconforto, o mais indizível.

O desconforto de saber, perante uma história como a do austríaco Fritzl e da sua filha Elizabeth, que não podemos manter o mal fora, lá fora, no desconhecido, nos desconhecidos, nos estrangeiros, nos outros, como algo de alienígena. O desconforto que nos faz pensar nos nossos pais e imaginar que podiam ser um Fritzl. Que nos podia ter sucedido isto, a nós: um dia temos 18 anos e o nosso pai fecha-nos numa cave da casa onde vivemos e nunca mais nos deixa sair. Ficamos lá 24 anos. Temos sete filhos do nosso pai. Ele leva três e deixa os outros. Que crescem ali, naquele espaço minúsculo, sem ver mais ninguém, sem nunca terem visto a rua, o sol, a chuva, a noite, sem que saibamos se algum dia vão poder sair dali. Um deles morre bebé, dos outros que foram levados nada sabemos. Nada sabemos do que se passa fora dali - tudo o que o nosso pai conta pode ser mentira. Podemos explicar aos nossos filhos que há mais que aquilo - mas haverá? E será boa ideia fazê-los sofrer com a ideia de que estão presos numa cave, ou é melhor fazer-lhes crer que é normal, aquela vida? Vivemos - como é que vivemos? Como é que sobrevivemos? Como é que não enlouquecemos? Como é que nos perdoamos o termos sobrevivido, o termo-nos habituado, o termos deixado viver assim os nossos filhos? - primeiro no terror de que o nosso pai (e ainda pensamos nele como nosso pai?) volte e depois, a partir de certa altura, no terror de que ele não volte. Porque se lhe acontecer alguma coisa morreremos ali, debaixo do chão da nossa mãe e dos nossos irmãos, sem salvação. Dependemos dele, do nosso carcereiro, algoz, violador. Ele é todo o nosso mundo, ele é tudo o que há, ele é a vida. Podemos até gostar dele. Podemos sentir qualquer coisa parecida com amor. Podemos, não podemos? Porque se isto aconteceu - e aconteceu -, se isto é possível, tudo é possível.

Não, numa história como esta não podemos falar de aumento de penas nem de mais polícia nem vociferar contra “a insegurança”. Numa história como esta só podemos olhar para o rosto de Fritzl e tentar decifrar-lhe os sinais, aqueles que deveriam ter alertado toda a gente para o monstro que ali estava, e perceber que não havia maneira, que não há maneira. Nem de perceber - porque se no lugar da filha ainda nos conseguimos projectar, não há forma de pensar como será estar no dele, ser ele - nem de prevenir nem de evitar nem de adivinhar quando e como e porque é que estas coisas acontecem. Nem de encontrar castigos que apazigúem o nosso medo, e a dor e a perda horríveis, tenebrosas, destas vidas. Nenhum sistema penal ou moral nos responde a isto, nada nos protege deste mal. Porque está dentro. Das nossas casas, da nossa família, de tudo o que devia ser seguro e certo. De nós. Porque é humano, tão pavorosamente humano.

(publicado hoje no dn)

Comentários

Pingback de Ponto Por Ponto » a humanidade do mal
Data: 2 Maio 2008, 11:18

[...] Fernanda Câncio sobre a macabra história austriaca… aqui [...]

Comentário de Fernando Penim Redondo
Data: 2 Maio 2008, 11:19

Este belo texto é uma conseguida “descida aos infernos” para concluir que o mal existe mesmo dentro de nós.
Esta história é especialmente perturbante porque não pode ser atribuída a um dos habituais “bodes expiatórios” que a Fernanda Câncio, nem sempre com razoabilidade, tanto cultiva: racismo, capitalismo selvagem, homofobia, fundamentalismo religioso, etc, etc.

Comentário de PR
Data: 2 Maio 2008, 11:52

Um belíssimo texto.

Comentário de David Fernandes
Data: 2 Maio 2008, 12:54

Belo texto, sem dúvida.

“O desconforto que nos faz pensar nos nossos pais e imaginar que podiam ser um Fritzl.”

É exactamente a minha maior preocupação.

Enquanto pai, interrogo-me o que pensarão elas quando lhes dou um beijo, quando lhes mostro (penso eu, de uma forma acima de qualquer dúvida) que as amo.

Comentário de Inês Meneses
Data: 2 Maio 2008, 13:44

Obrigada, Fernanda.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 2 Maio 2008, 14:02

É o lado negro, real, da “pessoa humana”, a psicopatia levada ao extremo. Chama-se maldade, é monstruoso, angustia-me e levanta-me muitas questões éticas e deontológicas - assumo a minha enorme relutância em “arrumar” estes comportamentos no conjunto da doença mental. A verdade, assim nua e crua, é que são funcionamentos humanos, ou dos humanos, se preferirem.

Comentário de Jorge Vassalo
Data: 2 Maio 2008, 14:02

Excelente texto Fernanda. Toca num ponto fundamental. Como decifrar as atrocidades cometidas por outros, como saber? Infelizmente, não creio que se possa…. Parabéns.

Comentário de Joaquim Alexandre Rodrigues
Data: 2 Maio 2008, 14:10

Fernanda Câncio:
A sua crónica de hoje no DN, A HUMANIDADE DO MAL, “fala” do “austríaco Fritzl e da sua filha Elizabeth”, no underground.
Fernanda Câncio:
A sua crónica fez-me lembrar o filme Underground, de Emir Kusturica (1995), http://www.imdb.com/title/tt0114787/, em que os de cima, os maus, criam um mundo de ficção aos de “baixo”, os bons.
É verdade: de vez em quando surge uma história assim. O mal irrompe. O mal habita-nos. Nem sempre no “underground”.

Cumprimentos
Joaquim Alexandre Rodrigues

Comentário de Inês Meneses
Data: 2 Maio 2008, 14:47

Ana, em boa verdade a doença mental também é um funcionamento humano e, julgo que estamos de acordo, a fronteira é artificial e movediça (como a maior parte das fronteiras). Se calhar este género de situação, como a Fernanda diz, cai fora das classificações que normalmente nos servem para organizar os problemas. Não serve falar em doença, como não serve falar em crime. É esta coisa, a tal ausência de fronteiras que, sabemos muito bem, também podia ser nossa.

Comentário de Isabel
Data: 2 Maio 2008, 16:11

é verdade Fernanda, há um bocado a fotografia dele passou repetidamente, acho que na CNC, e dei por mim a olhar fixamente aquele rosto (até me custa a escrever a palavra rosto, por humana) e a tentar perceber o que haverá por detrás daqueles olhos, daquele nariz, daquela boca, em tudo semelhantes ao do resto da humanidade.

Comentário de Hélio Martins
Data: 2 Maio 2008, 16:24

O que eu me pergunto é como é que será possível enganar (manipular) durante tanto tempo a sociedade, os amigos, a família, as autoridades e levá los a acreditar que estava tudo bem.

E não me digam que é por causa de uma carta que a filha supostamente escreveu em que a dizia que estava tudo bem, (carta essa que se veio a provar ter sido escrita pelo “pai” e por isso falsa).

Não era esta carta que me ia descansar, até porque uma pessoa não desaparece assim sem deixar rasto.

Comentário de Bluesmile
Data: 2 Maio 2008, 17:03

Os psicopatas existem.

Comentário de Saloio
Data: 2 Maio 2008, 21:15

Um óptimo texto, Sra. Dra. FC.

Sobre a maldade do ser humano, recordo uma imagem de um documentário feito a seguir à II Guerra Mundial sobre os campos de concentração nazi: à medida que os comboios carregados de judeus iam diminuindo a quase parando por fazerem fila para entrarem em Auchwitch, os populares civis locais faziam passar o dedo indicador direito pela base do pescoço num sinal de decapitação, enquanto riam para os olhos amedrontados dos que espreitavam pelas frestas dos vagões.

Quanto à banalidade do mal, e à malvadez dos simples anónimos, aprendi alguma coisa com a leitura de Hannah Arendt, em “Eichmann em Jerusalém”.

Digo eu…

Comentário de Rui
Data: 3 Maio 2008, 11:37

Também acho que é um texto excelente. Não consigo dizer que é belo. Mas que onde encontro beleza é na sua capacidade, Fernanda, de expressar muito bem a sua empatia para com as vítimas (algo de muito patente nos seus escritos) e o seu horror face ao mal.
Permita-me apenas acrescentar: nunca, nunca devemos parar de tentar compreender o mal, de tentar perceber as suas manifestações e de exercer “o dever da memória” (obrigado, Saloio). Mesmo que, como Sísifo, descubramos que o pedregulho, que procuramos levar ao topo da montanha, está sempre a cair para o abismo.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 5 Maio 2008, 0:53

Tens razão, Inês, em boa verdade a doença mental também é um funcionamento humano, só que desadaptativo e disfuncional para o próprio (e para terceiros), sendo que uma das características da psicopatia é exactamente causar sofrimento nos outros e não no próprio ou, pelo menos, o desnível do dito sofrimento no próprio e em terceiros é enorme. Quanto às fronteiras, mais que artificiais acho-as movediças.

Pingback de cinco dias » Será mesmo inimputável?
Data: 5 Maio 2008, 23:24

[...] a este tipo de questões que me referia, Inês. Mesmo não querendo, até porque não tenho quaisquer dados da avaliação clínica a que [...]

Comentário de Prakash
Data: 6 Maio 2008, 13:06

…sim, porque o Homem é deus e diabo….ou, melhor, está entra o deus e o diabo….

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