A classe média e o ensino privado

No último Prós e Contras (de há uma semana), Carlos Abreu Amorim referiu que a “classe média” está cada vez mais a abandonar o ensino secundário público e a transferir os seus filhos para o privado. Na sua última crónica no Correio da Manhã (entre algumas considerações que julgo acertadas, como o grau de esforço exigido pela aprendizagem), insiste: “muitos” suspeitam do sistema público. Só que os números (sempre os números!) parecem não lhe dar razão: de acordo com a excelente Isabel Fevereiro, que se sentava ao seu lado, no mesmo programa, somente 7% dos alunos frequentam o ensino privado. Esses 7% estão muito longe de ser a “classe média”, pelo menos no ensino secundário. Mas a culpa desta confusão não é (só) de Carlos Abreu Amorim: reside no profundo equívoco do conceito que a média e alta burguesia faz da “classe média”. A “classe média” é trabalhadora por conta de outrem, vive no subúrbio e esfalfa-se para pagar uma casa, quando pode. Não pode colocar os seus filhos no ensino privado. A média e alta burguesia que Carlos Abreu Amorim conhece e que coloca os filhos no privado não é “classe média”. Recomendo uma leitura, também no Blasfémias, do texto Revolta contra a curva de Gauss.

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26 respostas a A classe média e o ensino privado

  1. Luís Lavoura diz:

    A afirmação do Carlos Abreu Amorim terá sido a de que a classe média está a ter uma tendência para abandonar o ensino público. Ou seja, aquilo que CAA terá afirmado terá sido, não que a maioria da classe média está já no ensino público, mas sim que há mais pais da classe média a trocar o ensino público pelo privado do que o inverso. O que é substancialmente diferente.

    Eu, de qualquer forma, tenho bastante dúvidas de que a afirmação do CAA seja verdadeira. As minhas observações são que, pelo contrário, o ensino público mantem a preferência mesmo daqueles que poderiam (por terem dinheiro para isso) optar pelo privado.

  2. Tárique diz:

    No Algarve penso que só há uma escola privada, que este ano levou uma dúzia de alunos a exame. Ergo, não há classe média no Algarve.

  3. “Ou seja, aquilo que CAA terá afirmado terá sido, não que a maioria da classe média está já no ensino público, mas sim que há mais pais da classe média a trocar o ensino público pelo privado do que o inverso.”

    Correcto: era isso que ele queria dizer (e disse). Mas mesmo isso eu duvido que seja verdade. Tudo tem a ver com definição de “classe média”, e a classe média, em média, não tem dinheiro para pagar ensino privado.

  4. M. Abrantes diz:

    O ensino público ainda goza de alguma credibilidade. Por algum mérito, mas cada vez mais por inércia. O continuar do actual estado de coisas tende a volatilizar o mérito. Resta depois ver quanto tempo mais durará a inércia.

  5. jose diz:

    isso nao faz sentido nenhum.

  6. Isabel diz:

    Há tantas variáveis a contribuirem para essa decisão que só por elas davam um imenso post. O que é ensino privado superior: são por exemplo todos os Institutos Piaget espalhados pelo país. Para uma família classe média “média” de Mirandela pode ser mais fácil por o filho(a) a estudar no Piaget de Macedo de Cavaleiros do que mandá-lo para o Porto ou para Coimbra ou até para Vila Real. Para não falar de que muitas dessas instituições ainda exploram o filão saúde (cursos de análises clínicas, técnicos de isto e daquilo) e absorvem os alunos com médias mais baixas, mesmo que os pais façam mais sacrifício para os ter lá. Portugal é muito mais do que Lisboa e Porto.

  7. Luis Rainha diz:

    A cada processo de candidatura ao ensino superior, o comentário é sempre o mesmo: as universidades privadas estão a ir por água abaixo. Tenho ideia de que vão medrar uma mão-cheia delas (as boas) e as restantes limitar-se-ão a vegetar ou a fechar portas.

  8. Tárique diz:

    li a resposta do CAA. Parece que “classe média” equivale a “os meus amigos, e mais malta que eu conheço”

  9. Filipe,

    estamos a falar de ensino superior ou ensino em geral? É que o balanço do ensino superior privado em Portugal é muito, muito negro, a proliferação de universidades privadas desde há 20 anos resultou num grande fiasco. As universidades privadas portuguesas não têm qualquer credibilidade ou relevância a nível europeu ou internacional, à excepção da Católica.

  10. Tárique diz:

    aos CAA’s

    … ponham os filhos em colégios de nome de santo, …
    … “duvidem muito” de que estes farão parte de uma minúscula minoria, …

    … mas depois não vos admireis que os vossos filhos cresçam tão alheados da realidade quanto vós.

  11. Isabel diz:

    O exemplo que dei acima dos Institutos Piaget é exactamente um exemplo de baixíssima qualidade do ensino superior. Numa das minhas muitas épocas precárias mandei o meu CV para os Piagets. Passado uns tempos contactaram-me de uma das escolas a convidarem-me para lecionar uma disciplina para a qual eu não tinha o minimo de habilitações. Quando lhes fiz ver isso mesmo insistiram pq viram q no meu mestrado tinha tido uma disciplina dessa área. Ou seja o facto de ter frequentado uma disciplina de mestrado qualificava-me. Não aceitei. Parece-me q há escolas de arquitectura privadas com boa qualidade e há a católica tudo o resto é quase miserável.

  12. Puta merda, escrevi na primeira linha “ensino superior” quando queria ter escrito “ensino secundário”! (Em baixo já estava “ensino secundário”.) Já corrigi. As minhas desculpas pelo lapso. Só agora me pude voltar a ligar à rede – burocracias do ensino superior público.
    Mas, com ou sem lapso, o Tárique entende sempre logo o que eu quero dizer (comentário das 12:21). A ideia de “classe média” da média e alta burguesia é essa.
    Rui, estou a pouco mais de 70 km do teu local de trabalho…

  13. Para a estrutura de classes em Portugal recomenda-se isto: http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=27589&Itemid=163#3.1
    Para não andarem a dizer que o PCP é sempre a mesma «cassete»…

  14. CARLOS CLARA diz:

    O que se entende hoje por classe média em certos circuitos, não é o que se entendia há anos atrás. Essa classe média não vive em determinadas zonas periféricas. O que interessa neste assunto, creio eu, é a bandalheira em que se transformaram as escolas públicas por culpa Ministério-Professores-Sindicatos. A comunidade ficou a perder. Quem pode, vai para o privado. A oposição, seja qual for, tem ajudado para que o privado esfregue as mãos de contentes. No domínio das Faculdades privadas, que o estado deveria ter controlado, salvam-se: Arquitectura na Lusiada e a Católica. As outras encheram-se de dinheiro e criaram desemprego. A falta de cursos profissionais contribuiu para o caos. A idiotice outro tanto – Importava ter um canudo, nem que fosse de merda.

  15. Quando é que eu disse que o PCP é “sempre a mesma cassete”, ó António Vilarigues? Desde que tem o Jerónimo o discurso continua conservador, mas já não é cassete.

  16. Caro Filipe Moura,
    A “boca” não era, obviamente, para si…

  17. Caro Filipe Moura,

    Tendo em conta que há colégios privados e bons a 250€ por mês (11 meses), não vejo a impossibilidade de alguém da classe média pagar o colégio aos filhos. Uma família que ganha 1500€ por mês é muito diferente de uma que ganhe 1750€? (Ou que ganhe 1600€ e corte na TV Cabo…)?

    Estudei num colégio privado, frequentado pela classe média, incluindo alguma média e alta burguesia, mas também alguma classe pobre que fazia o esforço de ter os filhos a estudar num local decente.

    Colégios para a burguesia, a 1000€/mês, são uma minoria.

    (já agora, a maioria dos colégios privados são muito mais baratos para os pais do que as escolas públicas para o contribuinte. Dá que pensar não?)

  18. Caro Pedro, a classe média não dispõe de 250€ por mês para a educação de cada filho. O seu colégio não é de classe média.
    A maioria dos colégios privados são mais baratos do que a escola pública, mas a maioria dos colégios privados são maus. Só se fala nos bons, mas esses são muito minoritários.

  19. Tárique diz:

    portanto … a classe média gasta 100 euros por mês em tv cabo, não é?

    Se achais mesmo que a classe média portuguesa consegue fazer aparecer mais cinquenta contos (250 euros) por mês por cada filho com ligeiros ajustamentos no orçamento familiar, então estais mais alheados do que eu pensava…

  20. tárique, desculpe, ao tentar apagar os seus comentários repetidos (eram 3 com os cinquenta contos), apaguei o anterior. não consigo recuperá-lo

  21. Já está editado e corrigido (recebi-o por email).

  22. Tárique diz:

    Pois … tenho que mandar um email ao tubarãoesquilo (é onde está este site, não é? ) a implorar um “preview” nas caixas de comentários para não meter os pés pelas mãos.

  23. Não, pá, não tem nada a ver com o TubarãoEsquilo, é WordPress: não somos esquerda caviar em tudo, apesar de irmos à Fábrica do Braço de Prata.

  24. concordo plenamente…gracias!!!!

  25. amalia couto diz:

    Por mais que falem, não me convencem que o privado é superior ao público em termos de rigor científico e de mérito!
    A verdade é que eu e muitos dos meus colegas, licenciados por uma faculdade pública, somos constantemente ultrapassados nas listas de colocações de professores por licenciados em privadas que quando estavam nessa pública não conseguiam fazer uma única cadeira!
    A pergunta que coloco é: “De que me valeu uma licenciatura em ensino e também um Mestrado numa Faculdade Pública com mérito altamente reconhecido?”
    Não posso, também, de deixar de referir a minha indignação pelo exame que querem submeter todos os contratados com menos de 5 anos de serviço, e assim mais uma vez coloco a questão anterior.

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