Em que merda deixaram os nossos mortos?

Numa porta da Faculdade de Ciência Política da Universidade da Cidade do México estava escrita, num longínquo ano de 68, este verso do poeta espanhol Ángel González: “Otro tiempo vendrá distinto a éste/y alguien dirá/ debiste haber contado otras historias”. Assim começa o livrinho “68” do escritor mexicano Paco Ignacio Taibo II. O autor explica que nunca conseguiu escrever um romance sobre aqueles dias que viveu. Sobraram cadernos de apontamentos dos dias febris, mas nunca se transformaram em romance. Como se fossem demasiado fortes para ter sentido. 22 anos depois dos militares massacrarem centenas de estudantes escreve um livrinho, de pouco mais de 100 páginas, que começa com estas perguntas ( a tradução é má e minha):

“Como se cozinhou a magia? Com quê que se alimentou a fogueira? De onde saíram os 300 mil estudantes que chegaram a Zócalo no dia da manifestação do silêncio? Quem pôs parafina na mão estendida? O que aconteceu a Lurdes? Quem estava atrás da porta da preparatória 1 no dia do tiroteio? Como fabrica uma geração os seus mitos? Qual era o menu diário da cantina de Ciências Políticas? O que questionava o movimento de 68? De onde saia todas as semanas o autocarro de Juárez-Loreto? Quem era a ala direita e onde se encontrava a esquerda em Setembro de 68? Quem eram os radicais e quem eram os mencheviques? Como regressaram envoltos nos rumores os nomes dos desertores e dos suicidas? Que poema se escutava pela a aparelhagem sonora quando apareceram os tanques? Onde apareceu a ideia das brigadas? Como se enamorou a Fanny por um chui? E a que horas chegou Toño a Topilejo? Quais são as fronteiras da vitória e da derrota? Quem tirou o cartaz no bairro de Ginzaelanoche? Quando reforma e não revolução? Por que é que o melhor café se tomava na sala 5? Aonde estava o ponto de não regresso? Como se fazia um comício relâmpago bloqueando as quatros esquinas? Como se guardam panfletos nos sacos de pão? O que significava o CNH? Porque é que caiu Romeo por causa de uma minissaia? Onde deixaram os nossos mortos? Em que merda deixaram os nossos mortos?”

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Em que merda deixaram os nossos mortos?

  1. is a bel diz:

    Pois é NRA, mas é no título deste post que penso quando acabo de ler, por ex., ‘Os desaparecidos’ de Fernando Abecassis. Uma história escrita na primeira pessoa (A memória d’África) que se passa-se em Moçambique entre 9 e 21 de Outubro de 1964.
    Desaparecidos: José Lavres (alentejano), soldado condutor. Carlos d’Assunção (Cascais), 1º cabo carpinteiro. Os comandos militares de Moçambique deram-nos como desertores – fácil e simples para todos; todos excepto as famílias que ainda hoje não sabem o que aconteceu aos seus desaparecidos.
    Muda alguma coisa, a memória destes acontecimentos…?
    Gostei de o ler, vou procurar o livro.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Isabel,
    Comprei este livro há 14 anos no México. Mas, já vi que há uma tradução em inglês na Amazon : http://www.amazon.com/68-Paco-Ignacio-Taibo-II/dp/1583226087

  3. is a bel diz:

    muito obrigada, Nuno, pela sua atenção.

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