a pele do tiago
13 Abril 2008 | por Fernanda CâncioÉ um menino de 10 anos. Está muito calado e quieto, sentado num banco, a ver wrestling na TV, enquanto a mãe fala com outros adultos. É um menino bem educado, que só fala quando lhe dirigem a palavra e nunca interrompe a mãe quando fala. É um menino da Cova da Moura, que a mãe colocou a estudar numa escola pública em Algés, usando a mesma morada que a mãe dela tinha usado para os filhos: a morada de uma das patroas para quem trabalhava a dias. Fê-lo porque, diz, quer que o filho conheça outras realidades, conviva com outras pessoas. E porque, como a mãe, teme que no ambiente do bairro ele entre demasiado na “brincadeira da rua” e dê para o torto.
Na escola perto do bairro, a maioria dos meninos eram como o Tiago. Segunda e terceira geração lusoafricana. Na escola nova, perguntaram-lhe de onde veio. De que país. E chamaram-lhe “o preto”. O Tiago conta isto com um sorriso envergonhado, sempre com os olhos nos wrestlers da TV. Encolhe os ombros. “Eu não ligo. Não respondo. Também, eles são maiores que eu”. À volta dele, os adultos riem. Tem bom senso, o Tiago. E bom feitio, também. A mãe comenta que isso também se passou com ela. Há 15, 20 anos. Menos com a irmã: “Ela é muito mais clara que eu”. Di-lo como uma espécie de adquirido – o adquirido de que vive num país onde a maioria das pessoas comungam deste racismo banal, o racismo que permite aos meninos achar que faz sentido chamar “preto” a um menino como eles.
Se calhar, para a maioria das pessoas, isso nem soa a racismo. Não sabe a racismo. É um automatismo. Como chamar gordo aos gordos, velho aos velhos, oculista aos que usam óculos, coxo a quem coxeia, zarolho a quem tem menos um olho, loiro a quem não é moreno –uma espécie de constatação de um facto. Claro que esse facto, para ser “constatado”, necessita de ser algo de que o constatador não comunga. São os novos que chamam velhos aos velhos. Os brancos que chamam pretos aos negros (e vice versa). Os que não usam óculos a crismar os oculistas.
Parece que não tem mal nenhum, não é? Sucede que algumas destas denominações magoam as pessoas. Aliás, a maioria é usada exactamente com esse objectivo – o de exprimir desprezo ou desagrado, o de ridicularizar ou isolar. O de fazer sentir que a característica “constatada” é minoritária. Uma espécie indesejável de “anomalia”, uma fuga à norma – à “bondade” da norma. Esta atitude tem um nome: discriminação. E por mais que nos pareça “normal”, inata, até, essa discriminação que faz os colegas do Tiago chamar-lhe preto e assumir que ele “veio de fora”, não é aceitável. Por dois motivos simples: porque é injusta. Porque faz sofrer.
Ter consciência disso e tentar expurgar a linguagem, a fala, deste tipo de referências discriminatórias é a essência daquilo a que se deu, nos EUA, o nome de “politicamente correcto”. A expressão nasceu da noção de que a linguagem não é neutra – é, evidentemente, política. É um campo de batalha no qual o que se diz não só faz diferença para os outros como para o próprio: reprimir palavras, noções e referência discriminatórias cria uma outra forma de ver e pensar o mundo. Esta reeducação voluntária, este esforço de não agressão, foram ridicularizados e atacados pela direita americana e depois pelas várias direitas, comparados a uma ditadura e agregados à linguagem totalitária referida por Orwell na obra 1984 – a “novilíngua”. Numa espantosa inversão de papéis, quem usa linguagem discriminatória e ofensiva surge como necessitado de protecção e apresenta-se o politicamente correcto como um atentado à liberdade de expressão e pensamento.
Quem assim pensa devia passar um dia na pele do Tiago. Só um.
(publicado na coluna ’sermões impossíveis’ da notícias magazine de 6 de abril)

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