Força, companheiro Vasco

No filme A Vida de Brian, dos Monthy Python, uma das personagens mais estúpidas pergunta “mas afinal, que fizeram os romanos por nós?”. Alguém sugere: “o aqueduto”, “os esgotos”, “as escolas”, “as estradas”, e por aí adiante. O primeiro vai ficando irritado até que finalmente se vê forçado a responder: está certo, mas tirando os aquedutos, os esgotos, as escolas, as estradas, o direito, o comércio, e essas coisas todas — que fizeram os romanos por nós?

Na sua crónica de sábado sobre “O 25 de Abril”, Vasco Pulido Valente [VPV] garante-nos que “tirando as leis que instituíram a democracia, o PREC não deixou uma única reforma necessária e durável”. Com os termos definidos por VPV, em que 25 de Abril e PREC são tratados como intermutáveis, eis de novo a questão de A Vida de Brian: “mas afinal, que fez o 25 de Abril por nós?”.

Só que a resposta de VPV é mais divertida: “tirando as leis que instituíram a democracia”, nada. Por outras palavras: tirando eleições livres e justas, imprensa sem censura, extinção da polícia política, partidos políticos, fim da tortura e dos presos de opinião, liberdade de manifestação e associação, que fez o 25 de Abril por nós? Nada.

Alguém diz: então e a guerra? Eu não sei se o fim da guerra é uma “reforma”: para mim, é melhor do que isso. Ora, diz VPV, o “abandono de África não provocou nenhuma resistência interna, provando a artificialidade do imperialismo indígena”. Pois tirando o fim da guerra, que foram treze anos de “nenhuma resistência interna” mais a “artificialidade” de uns milhares de mortos, temos o quê? Nada.

***

E que reformas nos deixou o PREC? Três ao acaso: universalização das pensões de reforma, generalização das férias pagas e Serviço Nacional de Saúde. Mas não sei se cabem na definição de “necessárias” e “duráveis” de VPV. Terá sido a extraordinária diminuição da mortalidade infantil “durável”? Para os interessados, parece que sim. Terão sido necessárias as pensões adicionais? Para o milhão que passou a usufruir delas em poucos anos, sim. E as férias? Essas, como diz toda a gente, são muito necessárias mas pouco duráveis.

Recapitulemos: tirando os recém-nascidos que sobreviveram, os velhos que recebem pensões, os jovens que não foram à guerra e lotaram as universidades, os adultos que gozaram férias e o pessoal todo que viajou para o estrangeiro sem ser “a salto” e nem precisar de passaporte, que fez o 25 de Abril por nós? Nada.

Vasco Pulido Valente tem no entanto razão se pensarmos que em qualquer revolução há sempre coisas que já vinham de antes e outras que ocorrem depois, que a história é uma coisa atrás da outra, e que o resto é conversa. Um exemplo: a entrada na UE não é o 25 de Abril. Mas é muito duvidoso que chegássemos a uma coisa sem a outra. A não ser, é claro, para as mentes retroactivas da direita portuguesa, que ainda lamentam Marcelo Caetano porque nunca deixaram de acreditar que a única maneira de nos aproximarmos das democracias teria sido sempre dar mais tempo aos nossos regimes autoritários.

Em suma: tirando esse pormenor da democracia, tirando a descolonização e tirando o desenvolvimento, que fez o 25 de Abril por nós? Ridiculamente pouco, pelo menos se comparado com Vasco Pulido Valente, que só nos últimos meses já nos garantiu, para além desta pérola, que Menezes chegaria a primeiro-ministro e Mitt Romney seria o próximo presidente dos EUA.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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11 respostas a Força, companheiro Vasco

  1. Caríssmo,

    Touché!

    Zé Albergaria

  2. Model 500 diz:

    As asneiras ditas por Vasco Pulido Valente têm um paladar especial. Mesmo sabendo de antemão que nos últimos tempos o disparate em VPV é uma constante (será da idade?) a gente não o consegue deixar de ler. Deve-se, portanto, trata-lo com carinho. De resto é justamente isso o que o Rui Tavares faz neste artigo.

  3. atónito diz:

    Mais arrasador que este texto notável do Rui Tavares só mesmo uma daquelas frases assassinas do vpv

  4. Um grande tiro no porta basófias.

    Transcrevi-o nas minhas palavras cruzadas porque é de antologia.

  5. CMF diz:

    “generalização das férias pagas”
    O velho mito das férias pagas. Isto diz muito sobre a seriedade do texto.
    Ah, a descolonização!, pois, a descolonização…

  6. Saloio diz:

    Estimado Dr. Rui Tavares: eu estou consigo!

    Muito boa análise e encadeamento de evidências; por outras palavras: brilhante.

    Digo eu…

  7. Sérgio diz:

    Não deixa de ser significativo que as «elites» liberais-conservadoras se destaquem no ataque às possibilidades do 25 de Abril. É que deve ser uma chatice quando a «populaça» e a «canalha» começa a ocupar os mesmos espaços e a frequentar as mesmas escolas e a ir à praia. Igualmente interessante é a crítica sem grandes cuidados de verificação empírica sobre a sustentabilidade da coisa a que chamamos Estado Social, da qualidade do SNS ou da diabolização da escola pública como um coio de incompetentes ou delinquentes.

    P.S. Já reparei que tenho um homónimo que também é leitor do blog.

  8. paulo jesus diz:

    Até que enfim que aparece alguém a cascar na personagem de forma brilhante e certeira. Vários opinion makers da nossa praça têm-no como uma refererência (marcelo, júdíce) vá-se lá saber porquê…
    E pensar que o senhor foi, entre outras coisas, deputado do PSD no tempo de Fernando Nogueira não se conhecendo nenhuma intervenção na assembleia da república… Acho que disse mal (tinha que ser) das casas de banho do parlamento…É certo que já se veio retratar publicamante assumindo que foi um erro ter sido deputado.
    Era o mínimo…
    Convidem-no agora a ser mais um candidato à sucessão de Menezes.
    Já agora mais facada menos facada, mais traição menos traição, sempre nos divertíamos mais um bocadinho.
    Ah, o gozo que dá assistir às sucessões nos partidos democráticos…

    Muitos parabéns Rui Tavares!!

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