Pedro Ferreira: as maravilhas dos mercados financeiros

Cravei ao meu amigo Pedro Ferreira este texto. É a reflexão de um matemático que trabalha em modelos de análise de comportamentos dos mercados financeiros.

A crise actual dos mercados financeiros começou em Agosto de 2007 e tem-se prolongado até hoje. Na origem dos problemas actuais está a especulação com produtos derivados de empréstimos imobiliários de risco, donde o nome de crise dos subprimes. Nos mercados europeus e americanos a maioria dos bancos não financia os empréstimos imobiliários com fundos próprios, os empréstimos concedidos aos clientes são refinanciados nos mercados financeiros: os bancos emprestam aos clientes e pedem emprestado no mercado finaceiro. Os produtos que estão na origem da crise actual, Collateral Debt Obligations ou CDO, agrupam vários empréstimos de níveis de risco diferentes e deveriam, segundo as hipóteses de quem os criou ter um nível de risco muito pequeno pois a probabilidade de uma proporção significativa de empréstimos incluidos num CDO deixarem de reembolsar é ínfima. Para além disso os empréstimos são, em geral, garantidos por uma hipoteca o que permite ao banco recuperar uma parte importante do capital se o cliente não conseguir pagar.

Teoricamente tudo parece perfeito. Exceptuando alguns especialistas de matemática financeira mais cépticos que foram avisando que as coisas não são tão simples como parecem, os actores dos mercados financeiros entusiasmaram-se com os CDO, e o mercado cresceu exponencialmente.


Em Agosto do ano passado um número importante de americanos deixaram de poder pagar os empréstimos imobiliários o que causou uma baixa dos preços dos mercados imobiliários. As consequências desta queda nos mercados financeiros foram enormes, os preços dos derivados de crédito como os CDO cairam bruscamente (num dos casos a que assisti numa horas o preço de um CDO passou de 97% a 3.5%). Grande parte dos fundos e bancos de investimentos que investiram neste mercado foram surpreendidos pela dimensão da crise e os modelos de previsão e controlo de risco revelaram-se totalmente inúteis. As notícias de perdas de milhares de milhões de euros de perdas a que assistimos recentemente (Nothern Rock, Merril Lynch, UBS, Citi Group, etc), são a consequência das estratégias de investimento e das deficiências do controlo no mercado dos derivados de crédito imobiliário de alto risco.

Será que esta crise representa o fim do capitalismo financeiro? penso que não, o caso Nothern Rock que foi nacionalizado para evitar a falência mostra bem que os governos não hesitam em violar os dogmas por eles próprios estabelecidos para salvar o sistema. Provavelmente o número de intervenções estatais ou inspiradas pelos estados para salvar alguns actores importantes do sistema financeiro internacional vai aumentar nos próximos tempos. É também provável que o número de falências de instituições financeiras de menor dimensão, por exemplo fundos especulativos aumente fazendo assim desaparecer parte das fortunas de ricos investidores e do capital das reformas de muitos americanos e ingleses.

É também de esperar que os governos imponham novas regras de controlo do sistema bancário. A situação actual de alguns mercados financeiros em que o valor de um contrato é estabelecido por um único actor numa situação de quase monopólio e em que a estrutura dos contratos é tal que qualquer cálculo sério de risco é impossível levará à criação de regras protectoras contra a repetição de outras crises do mesmo tipo. Já em 1929 o capitalismo americano reagiu com uma forte intervenção estatal através do “New Deal”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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28 respostas a Pedro Ferreira: as maravilhas dos mercados financeiros

  1. Qual deles é o PS, o PSD, o Sócrates ou o Menezes?
    *o Goya era mesmo bom (parece-me bem que a Paula Rego concorda…)

  2. Conto do vigário: o Capitalismo (financeiro, mas igualmente económico, ideológico e moral) nunca morrerá, primeiro porque é inerente à natureza humana e segundo porque sabe que, se morresse, ia directamente para o Inferno.

  3. Lidador diz:

    “Já em 1929 o capitalismo americano reagiu com uma forte intervenção estatal através do “New Deal”.”

    Em 1929 não houve reacção nenhuma. O que houve foi o início de uma depressão.
    Que se deveu, como sabe qq economista, essencialmente à incompetência do estado numa coisa que era da sua exclusiva responsabilidade: cunhar moeda. E, já agora, ao anti-semitismo de quem não quis evitar o pânico, porque o Banco que faliu era “judeu”

    De resto, pintar como “positivas” a longo prazo , as medidas keynesianas, é ignorar completamente a falência da social-democracia nos anos 70 e o hoje consensual esgotamento do modelo.

    O que espanta é que haja pessoas que nada aprenderam da História.

    Quanto à “crise do capitalismo”, já está enterrado há mais de um século o profeta que garantia que era já a seguir .Mas volta nãom volta, aparecem uns cromos excitados , acabos de ler a boa nova, e que fazem questão de garantir que “agora é que é”.
    Entretanto quem jaz na vala comum da história são outros “ismos”.

  4. “consensual esgotamento do modelo”

    Consenso de quem?

  5. CARLOS CLARA diz:

    Assumir-se que a perversidade do capitalismo actual é própria do ser humano é assumir a falência de toda a ética e harmonia. Mas que importa a ética no meio de guerras assumidas como salvação dum ideal que aos submissos vai dando umas migalhas douradas . Nada. Nada para quem vende a sua alma na esperança duma banana de ouro que lhe é mostrada por uns segundos, para de imediato ser metida no bolso que pouco dá ou nada. Complexo de servilismo? Talvez… Eu já vi isso de tanto jeito.
    40% do petróleo é especulação , os bens essenciais estão em bolsa. O cerco é tão grande que nada deixa de fora. Alguns concordam. Concordam com medo de perder. É mais cómodo assim e os heróis morrem cedo. Que se lixe. Quem? – o próximo, bem entendido. Os cristãos.

  6. Lidador diz:

    ó clara, a poesia é muito bonita, a demagogia tb soa sempre bem, mas ei-lo aqui na converseta utilizando os belos frutos das sociedades capitalistas: computadores, tempo, dinheiro, internet e liberdade para dizer asneiras.

    Você é capaz de fazer melhor?
    Algum desse vento que lhe assobia na cabeça é capaz de fazer melhor?
    Ah, você sonha…sonha com ideais estratosféricos. É tão belo, tão moderno…e até o ajuda a passar por excelente pessoa.
    Mas aí, na viela iluminada da sua consciência, onde ninguém se pode esconder de si mesmo, responda a si mesmo: que modelo de sociedade já fez melhor, desde que o sapiens anda por aqui?
    Que quer você?
    Uma colmeia?
    Um lugar onde um Deus qq trate de si, o alimente, o aparique, o proteja?

    Você fala de ética. Que arrogância é a sua para se apropriar do conceito? Quem lhe disse que é a sua ignorância que marca a essência da ética?

    Migalhas douradas?
    Quer mais do que isso?
    Faça por isso. Mexa-se. Use a liberdade e as oportunidades, como outros fazem.
    Não tem medo de perder?
    Então o que faz aqui?
    Porque está sentado frente a um artefacto do capitalismo, a dar migalhas a asquerosos capitalistas que lhe vendem a cadeira, a elcetricidade, o computador, o sinal da Internet, a mesa, a casa?
    Porque não vai salvar o mundo para as terras do socialismo?
    Porque anda aqui, no universo capitalista, azedo e amargo?

  7. Lidador diz:

    “Consenso de quem?”
    Terei muito gosto em lhe responder se me apontar em que países se seguem hoje políticas keynesianas.

  8. Carlos Fonseca diz:

    Aqui há um lidador incansável, torpe e cego: porquê negar a valia das teorias de Keynes e não reconhecer os malefícios actuais dos ‘Chicago boys’ que retiraram a mão invisível de Adam Smith das catacumbas? Observe-se o comportamento catastrófico dos ‘sistemas financeiros’, a exigir muitos milhares de milhões injectados atestam. Onde anda o dogma de que os mercados se equilibram por si próprios?
    Na análise económica, como em outras áreas de saber, é recomendável que se seja sereno e objectivo. Sob pena de se cair na estupidez patológica crónica, a subjectividade e o tom propagandístico, se usados continuamente, destroem a seriedade e a objectividade do ambicionado préclaro discurso.

  9. al diz:

    Quer-se dizer nós é mais o socialismo laurentino, intervenção virtuosa do estado em matéria desportiva e patriótica.

  10. S.Cintra diz:

    o keynesianismo pratica-se p/e em Inglaterra
    a doutrina social de Keynes nem a madame Tatcher a conseguiu destruir por inteiro; mas isso são outras estratégias que só quem entende as teses marxistas e a teoria do imperialismo compreende; a commonwealth é grande, não tem despesas e gera receitas que chegam e sobram para financiar o SNS, reformas que dão para comprar vivendas no Allgarve e outras mordomias, como p/e a Educação que tansos como o Lidador nunca hão-de ter.

  11. CARLOS CLARA diz:

    Lidador
    Você picou-se. É natural em casos como o seu.
    Sempre me mexi, caro Lidador. Migalhas douradas nunca quis. Não vivo assim. Posso assegurar-lhe que vivo muito bem numa bela casa não com souvenirs das minhas grandes viagens, mas sim com arte.
    O que eu acho mesmo, é que só os pobres, os de espírito mesmo, acham que defender o que à comunidade pertence é lugar comum de fracos ou pobretanas que nada querem fazer pela vida. Essa é mesmo de rédea curta.

  12. O ideal do “Capitalismo” é inerente à natureza humana, disse eu. Mas não disse que tem a exclusividade disso. Compreende agora, Carlos Clara?

  13. S. Cintra: em cheio!

  14. Carlos Fonseca diz:

    Oh! o lidador calou-se. Coitado!

  15. Lidador diz:

    É lamentável que alguns criptomarxistas, agora travestidos de keynesianos, continuem a olhar o mundo através das teias de aranha ideológicas que a História já enterrou.

    Incapazes de engolir o sucesso da economia de mercado (apesar de se tratar de um modo geral de gente que, na prática, não se tem dado mal com ela) , assomam ciclicamente à porta da toca e, pela enésima vez, berram que agora é que é, agora é que vai estoirar a tão profetizada crise do capitalismo que irá abrir caminho à revolução marxista.
    É por isso que esta esquerda rejubila com esta e outras “crises”.
    Para esta gente, cujo anticapitalismo e antiamericanismo “teóricos” são dogmas divinos impermeáveis aos factos, quanto pior melhor.
    Mas os factos, sempre eles, estão-se completamente nas tintas para a ideologia.
    É que, goste-se ou não (e a esquerda festiva não gosta) o sistema capitalista é incontornável. Imperfeito, claro, como todas as realizações humanas mas, até onde a memória alcança, superior a qualquer outro (referência especial aos comunismos e derivados com que nos continuam a acenar e que, entre 1960 1990, tantos estragos causaram por esse mundo fora)
    A universalização da economia livre ( não tanto como seria desejável) tem garantido ao planeta um crescimento cuja média anual é de 5%.
    5% não é um número abstracto, não é um conceito ideológico e dispensa adjectivações moralistas. Em menos de 20 anos a economia de mercado trouxe a Europa Central da miséria para níveis de desenvolvimento que se aproximam a passos largos dos da Europa Ocidental e libertou 800 milhões de pessoas da pobreza absoluta na China, Índia, Brasil, etc.
    Nenhum outro sistema económico fez melhor, desde há pelo menos 30 000 anos.
    Uma queda de 1 ou 2% no crescimento americano é importante porque, apesar da retórica desejante sobre a sua decadência, os EUA são a locomotiva da economia mundial, estatuto que lhes é garantido pela capacidade de inovação, flexibilidade, segurança jurídica, um sistema fiscal amigo do investimento e o dólar como moeda de reserva.
    Ora estes pilares mantêm-se, não há concorrência no horizonte e as tendências de longo prazo apresentam, nos últimos 100 anos, um crescimento sustentado médio de 3% ao ano.
    Assim sendo, é evidente que a economia americana não está estruturalmente doente como sonham os marxistas serôdios.
    A tendência é sólida e, como todas as tendências, acomoda flutuações mais ou menos bruscas em ciclos mais curtos. Mas flutuações não são crises. Crise foi o que aconteceu em 1929 e em 1973.
    A 1ª porque a Fed cometeu o erro de suspender o crédito, a 2ª porque Nixon e mais tarde Carter, aplicaram serôdias medidas keynesianas, numa economia que já as tinha deixado para trás, com os mesmos resultados das sociais-democracias europeias: inflação galopante e desemprego.
    Desde então não houve mais crises, porque não só a Fed e o poder politico aprenderam com os erros, como a experiência ensinou que geralmente é mais sábio não interferir em demasia e deixar o mercado lancetar os seus próprios excessos.
    Que excessos?
    Uma economia de mercado baseia-se no princípio da destruição criadora: foi o que se passou com a bolha das dotcom em 2000 e se está a verificar agora com instrumentos financeiros relacionados com o crédito imobiliário.
    O facto de nem todas as inovações serem bem sucedidas, não conduz à conclusão de que o capitalismo financeiro e os seus instrumentos inovadores (como os derivados) estão todos errados.
    A complexidade dos mercados financeiros possibilita hoje disseminar o risco e conduz a mais investimento e, consequentemente, mais inovação.
    Haverá erros claro, mas o próprio mercado os corrige, numa dinâmica em que umas empresas morrem e outras nascem, num novo patamar de crescimento.
    O ciclo pode ser cruel e assustador para as pessoas directamente prejudicadas que, como é evidente, não encontram grande consolação no facto de o processo ter um saldo positivo para um maior número de pessoas.
    Mas é nestes momentos em que a demagogia dos profetas da desgraça procura semear o pânico, que convém explicar os princípios e benefícios da economia de mercado.
    Explicar por exemplo que o Estado não é o oposto do capitalismo e que este não funciona onde não há Estado.
    Explicar que o Estado não é jogador, mas o garante as regras do jogo e o ultimo recurso do sistema.
    Explicar que é apenas esse o seu papel, porque quando procurar contrariar a destruição criadora se torna perigoso, pelas perversões que introduz.
    Explicar que nos últimos 100 anos TODAS as grandes crises, a inflação galopante e o desemprego em massa, foram causadas por governos interventivos.
    Explicar enfim que o crescimento baixa onde não há Estado e onde há Estado a mais.

    Recordar a situação de quase falência a que as sociais-democracias inglesa, sueca e outras chegaram na década de 70, com a Grã-Bretanha a ter de recorrer ao FMI.

    Recordar aos papagaios do “imperialismo” e da cassete habitual, que alguns dos países mais ricos da Europa não só não têm recursos naturais, como nunca tiveram “colónias” para “explorar” e que portanto a sua riqueza provavelmente não vem da “exploração”.

    E recordar tb que se o Sr Clara se gaba de ser um nababo, isso não quer necessariamente dizer que anda a “explorar” os “oprimidos”, isto é, a sua apregoada riqueza, não resulta da pobreza dos outros.
    Percebeu caro Clara? Isto está claro para si?

  16. É verdade, lidador, tem toda a razão. Lembro-me aliás de há uns anos o economista Cesar das Neves dizer: isto são as dores de crescimento… daqui a 500 anos está tudo bem.

    É isto que o liberalismo tem para prometer às pessoas, que um dia, lá para o futuro, a riqueza será finalmente tanta que todos poderão beneficiar dela.

    Entretanto, há que matar uns de fome… Paciência, é por um bem maior.

  17. Carlos Fonseca diz:

    O lidador voltou. Porém, está perdido. Sonha com Adam Smith, invocando a fé (a teoria está cientificamente por justificar) no auto-equilíbrio do mercado. Iguala Keynes a Marx. Que trapalhada, coitado!

  18. CARLOS CLARA diz:

    Lidador
    Tonto seria se tivesse o capital por detestável. O mesmo não digo se acreditasse no capitalismo selvagem e no controlo financeiro sobre todos os bens. Aí sim, os pobres ficam mesmo com o apartamento da periferia em leilão. Quanto ao seu caso, eu nem o entendo. Problemas de guerrilha social? Há no Museu de Historia em Londres uma escultura muito interessante onde galos e galinhas tentam ficar perto do poleiro mais alto – o da galinha Rainha. E aquilo não pára… poucas aves estão tranquilas, muitas querem servir a dita galinha que tem ovos de ouro.
    Pronto, é assim a historia daquela escultura. É para crianças? Deixe lá… fiquemos por aqui.

  19. Lidador diz:

    “É isto que o liberalismo tem para prometer às pessoas,”

    Engana-se. O liberalismo não promete utopias nem montanhas de açúcar.
    Promete apenas a liberdade e a melhor oportunidade de cada um tratar de prosseguir as que tem na cabeça.
    Uns fazem asneira, outros têm sucesso, o somatório tem sido positivo.

    Promessas, visões de futuro, ventos da História, escatologias salvíficas, moralismos de pacotilha, é com as ideologias e as religiões, como o comunismo, o socialismo, o nazismo, o fascismo, o cristianismo, o islamismo e outros ismos de idêntica extracção.

    “mesmo não digo se acreditasse no capitalismo selvagem ”

    O capitalismo é um conceito claro e que dispensa adjectivações passionais.
    Quem se entretem a lançar epítetos sobre conceitos, diz ao que vem: sente em vez de pensar e acha que a sua moral é do tamanho do mundo.
    A fibra dos pequenos Robespierres, sempre prontos, quando têm poder, a imporem aos outros as suas repúblicas de virtude.
    Em nome do “bem”, evidentemente.
    É sempre em nome do “bem”.

  20. CARLOS CLARA diz:

    Agora acho que percebi. American way of life? Já deu o que tinha a dar. Quase no mesmo estilo… a China é que está a dar. E para quem olha o betão como única grandiosidade, já não é New York, é Shangai.

  21. Lidador diz:

    “E para quem olha o betão como única grandiosidade, já não é New York, é Shangai.”

    Deixe-se de homens de palha. A virtude da América e do seu capitalismo, não é o betão, é a inovação. É o maior nº de prémios Nobel em areas científicas. É a pujança da ciência e da tecnologia. É o ensino superior de excelência, não dependente de boas intenções governamentais. É o maior índice global e per capita de produção de livros, de leitura, de orquestras sinfónicas, de museus, etc.
    É o numero de radios, televisões e revistas. É a grandiosidade da produção artística, na música, no cinema, na literatura, na dança, na qrquitectura e no que lhe vier à cabeça.
    É a esmagadora maioria das patentes registadas.

    E contra isso o meu amigo debita estribilhos patetas e atira tomates aos homens de palha.

  22. A América é isso tudo, mas isso tudo não vem da mesma América. Há a América que matou o Luther King e o Kennedy, há a América que chacinou civis japoneses inocentes, há a América que mata nas ruas e nas Escolas todos os dias, há a América dos órfãos das guerras, há a América de Guantanamo, há muitas Américas e nem todas são o petisco que se pensa.

    E há bem melhor que a América: é o que dizem todos os indicadores mundiais de desenvolvimento humano. Humano, sim.

  23. CARLOS CLARA diz:

    Sr. Castanho
    Espero que conheça tão bem a América quanto eu a conheci.
    Se diz que há muito melhor que a América, estamos os dois de acordo.
    E que houve e há muito de bom na América, só um ignorante o não sabe.
    Mas do que eu falo é da América dos Bush e do capitalismo selvagem. Das ONG´s que não conseguem sair do país para fazerem a sua missão nos países do terceiro mundo porque há 60 milhões de americanos sem direito à saúde.
    Afinal o que é que eu disse anteriormente para ter ficado tão incomodado e vir em socorro da Santa América?

  24. Lidador diz:

    ” porque há 60 milhões de americanos sem direito à saúde”

    Mais estribilhos patéticos.
    Mitos tenebrosos sobre os EUA, é coisa que não falta por aí, e qualquer esquerdista de sofrível inteligência é capaz de papaguear meia dúzia deles, em reacção pavloviana ao estímulo certo.
    A acreditar na mitologia destes caramelos, a América é um vasto campo de sombras, assolado pelo “neoliberalismo”, onde se arrastam, gemebundas e inanes, multidões em sofrimento, esquálidas e cobertas de moscas e crostas.
    Neste tormentoso mundo de horror e morte, a besta negra maldita é o sistema de saúde americano, dado como o pior do universo, e não faltam especialistas que tal juram pelo seu coiro, começando pelo Dr Michael Moore.
    Caro Clara, o sistema americano está longe de ser perfeito, não porque não assegure serviços de excelência ao maior nº possível de cidadãos (assegura), mas porque é demasiado despesista relativamente aos resultados. De facto, são os USA que mais gastam em saúde, em todo o mundo. Não falando dos fundos privados, o investimento público em saúde é o 3º a nível mundial (per capita).

    Em termos simplificados, o sistema assenta nos seguros negociados pelas empresas para os seus empregados que querem aderir e para o qual pagam uma contribuição mensal ( de um modo geral inferior à cobrada aos europeus, via impostos)
    Para os pobres,( e nos EUA o estatuto de “pobre” é bastante generoso) e para os idosos, deficientes e outros inabilitados, existem desde há dezenas de anos os caríssimos Medicare e Medicaid.

    Onde está o problema do sistema?
    O problema está no facto de haver pessoas que não são “pobres”, mas não têm seguros privados
    Na maioria dos casos alegam que, apesar de não serem pobres, não ganham o suficiente para contratar seguros.
    Trata-se de uma alegação subjectiva, na verdade já vi pessoas a alegar, entre duas baforadas, que não têm dinheiro para comprar os livros escolares dos filhos,
    Feitas as contas, ao fim de um ano, o dinheiro gasto a comprar um macito de tabaco por dia, dava perfeitamente para comprar os livros para 4 ou 5 filhos, pelo que se trata de uma mera opção individual: há pessoas que preferem gastar o dinheiro noutras coisas do que num seguro de saúde.
    Estão no seu direito, como é evidente, mas não podem é querer ao mesmo tempo, sol na eira e chuva no nabal.
    Como o dinheiro do Medicare e do Medicai sai dos bolsos dos contribuintes, no fundo esta gente está a pedir aos outros que paguem as consequências das suas escolhas (é mais ou menos como o fartar vilanagem do sistema abortivo português).
    Esta gente fica sem tratamento?
    Não…nenhum hospital pode recusar uma urgência, pelo que o tratamento é prestado e depois o caramelo terá de pagar, embora 90% de todas as contas hospitalares, seja coberto através de pagamentos terciários
    O sistema não é perfeito, como já disse, mas permite uma medicina avançadíssima e oportunidade nos tratamentos, sem as listas de espera tão características dos sistemas europeus.
    E de resto há latitude para os estados criarem sistemas adicionais, como por exemplo na Califórnia, Massachussets, etc.
    Os sistemas europeus, por sua vez, têm também grandes defeitos, que a esquerda do “modelo social” se recusa a encarar: listas de espera, decisões unilaterais dos hospitais sobre se um olho é “mais importante” que uma perna, injustiça fiscal, degradação de instalações, falta de inovação, etc.
    Qualquer pessoa que se veja a braços com um problema sério, sabe que não pode confiar na celeridade da medicina socializada.
    Não foi por acaso que o socialista Jorge Coelho, ameaçado por um cancro, nem sequer entrou nas malhas do sistema e foi directamente, por cunhas e portas travessas, ao gabinete de um médico francês.
    E todavia ele, como todos os outros que viveram situações idênticas, pagam regular e principescamente a sua contribuição para um sistema que não os ajuda quando de facto dele precisam.
    É isto um sistema justo?
    De resto o sistema “europeu foi introduzido em New York pelo democrata Robert Wagner e o resultado foi a intervenção in extremis do governo federal para evitar a bancarrota do Estado.
    De resto a escolha é dos americanos e não dos patetas que por aqui ranzinzam as suas certezas fermentadas em ódio e ignorância.

    No fim de tudo, há algo a que não se pode fugir: é o povo de um país que paga as despesas, de uma forma ou de outra. A única questão é saber se paga directamente para seu benefício próprio, ou indirectamente através de burocratas estatais que dela subtrairão uma generosa fatia para pagamento dos próprios salários, equipamentos e demais despesas de funcionamento.

  25. Carlos Clara, deve haver um equívoco qualquer: eu respondi ao comentário anterior do “Lidador”, não ao seu (e qual?).

    E não me parece que o meu comentário seja exactamente uma defesa da “Santa América”! Tem a certeza de que me leu bem?

  26. Algarviu diz:

    É óbvio que o Lidador não é descendente do Sitting Bull…
    É óbvio que, da História do Capitalismo, o Lidador só vê as rosas…
    não se dá conta da extrema violência com que se impôs e que continua a impor… Comparado com os pioneiros do capitalismo, o Estaline é um menino de coro.
    É óbvio que se o Lidador vivesse no século XIII (e daí, sei lá se não vive), seria um ferrenho defensor da sociedade trinitária e amaldiçoaria tudo o que cheirasse a capitalismo.
    O ideário do Lidador fede!

  27. Lidador diz:

    “É óbvio que o Lidador não é descendente do Sitting Bull…”

    La Palice não diria melhor

    ” extrema violência com que se impôs e que continua a impor… ”

    Seja concreto. Tiradas demagógicas e mantras de sacristia, qq borrabotas pode debitar. São grátis e fáceis.

    “Comparado com os pioneiros do capitalismo, o Estaline é um menino de coro.”
    Concretize. A acção de Estaline está documentada. A dos “pioneiros do capitalismo” desconheço. Diga nomes e números, por favor, porque com generalidades e culatras, não alcanço a sageza das suas sentenças.

    “É óbvio que se o Lidador vivesse no século XIII”
    Se a minha avó não tivesse morrido ainda hoje estava viva. E é obvio que nem eu nem o meu amigo vivemos no sec XIII, mas no séc XXI.
    E se estou ao volante de um carro, uso travões, mudanças e acelerador, em vez de rédeas e esporas.

    “O ideário do Lidador fede!”
    As questões aromáticas e a problemática da sua pituitária são certamente muito importantes para si, mas não adiantam muito à questão.

    Preferia que o meu amigo olhasse para a mensagem, em vez de se pôr a cheirar o mensageiro.

  28. Algarviu diz:

    Lidador, tenho-o por uma pessoa de sólida cultura, actualizada informação, forte capacidade de argumentação e podia acrescentar outros elogios que a leitura do escreve sugere. (Pela mensagem, se vê o mensageiro). O problema está na premissa maior.

    Deixo aqui, uma vez por outra, comentários ligeiros, pretensamente irónicos. A net e a blogosfera não são os meus principais meios de intervenção social e cultural, nem quero fazer carreira naquelas áreas.

    Isto tudo para lhe dizer que os seus comentários mereceriam uma análise (combate) mais acurada e uma desmontagem dos seus argumentos falaciosos em prol de uma sociedade sem solidariedade, com base num laissez faire, laissez passer sem constrangimentos, tendo o Lucro como único deus, nem sequer seria tarefa de grande dificuldade.

    Pede-me objectividade nas considerações que fiz acerca da violência dos pioneiros (e não só, e não só…) do capitalismo. Se eu não concretizar, a farpa de borra-botas (corrija a ortografia, não tem de quê) que debita tiradas demagógicas e mantras (?) de sacristia com que me ameaçou passa de pena suspensa a pena efectiva.
    Ora bem, apesar da sua evidente larga cultura e informação, reconheço que não pode saber tudo. Na sua argumentação falaciosa, mesmo sabendo, prefere esquecer quando não lhe convém.

    Mas já ouviu falar do tráfico negreiro (é provável que o número – já que os exige – supere os 25 milhões); já ouviu falar do extermínio dos índios norte americanos (7, 8 milhões?); já ouviu falar das cocndições de vida na fase de arranque da Revolução Industrial; já ouviu falar dos subversivos (a soldo de Moscovo, naturalmente) Dyckens, Dumas, Twain; já ouviu falar da Guerra do Ópio (guerra santa para V., uma vez que o objectivo era a abertura de mercados);
    já ouviu falar de Lawrence da Árabia, outro paladino lutador pela trnsparência do mercado; já ouviu falar da Primeira Guerra Mundial e se calhar também da Segunda, o que dá pelo menos 50 milhões de mortos.

    Chega? Olhe que nem foi necessário fazer pesquisa…

    V. bem pode argumentar. Mas a História não se muda porque V. quer.
    E o Mundo e os Homens (que treta é essa da imutável “natureza humana”?) hão-de mudar. Para melhor, apesar de V. e dos muitos que acreditam (uma questão de fé?) que o Capitalismo é o fim da História.

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