O y do rey

Na década de 1770, o Marquês de Pombal pediu aos censores do rei que tomassem uma decisão entre as várias propostas de ortografia que então surgiam – a de Luís António Verney, a de António José dos Reis Lobato e a de João Pinheiro Freire da Cunha, entre outras – para que a coroa a pudesse utilizar nos seus documentos oficiais. Depois de dois anos em discussão, os censores discordavam de quase tudo e baixaram os braços. Havia apenas uma decisão tomada: uma vez que a letra y não tem, em português, uma pronúncia diferente da letra i, poderia com vantagem ser abolida. Até que alguém se lembrou: não podemos! Não podemos, porque el-rey se escreve com ípsilon… e sua majestade “assim escreve na sua real firma”.

E ora aí está como nem o Marquês de Pombal, no auge da monarquia absoluta, conseguiu chegar a um acordo ortográfico. E porquê? Por causa de alguma dificuldade intrínseca à língua? Não – por causa de uma dificuldade política. A dificuldade política era esta: colocados perante uma decisão, os decisores mal chegaram a perguntar-se o que podia fazer-se, porque estavam obcecados com o que não se podia fazer. A obsessão com o que não se pode fazer, em Portugal em geral e em particular, ganha sempre à ideia do que se pode fazer.

Por esse mundo fora, as universidades correm para abrir departamentos de inglês e, também, de espanhol. Quanto aos departamentos de português temos de pedinchar para abrirem novos e rezar para não fecharem os que existem. Mas não lhes facilitamos a vida: o professor brasileiro vai ensinar na aula da manhã que o professor português, na aula da tarde, está errado – e vice-versa. O Instituto Cervantes, tal como a Alliance Française, tem meios ao seu dispor com que o Instituto Camões só pode sonhar. Mas se um dia quiséssemos juntar dinheiro e esforços com os brasileiros para tentar dar um pouco mais de luta, a primeira pergunta seria: sim, mas em que ortografia? Passei os últimos dias no “Letras em Lisboa”, a versão portuguesa do excelente Fórum das Letras de Ouro Preto. Como é natural, toda a gente – portugueses, brasileiros e africanos – se entendeu perfeitamente. Mas se os respectivos governos quisessem emitir um comunicado sobre o evento, teriam de emitir dois comunicados – um em cada ortografia. Com esses dois comunicados oficiais, dirigir-nos-iamos às Nações Unidas para pedir que o português fosse língua de trabalho, com duplicação de custos, incerteza sobre a norma a utilizar e mais trabalho em geral. Para quê fazer fácil, quando se pode fazer difícil? Como em 1770, estamos obcecados com o que não podemos fazer. Os brasileiros não podem perder o trema em lingüiça, com medo de não saber pronunciar a palavra e morrerem à fome. E os portugueses não podem perder as consoantes mudas, para saberem que têm de abrir a vogal anterior. Porém, mostrem-me um português que pronuncie actividade com a primeira vogal aberta, e eu mostrar-lhes-ei dez que pronunciam “âtividade”. E, por último, temos Vasco Graça Moura prevendo que as famílias portuguesas terão de inutilizar milhares de livros quando o acordo for aprovado. Quero daqui lançar um apelo público a Vasco Graça Moura: não deite no lixo os seus livros na velha ortografia quando ela caducar. Não deite fora os seus livros oitocentistas que escrevem pharmacia com ph, nem os setecentistas que escrevem el-rey com ípsilon. Não lance esses livros no lixo: ofereça-mos.

14.04.2008

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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20 respostas a O y do rey

  1. Parcial diz:

    Caro Dr. Rui Tavares
    Na altura, no séc. XVIII, não seria acordo, mas reforma.
    Alias, acordos ortográficos, só portugueses, porque os outros países os não fizeram e a ideia provocou risos e gargalhadas. Aqui, pagamos o preço de sermos periféricos e incultos.
    É muito portuguesa, isto das reformas ortográficas. Os outros países preferiram concentrar os seus esforços em coisas substânciais, como a erradicação do analfabetismo.
    Este gosto pelo arrebique, pelo fútil é muito português.
    Quanto à redacção de comunicados conjuntos – questão muito importante em dois países com números escandalosos de analfabetismo e ileteracia-conviria perguntar aos USA e à Grã-Bretanha como resolvem o assunto. Talvez usar a norma do país anfitrião ou cada um usar a sua.
    Pena que não se preocupe em saber da energia que se gastaria com esta inutilidade, melhor gasta na luta contra o anlfabetismo.
    Há coisas em que estamos de acordo: estes governos (todos, isto não é uma questão esquerda-direita) não dão dinheiro ao Instituto Camões porque isso exige um esforço substancial e escolhas que eles preferem não fazer em nome destas flores dos acordos…
    A perda dos cês e pês parece-me grave e uma amputação da língua portuguesa e com as consequências enunciadas por Viana. Já Fernando Pessoa, aliás, considerava a reforma de 1911 um acto imoral e impolítico. Fernando Pessoa, que nunca adoptou a nova grafia, fez mais por Portugal e pela língua portuguesa mais que vários séculos de gerações de linguístas e políticos.
    P.S. Sobre o ph: tenho de o usar para escrever philosophie em francês e alemão, e philosophy se usar o inglês. É por isso que naqueles países decadentes – com escrita arcaica – a filosofia estiola, enquanto entre nós é o que sabemos. As vantagens de uma ortografia revista estão à vista.

  2. joão viegas diz:

    Subscrevo plenamente. Parece-me que temos tendência a esquecer que o acordo ortografico apenas visa estabelecer um padrão para a administração (nesse caso : para as administrações dos paises signatarios do acordo). Nada mais, nada menos. Ninguém ira preso por continuar a usar a grafia antiga, tal como ninguém vai preso, hoje, se usar o ph. Como muitos leitores portugueses, descobri Fernando Pessoa numa edição… brasileira e não morri, nem fui preso, nem veio a policia apreender os livros que tinha em casa…

    O que invieza um pouco a questão é a circunstância da administração ter a incumbência de ensinar a lingua às crianças, e de ela o fazer seguindo a sua norma grafica. Isto significa que a norma utilizada pela administração vai repercutir-se, a médio e longo prazo, na pratica da lingua. Reparem que poderiamos imaginar que deixasse de ser o caso, e que os ditados fossem concebidos assumindo que podem existir varias grafias para uma mesma palavra (é, de resto o que se vai passar num primeiro momento, o erro de quem escrever “acto” sera necessariamente julgado mais grave do que o erro de quem escreve “atu” ou “atto”). So não o fazemos porque espontaneamente, achamos do interesse geral não complicar. E porque achamos que é do interesse comum ensinar uma grafia unica (apesar de existirem inumeras normas fonéticas, mesmo dentro dos limites do territorio continental). Mas essas razões não são também validas para unificarmos a grafia com o Brasil e os outros paises de LOP ?

    Colocadas as coisas nessa perspectiva, a questão levantada pelo acordo é apenas a seguinte : existem mais vantagens ou mais inconvenientes em unirmos os padrões utilizados pelas administraçoes dos paises de LOP ?

    Admito que se possa responder negativamente, em particular para quem teme o desaparecimento daquilo que faz, hoje, a especificidade de alguns “regionalismos” (em termos latos, sendo que o português de Portugal é, hoje em dia, em relação ao do Brasil, um regionalismo) Mas uma resposta negativa, tendo em conta o peso relativo dos diversos paises implicados entre si , e de todos em relação ao resto do mundo, significa necessariamente que renunciamos a dar ao português uma dimensão internacional e a reinvindicar que lhe seja conferido o estatuto de uma das grandes linguas europeias.

  3. joão viegas diz:

    Desculpem algumas gralhas e leiam “menos grave” onde escrevi “mais grave” (no segundo §).

  4. Parcial diz:

    Se se trata de nos sujeitarmos ao número… E, mesmo assim sempre direi que sacrificar princípios não compensa. Mas, a dimensão inernacional do português não é dada pelo número. É dada, em último caso, pelos índices de desenvolvimento humano (IDH) de quem o fala. É a literatura e a investigação, a vida cultural, o prestígio que daí advém, que podem afirmar o português no mundo (com todas as variantes). E direi que essa afirmação irá a par não dos desejos, mas das conquistas concretas e verificáveis. Direi, ainda, que a afirmação do português irá, por exemplo, a par com a do conhecimento da matemática ou a da física, (pois é, essas «coisas» terríficas que nem aqui nem no Brasil são compreendidas) não com ambições infantis que, infelizmente, juntam o provincianismo de 3 continentes.
    Olhe, por «condições reais»: este ano não havia dinheiro para pagar a professores na Alemanha para ensinar o português aos filhos de emigrantes.

  5. joão viegas diz:

    Parcial,

    Obviamente, todos os factores que refere devem ser levados em consideração. Mas quando li Fernando Pessoa pela primeira vez (ha uns bons 20 anos) a edição mais comoda, mais completa, etc. era a brasileira. Hoje os bons dicionarios de Português (o Houaiss, o Caldas Aulete, o Aurélio) são na maioria… brasileiros.

    Todos os Paises de LOP são pobres e os orçamentos publicos dedicados à educação e à cultura são o que são. Mas, precisamente por essa razão, tem algum sentido continuarmos de costas uns para os outros ? Não devemos antes facilitar as coisas e permitir que, no futuro, a produção de livros, filmes, discos, etc. em lingua portuguesa seja feita para beneficio de todos os falantes de lingua portuguesa ? Não havera maneira de colocarmos os esforços feitos em defesa das nossas literaturas ao serviço de todos ? No caso dos leitores de português no estrangeiro, não sera mais facil arranjar verbas se eles ensinarem uma lingua que se apresenta como a mesma que é falada no Brasil ?

    Precisamente por sermos paises com raizes e uma historia comuns, não percebo porque é que haveriamos de ter medo da unificação da grafia. Os Brasileiros também lêm Camões e o facto de eles lerem Camões é uma das melhores garantias que temos que a nossa cultura (e a nossa lingua) não vai desaparecer tão depressa.

    Da mesma maneira que v. leu Camões, Sa de Miranda, etc. numa grafia diferente da utilizada por esses autores, porque se procurou actualizar a norma por forma a estar de acordo com a pratica da lingua, estamos perante uma tentativa de alcançar uma grafia comum aos locutores de português de hoje em dia.

    Sinceramente, não vejo onde esta o provincianismo (ou melhor, vejo muito bem, mas não me parece que esteja do meu lado)…

  6. joão viegas diz:

    Parcial,

    Os factores que refere devem ser levados em consideração mas repare que, quando li Fernando Pessoa pela primeira vez (ha mais de 20 anos) a edição mais comoda, completa, etc. era brasileira. Hoje, os dicionarios que tenho em casa e que considero bons são brasileiros (o Houaiss, o Caldas Aulete, o Aurélio)…

    E certo que todos os paises de LOP são pobres e que os orçamentos para a educação e a cultura são o que são. Mas, precisamente por essa razão, tem algum sentido continuarmos de costas voltadas uns para os outros ? Não devemos antes facilitar as coisas por forma a que a produção de livros, discos, filmes em lingua portuguesa possa, no futuro, beneficiar a todos os falantes ? Os leitores de português no estrangeiro não arranjarão verbas mais facilmente se ensinarem uma lingua que se apresenta claramente como a mesma que é falada no Brasil ?

    E não vejo onde esta o perigo, mesmo do ponto de vista da salvaguarda do “nosso” patrimonio cultural e linguistico. Porque Portugal, o Brasil e os restantes PLOP têm raizes e uma historia comuns. Não percebo o medo perante a unificação da grafia. Os brasileiros também lêm Camões, sabe, e o facto de eles lerem Camões é a melhor garantia que podemos ter de que a nossa lingua não vai desaparecer tão cedo.

    V. leu Camões, Sa de Miranda, etc. numa grafia diferente da usada por esses autores, porque houve reformas que procuraram manter uma norma grafica em acordo com a pratica da lingua (pratica que é essencial e que faz com que a lingua permaneça uma lingua viva). O acordo ortografico não faz outra coisa. Estamos a tentar implementar uma norma que possa ser utilizada por todos os locutores de lingua portuguesa de hoje…

    Sinceremante, não vejo onde esta o provincianismo. Ou melhor, vejo, mas não penso que esteja do meu lado.

  7. A reforma de 1945 conservou o “c” em “actividade” por uma questão de consistência com palavras onde se abre o “a”: activo, activar, activista…
    Este tipo de consistência é uma das coisas que não sobrevive a este acordo: “Egito” e “egípcio”, “espetáculo” e “espectador”, “apocalipse” e “apocalítico”, etc.

  8. Miguel RM diz:

    O problema nesta discussão é que em Portugal é sempre considerado mais “sexy” quem é contra “eles”. Os opositores do acordo tentam demagogicamente insinuar que este acordo resulta da vontade dos “políticos”, dos “poderosos”, etc. contra nós, simples mortais. Tenciono ainda nesta semana, enquanto simples mortal, lançar um blogue em que defenderei os direitos dos utentes da língua favoráveis ao acordo ortográfico.
    Na discussão de ontem no “Prós e Contras” achei bem interessante as posições dos africanos e dos brasileiros presentes. Os “contras” Graça Moura e Alzira Seixo são certamente pessoas estimáveis, mas parecem viver num mundo de ficção, o primeiro convencido da saúde pujante do português e a segunda muito preocupadinha em nos mostrar a sua “estatura” universitária. Só tenho pena que Carlos Reis, que defende o acordo com inteligência, não seja mais bem educado e menos convencido. Subscrevo inteiramente o que disse Lídia Jorge sobre o carácter irresponsável do alarmismo de Graça Moura.
    Não vai ser fácil ganharmos esta batalha, porque nós apenas queremos um acordo limitado, reformista, que é um passo na boa direcção. Pelo contrário, os nossos adversários têm todas as caracteristicas que são promovidas no espaço público: teorias da conspiração, apelo à salvação da pátria, anti-autoritarismo glamoroso.

  9. O comentário de F. Frazão conduz-nos à questão técnica do Acordo, que tem sido insuficientemente discutida por causa das questões políticas ou até “ideológicas”. A minha pergunta é: o conteúdo das alterações decorrentes do Acordo FORAM BEM DEFINIDAS?

    É que os exemplos de Franc.º Frazão podem multiplicar-se muito: elipse e “elítico”, “caráter” e característico, expectável e “expetabilidade” (?), e por aí fora…

    Parece-me que a maioria das pessoas está obcecada com a discussão do “sim” ou “não” ao Acordo – discussão do tipo “Benfica-Sporting”, que é normalmente o máximo a que a generalidade dos portugueses, jornalistas incluídos, consegue alcançar sem insuportáveis “dores-de-cabeça” -, esquecendo a discussão primacial: quem produziu a base técnica para o Acordo, fez um bom trabalho, ou esteve a perder o seu tempo com algo que, mais tarde ou mais cego, poderá revelar-se FORÇOSAMENTE REVERSÍVEL por motivo de incoerência linguística insanável?

  10. ” (…) mais tarde ou mais cedo (…)”

  11. Parcial diz:

    Quanto às questões em si do acordo nem vale falar: creio que não há possibilidade de mexer artificialmente numa língua formada ao longo de séculos sem que se quebrem a sua coerência e congruência internas (de tal modo que podemos, por vezes, não sendo especialistas, adivinhar ou intuir excepções).
    Miguel RM:
    A Maria Alzira Seixo colocou bem o problema: uma reforma ortográfica apenas faz sentido quando vem expressar a nível de norma o que já se passa no quotidiano. Nunca dei por qualquer erro em “acto”, por exemplo.
    Escreveu: «Os opositores do acordo tentam demagogicamente insinuar que este acordo resulta da vontade dos “políticos”, dos “poderosos”, etc. contra nós, simples mortais.»
    O Miguel RM não desconhecerá, por exemplo, que antes de 1911 não havia qualquer diferença entre as ortografias portuguesa e brasileira. que a diferença é fruto da comissão de 1911. Foram os poderosos (poderosos periféricos, mas poderosos) – e infelizmente pouco sensatos – mas o suficiente para criar o actual estado de coisas, que “evoluíram” a língua… Quem lhe disse que philosophia evolui para filosofia? Em França ou na Alemanha ou em Inglaterra não evoluiu e não deve ser por falta de letrados ou de vida intelectual.
    Foram os «poderosos», ou seja, meia dúzia de sábios, como então se dizia, nomeados pelo governo (o assunto interessava pouco, num país com 75% de analfabetos).
    E tem dúvidas, agora, que são os poderosos (ainda que continuem periféricos) que querem decidir «isto», um acto absurdo por estas razões e com esta extensão em qualquer outro país?
    Qual terá sido o motivo pelo qual Fernando Pessoa que nunca adoptou a nova grafia – que não era totalmente idiota – considerou a reforma imoral e impolítica?… A ele, por exemplo, ninguém perguntou nada.
    Ah, eu leio em português do Brasil. Com certeza. Mas aqui leio e escrevo o português europeu. Qual o problema? Leio o Fernão Lopes na Série régia, e os franceses lêem Montaigne no Francês do sec. XVI e os ingleses lêem hoje Shakespeare na grafia da altura. E li e toda a gente lerá – se gostar – João de Barros com a grafia do sec XVI – quase igual. Qual o motivo pelo qual os portugueses daqui vão ter de escrever ação em vez de acção? Para depois todos lermos e escrevermos «action» na língua franca do mundo? Ah, é verdade, vamos depor os anglo-saxões.
    Tem razão, afinal!

  12. Miguel RM diz:

    Agradeço o último comentário de “Parcial”, que me permite avançar na discussão. Não sei se a sua opinião sobre a reforma de 1911 está certa ou não, mas vou aceitá-la como boa. Ora, se considera que foi feito um erro por arrogância unilateral de alguns portugueses em 1911, agora a sua conclusão é que devemos insistir no unilateralismo? Posso admitir que haja opções contestáveis no acordo. Mas, curiosamente, essas eventuais incongruências só são assinaladas para fundamentar argumentos contra a existência de qualquer acordo deste tipo. Seria diferente se esses “críticos” estivessem seriamente empenhados em contribuir para um acordo melhor (obviamente, se fosse esse o propósito, há muito tempo que o teriam manifestado). Quero voltar a colocar o problema do modo que o fiz na minha anterior intervenção: à boa maneira portuguesa, não cuidámos de discutir com a necessária profundidade a questão na altura própria e agora estamos a improvisar uma discussão do tipo “Prós e Contras”, com pouca atenção aos outros condóminos (no “Prós e Contras” da RTP 1 foi chocante, grosseira mesmo, a forma como os quatro painelistas portugueses interromperam os intervenientes brasileiros e africanos). Já nos anos 80 do século passado tivemos brilhantes cronistas como Miguel Esteves Cardoso que deram cabo de qualquer possibilidade de ratificação do acordo, através de graçolas e outras formas de desqualificação das posições dos “acordistas”. Em Portugal, tem êxito assegurado qualquer crítica com os ingredientes que apontei: teorias da conspiração, apelo à salvação da pátria, anti-autoritarismo glamoroso. Pelo contrário, quem defenda a moderação, posições concertadas entre vários parceiros e apostas de bom senso será sempre, na melhor das hipótese, um chato, na pior, de corrupto para cima. Lamento profundamente este estado do debate público no meu país e, mais uma vez, temo que alguns opinadores talentosos (e de reconhecidos méritos) nos levem à pior das situações que é a de parecermos aos olhos dos lusófonos um país incapaz de contribuir sensatamente para a promoção do português enquanto língua internacional de comunicação. Enquanto português, lamento-o, mas enquanto lusófono estou menos pessimista. O Brasil acabará por tratar do assunto, se Portugal se demitir de o fazer, por conformismo, por inércia, por parolice, por irrealismo.

  13. Parcial diz:

    Este «acordo», entre um pais europeu pouco letrado, com gravíssimos problemas culturais, um pais da América do Sul em desenvolvimento onde há ainda fome (“fome zero”, remember?) e países de Africa de conhecidas mazelas, tudo com o objectivo principal de cortar alguns cês e alguns pês por assim se escrever no Brasil – o que consagraria visões ultrapassadas de linguística – é um dos mais desgraçados monumentos à cegueira política que mantém Portugal e Brasil no estado de pauperismo cultural que… que permite estas manifestações de nacionalismo e sebastianimo «rocaille» disfarçados de questões ortográficas
    O acordo que proporia, Caro Miguel RM, é o do trabalho diário, no sistema de ensino, para aqui e nos outros países melhorar a vida cultural.

  14. joão viegas diz:

    Concordo perfeitamente com o que diz Miguel RM e o ultimo comentario de Parcial so vem confirmar o meu sentimento.

    Uma reforma ortografica faz-se necessariamente à custa de cedências e da introdução de novas incongruências (se nem a matematica e a logica conseguem construir uma linguagem isenta de incongruências…).

    E claro que, em principio, so podemos concordar com a preocupação de ter um acrodo perfeito do ponto de vista técnico (não sou especialista, mas calculo que as administrações tenham procurado alcançar isso mesmo : o melhor acordo do ponto de vista técnico, aceitavel por todas as partes).

    Mas na pratica, quando olhamos para os argumentos “técnicos” utilisados, resumem-se todos no mesmo : a nossa grafia é técnicamente superior à dos outros e portanto, do ponto de vista técnico, eles deveriam render-se à nossa superioridade.

    Não ha paciência…

  15. Miguel RM diz:

    Lancei hoje o meu blogue ENXUTO (http://enxuto.conexa.org/) onde tenciono promover a discussão do acordo ortográfico. Todos sabemos que é impossível negociar entre oito países soluções que agradem totalmente a todos e todos sabemos também que nunca se poderá assinar um acordo perfeito. A questão que me interessa é saber se vale a pena ou não darmos passos para que seja assegurada uma gestão comum da língua de todos.
    Compreendo as pessoas que querem manter o português como está: é mais cómodo, algumas corporações que se sentem apalpadas poderão ficar sossegadas. É uma opção legítima, mas a minha convicção é que essa opção colocará daqui a poucos anos o “nosso” português europeu numa situação de isolamento e de menoridade internacional. Se me convencerem que estou equivocado neste ponto, talvez preste mais atenção às críticas ao acordo.
    Por enquanto, limito-me a observar a triste figura que andamos a fazer: um acordo é assinado por nós e outros países lusófonos. Durante vários anos, enquanto é para ir esperando que se venha a aplicar, ninguém se mexe; depois, quando a entrada em vigor se aproxima, aqui d’El Rey que a pátria está ameaçada, que estamos a ceder ao Brasil, que o acordo está todo mal feito, que, que, que…Tentem lá olhar para isto de fora: acham que isto nos dá credibilidade a nós, portugueses, enquanto negociadores? Acham que estamos a dar provas de podermos defender eficazmente a nossa língua?

  16. João Viegas, não se trata de superioridade técnica face aos outros: a ortografia usada actualmente em Portugal adapta-se melhor à maneira como se fala em Portugal do que a prevista pelo acordo; a ortografia brasileira está bem adaptada ao português que se fala no Brasil.
    Como em Portugal a esmagadora maioria das vogais átonas é fechada, as consoantes mudas (não todas, mas muitas) são úteis enquanto indicação de que a vogal anterior é aberta; no Brasil estas consoantes não cumpriam essa função, porque ali a não-acentuação das vogais não implica o seu fechamento – e por isso as ditas consoantes foram, logicamente, abandonadas.

  17. Parcial diz:

    Miguel RM: Leu o artigo de Rui Ramos?
    Permito-me aconselhar-lhe a sua leitura no Público.
    Dou-lhe os meus parabéns pelo blog, que irei visitar.
    P.S. Não pertenço a nenhuma corporação e garanto-lhe que me sinto desagradavelmente apalpado pela prepotência e autoritarismo – de que ainda na 2ª feira vimos a face na televisão.

  18. Parcial diz:

    João Viegas: parece-me que está a confundir acordo e reforma. Numa reforma a sério não há «cedências» nem tem de haver, que raio de coisa: a reforma limita-se a constatar que houve uma mudança. Esta «reforma»é que quer provocar mudanças onde não há necessidade alguma por a língua não ter mudado: mudou no Brasil, por via do nacionalismo brasileiro e de um acordo que o Brasil não cumpriu. Pretender, em nome de uma delirante mania das grandezas que modifiquemos o nosso modo de escrita para assegurar a «expansão da língua» (reparar, como chama a atenção Rui Ramos, no vocabulário imperialista e que expansão?), mudar por causa dessa tolice é coisa de anedota em qualquer local do mundo onde não haja tanto analfabeto.

  19. joão viegas diz:

    Caro Parcial,

    Voltemos aos fundamentais.

    O que é “a lingua”? Nada mais do que o conjunto das práticas dos locutores (cf. Saussure). Essa prática pode traduzir-se por uma grafia única, mas isso passa necessariamente por uma simplificação (e, mais uma vez, podemos perfeitamente imaginar que se renuncie à grafia única, mesmo dentro de um mesmo país). A grafia do português de hoje não reproduz, nem poderia nunca reproduzir, todas as nuances do português falado. De resto, como foi justamente apontado em alguns blogues (por exemplo o de Miguel Vale de Almeida), basta pensar no que seria uma ortografia que procurasse transcrever exactamente a pronúncia do português de Lisboa para medirmos a distância que existe (mesmo em Portugal continental) entre a norma gráfica e a prática.

    A adopção de uma nova norma gráfica (seja a nível interno, seja a nível internacional) assenta necessariamente numa simplificação e, por conseguninte, numa convenção. O problema é exactamente o mesmo quando falamos de uma reforma (a nível interno) ou de um acordo internacional, sendo que o acordo visa precisamente a implementar uma reforma nos países signatários. Parece-me, portanto, que não estou a confundir as coisas e que será antes V. que está a brincar com as palavras.

    Por muitas voltas que se dê, o problema levantado pelo acordo é apenas esse : sera que é oportuno adoptarmos uma norma grafica para todos os paises de LOP ? E certo que se acharmos à partida que a mania que fazemos parte de uma cultura comum é uma parolice imperialista, a questão está resolvida. Também é obvio que o acordo só faz sentido se aceitarmos que é bom para todos os países envolvidos, que a língua que usam se apresente como uma língua significativa em termos internacionais (por exemplo, eu resido fora do pais e o meu programa word não tem corrector de português, e no teclado, não consigo por todos as acentos).

    Ora bem, o que eu digo é simples : por que é que as razões que nos levaram a adoptar uma norma gráfica a nível nacional (com o que isto implica em termos de simplificações, e mesmo em termos de incongruências) não hão de ser também válidas para a comunidade dos países de LOP, que têm uma história e uma cultura comuns ?

    As questões técnicas apenas deveriam surgir apenas depois de respondermos a essa pergunta. Então, perceberíamos mais facilmente que, do ponto de vista técnico, não se trata de encontrar uma grafia ideal (o que é impossível), nem de procurar actualisar a nossa grafia à luz da evolução da prática no nosso país. Trata-se, apenas, de encontrarmos uma grafia intermédia, que possa ser adoptada nos outros países.

    Nessa perspectiva, podemos defender que cabe aos outros países adoptarem a nossa grafia porque eles é que agiram mal quando se afastaram da nossa norma (porque são nacionalistas e analfabetos). Mas não me parece que essa perspectiva seja a mais construtiva…

  20. Miguel RM diz:

    Os meus sinceros parabéns ao João Viegas pelo resumo brilhante que publica hoje. A questão é mesmo só a de saber o que queremos. A opção por uma língua portuguesa que se mantenha à parte da política para a língua portuguesa que mais tarde ou mais cedo os países lusófonos seguirão é, como já disse, legítima. Mas também é legítimo que pessoas como o João Viegas e eu lamentem essa opção. Temos o direito de aspirar a mais e melhor para o nosso país.

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