João Rodrigues: comentário ao post de Pedro Ferreira

Pedro Ferreira descreve um dos epicentros da actual crise financeira. Este interessante contributo merece-me os seguintes comentários:

1. Os processos de inovação, típicos do capitalismo financeirizado, traduziram-se na criação de novos produtos cujo objectivo declarado é proporcionar uma maior dispersão do risco que cada agente enfrenta nas suas operações de concessão ou contracção de crédito e ao mesmo tempo multiplicar a realização de operações de natureza puramente especulativa, potencialmente rentáveis, assentes em cadeias de crédito cada vez mais frágeis. Um dos efeitos perversos desta panóplia de produtos foi a criação de uma percepção generalizada de que não existe nada mais do que um somatório de riscos individuais, com natureza mais ou menos probabilística, que pode ser facilmente enfrentado. Segundo, o The Economist de 16 de Agosto, o banco de investimento “Goldman Sachs” admitiu que os seus fundos foram atingidos por movimentos de preços identificados pelos modelos matemáticos como 25 desvios do seu nível “normal”. A probabilidade de tal acontecer seria de 0.000…0006, com 138 zeros pelo meio. As instituições financeiras dependem cada vez mais de sofisticados modelos matemáticos na avaliação presente e futura dos seus activos financeiros. No entanto, dificilmente os mercados se comportam como as leis da física.

2. Ignorou-se assim a possibilidade de emergência de um risco sistémico cada vez mais importante, precisamente como o resultado global não intencional dos comportamentos de cada um dos agentes do mercado. A complexidade crescente dos instrumentos financeiros contribuiu para aumentar a opacidade global do sistema. Notar que o problema é estrutural: os mercados financeiros são propensos a este tipo de padrões dada a natureza da sua actividade: «A concorrência não funciona bem na finança. Os ‘produtos’ da indústria financeira são promessas para um futuro incerto, vendidas como sonhos que se podem transformar em pesadelos» (Martin Wolf do Financial Times). É o que está a acontecer agora. Dado o papel nevrálgico do sector financeiro, os impactos sobre o resto da economia podem ser grandes.

3. Isto justifica as intervenções discricionárias maciças e variadas dos Bancos Centrais a que temos vindo a assistir. Estes, como bem se destaca, não hesitam em violar os princípios liberais assentes na absoluta confiança na bondade das forças de mercado. Fazem bem. No entanto, a sua intervenção limita-se, por enquanto, a gerir os danos sem colocar realmente em causa a actual configuração dos mercados financeiros.

4. Dito isto, esta crise financeira é apenas a última de uma sucessão de crises financeiras que marcaram as três últimas décadas e que não podem ser desligadas dos processos simultâneos de desregulamentação e de liberalização financeiras que reabriram a caixa de Pandora da especulação suportada pela infindável criatividade dos agentes financeiros.

5. A referência ao New Deal é importante, mas não me parece que esteja por enquanto em cima da mesa um esforço político de enquadramento e limitação das actividades dos mercados financeiros com a mesma extensão e ambição. Não há dúvida de que precisamos mesmo de uma vaga de reformas estruturais que superem muitos dos arranjos institucionais que suportam o capitalismo financeiro. Nacionalizações, taxação sobre as operações da finança especulativa, regras muito mais apertadas para a actividade bancária, controlo de capitais, separação entre as várias actividades da finança, etc. Foi este o espírito do New Deal. Foi isto que garantiu várias décadas de estabilidade financeira. É por aqui que temos de ir.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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9 respostas a João Rodrigues: comentário ao post de Pedro Ferreira

  1. Pedro Ferreira diz:

    Meu caro João Rodrigues. Muito obrigado pelo seu texto. É muito interessante ler o total disparate que é a estimação de uma probabilidade inferior a 25 desvios padrões atribuida por um modelo a um evento que ninguém sabe modelizar correctamente. Muitas equipas internas de bancos e fundos de investimento lançaram-se numa corrida à modelização das correlações entre eventos de falência sem um mínimo de reflexão, tendo produzido modelos demasiado simplistas.

    Tem razão quando sublinha que os mercados não obedecem a leis como a física, no entanto, esta crítica não deve esconder o facto de que o tratamento da valorização de produtos financeiros deve ser feito seriamente. Nenhum modelo matemático poderá prever o mercado, se esse modelo existisse, por definição o mercado acabava. Simplesmente a finalidade dos modelos é de dar informações suplementares sobre o comportamento de um produto complexo (por exemplo uma opção) em função da evolução de outro produto (por exemplo uma acção), estes modelos tem uma importância cada vez maior pois permitem (quando são matemáticamente e financeiramente relevantes) atribuir valorizações coerentes a produtos complexos e medir o risco.

  2. Lidador diz:

    “No entanto, dificilmente os mercados se comportam como as leis da física.”

    Se se refere a modelos lineares, é obvio que não. Mas quanto à dinâmica dos fluidos a coisa aproxima-se. O resto é psicologia ..

    “Estes, como bem se destaca, não hesitam em violar os princípios liberais assentes na absoluta confiança na bondade das forças de mercado”

    A falácia do homem de palha. O liberalismo económico não é anarquia. Pressupoe um estado e uma intervenção. Exige essa intervenção. Não existe liberalismo onde não existe estado. Mas tb não existe onde há estado a mais.

    Agora se o NRA, e os nostálgicos de um certo modelo de estado, necessitam de fazer caricaturas do “adversário” para o poderem criticar, têm de analisar-se a si mesmos….a desonestidade intelectual não explica tudo.

  3. Lidador diz:

    E, já agora, como já disse no outro post sobre o tema, a economia de mercado baseia-se no princípio da destruição criadora. Aconteceu em 2000, com a bolha das dotcom em 2000 e está-se a verificar agora com os novos instrumentos financeiros do crédito imobiliário.
    O facto de nem todas as inovações serem bem sucedidas, não conduz à conclusão de que o capitalismo financeiro e os seus instrumentos inovadores (como os derivados) estão todos errados.
    A complexidade dos mercados financeiros possibilita hoje disseminar o risco e conduz a mais investimento e, consequentemente, mais inovação.
    Haverá erros claro, sempre houve, mas o próprio mercado os corrige, numa dinâmica em que umas coisas morrem e outras sobrevivem , num novo patamar de crescimento. Como a natureza..
    O ciclo é talvez cruel para as pessoas directamente prejudicadas que, como é evidente, não encontram grande consolação no facto de o processo ter um saldo positivo para um maior número de pessoas.
    Mas é nestes momentos em que a demagogia dos profetas da desgraça descamba em histeria ignorante, que convém explicar os princípios e benefícios da economia de mercado.

  4. Pedro Ferreira diz:

    ““No entanto, dificilmente os mercados se comportam como as leis da física.”

    Se se refere a modelos lineares, é obvio que não. Mas quanto à dinâmica dos fluidos a coisa aproxima-se. O resto é psicologia ..”

    Meu caro o problema não está na linearidade ou não linearidade dos modelos. O modelo que até hoje mais sucesso teve na finança de mercado é representado pelas equações de Black-Scholes que são lineares (para exercício europeu). O comportamento dos fluidos não se altera quando se identificam as leis que os regem. Já nos mercado financeiros o sucesso de um modelo provoca a sua invalidação, ou a morte do mercado. A razão é simples se um modelo é fiel ao mercado então ele permite um certo grau de previsibilidade e transforma-se assim num instrumento que permite jogar contra o mercado. Este fenómeno produziu-se com o modelo de Black-Scholes que condensa a dinâmica das acções num número único chamado volatilidade, até 1987 as observações no mercado concordavam com a existência de uma volatilidade única independente do valor das acções, a partir de 1987 começa a observar-se o “smile” em que a volatilidade deixa de ser única o que está em contradição com o modelo de Black-Scholes. Por volta de 1987 a utilização das fórmulas de Black-Scholes tinha-se generalizado nos mercados de opções.

  5. O que nos vale é o Lidador: com ele tudo é simples e a Natureza e o Mundo em geral são como um filme de Óliúde, há os maus e os bons e no final ganham os bons e pronto(s).

    O resto é psicologia (da loja chinesa, subentende-se…).

  6. “No entanto, dificilmente os mercados se comportam como as leis da física.”

    Quais leis da física?

    Há muitos fenómenos não lineares cujo comportamento a física não consegue prever exactamente. O que não quer dizer que não os estude e não procure a sua descrição matemática. A física é muito ambiciosa, João. Pretende descrever tudo. Até o Louçã já trabalhou em modelos de econofísica.
    Abraços.

  7. Lidador diz:

    Carp PF, o comportamento de um determinado stock que tenha volume suficiente e que esteja dissemindo por um nº suficientemente grande de investidores, é como um sistema caótico no qual existem ilhas de regularidade. Não é possível prever onde e quando elas vão surgir, mas a regularidade em si é previsível.
    É verdade que se todos os investidores estivessem na posse da mesma informação ao mesmo tempo, e se fossem iguais na forma como a usam, antecipar-se-iam à regularidade e ela não aconteceria.
    Mas o comportamento “real” dos investidores não é esse e a sua realidade pode tb ser aproximadamente descrita em modelos matemáticos.
    De resto, já não estamos em 1987. O PF nem imagina a sofisticação dos modelos de análise que hoje existem, desde as elementares Médias móveis a algoritmos com fractais, numeros de fibbonacci, etc.

    E em permanente actualização, incorporando a sua própria evaporação pelo uso.
    O facto de existirem tantos modelos, reconduz aliás o comportamento do stock a uma meta-regularidade. E há em cada momento milhares de pessoas a tentarem encontrar o melhor modelo que a descreva.
    Dá-se até o caso de no assunto estarem metidos Prémos Nobel da Economia.

  8. Pedro Ferreira diz:

    Meu caro Lidador, não sei de onde lhe vem a ideia do meu nível de ignorância dos modelos, mas posso dizer-lhe simplesmente que o meu trabalho actual consiste exactamente em produzir modelos para derivados de crédito e acções. Acho interessante citar os prémios Nobel de Economia pois certamente não conhece o episódio LTCM. Um fundo de investimentos fundado por dois Nobel de economia e cuja estratégia se baseava na utilização de modelos sofisticados faliu e levou a uma intervenção da FED para evitar uma crise de grande dimensão na bolsa de valores de New-York.
    Os modelos de previsão do comportamento de mercado (cita as médias móveis mas o mais utilizado é o chamado retorno à média) perseguem todos uma quimera, a ideia de que o passado permite prever o futuro. Historicamente tem-se observado que nos mercados os períodos de calma alternam com períodos agitados, ora nos períodos de calma as estratégias baseadas na estatística permitem ganhos ligeiramente superiores à taxa de juro sem risco, se juntar a isso o chamado “leverage” tem uma explicação para o sucesso dessas estratégias. Simplesmente quando os mercados entram em períodos de agitação assiste-se a uma verdadeira hecatombe (exactamente como está agora a acontecer com os subprimes). Sobre este assunto aconselho-o a ler Nassim Taleb (“fooled by randomness”, “the black swan”).

  9. Lidador diz:

    Caro Pedro, já vi que afinal não parou em 1987 o que torna os seus comentários mais sofisticados do que pareciam.
    Claro que estou a par do caso LTCM, mas voltamos ao mesmo. Não pode o Pedro sustentar as suas conclusões gerais numa alegação particular..é como aquela nova iorquina que não percebia como é que o Bush tinha ganho as eleições umavez que toda a gente que ela conhecia tinha votado Kerry.

    De resto veja como a sua argumentação é contraditória: acha que os modelos de previsão são quimeras, mas trabalha neles e reconhece que há ilhas de regularidade, períodos de calma em que há gente que consegue ganhos sustentados.
    E tem razão…o que prova por si que não é apenas uma quimera.

    Os modelos “bons” são aqueles que exploram uma falha de informação e falhas de informação estão sempre a surgir porque as pessoas não agem de forma monolítica. Evaporam quando toda a gente os conhece, como é evidente.
    O facto de o sistema funcionar é provado pela sua resiliência. Nunca como hoje houve tanto dinheiro investido nos meracdos financeiros. Acha que toda essa gente está enganada? Desde a dona de casa que dá uma ordem de execução, por palpite, até aos market makers que executam ordens de fundos gigantescos?

    Neste caso do subprime, uma inovação financeira falhou. E então?Será descartada, haverá sangue, mas outras consolidaram-se, roda continua e o mundo não acaba. Está sempre a acontecer, há bactérias que sobrevivem ao antibiótico e a próxima geração torna-se mais forte.

    O conceito de destruição criadora deve dizer-lhe algo…

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