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A ASAE e a Reserva Federal

1 Abril 2008 | por João Pinto e Castro

Em Outubro, recebeu um telefonema do banco avisando-o de que o fundo UBS em que colocara algum dinheiro já perdera um terço do seu valor. Aconselharam-no a tirar de lá o que sobrara, antes que a situação piorasse ainda mais.

Aparentemente, tudo normal: quem investe em acções ganha e perde, e às vezes perde muito. Só que aquele não era um fundo de acções. Tinha-lhe sido vendido como uma aplicação de baixo risco, incluindo obrigações, títulos do tesouro e coisas assim. Acontece que as “coisas assim” incluíam crédito hipotecário, mais concretamente - embora ele obviamente o não soubesse - crédito bancário subprime, ou seja, crédito de alto risco.

Por outras palavras, fora vigarizado, comprando como investimento de baixo risco um investimento de grau de risco desconhecido.

Imaginem agora que alguém que tem carne estragada pica-a e revende-a para ser misturada com outras carnes picadas de diversas procedências - umas boas, outras ruins. Depois de misturada, a carne picada resultante dessas trafulhices é revendida a empresas que com ela fabricam croquetes que os consumidores finais adquirem para a sua alimentação.

Alguns croquetes recebem pouca carne estragada; quem os come passa um mau bocado, mas safa-se. Em contrapartida, os croquetes feitos apenas de carne estragada podem matar quem os come.

Quando uma empresa vende croquetes estragados pode ser penalizada por esse facto e obrigada a indemnizar os consumidores. Se não sabe que comprou carne avariada, deveria saber. Pelo contrário, um banco que vende instrumentos de investimento inquinados não é forçado a assumir a responsabilidade perante os seus clientes.

No primeiro caso, a vigarice é castigada, quando não fiscalizada preventivamente pelas ASAE da vida; no segundo, é protegida por entidades reguladoras enfarpeladas e bem-falantes como a Reserva Federal norte-americana.

Comentários

Comentário de Algarviu
Data: 1 Abril 2008, 1:46

Oh, João! Estava à espera de quê?! Santa ingenuidade…

Comentário de Amómimo
Data: 1 Abril 2008, 9:27

Do que o poster estava à espera eu não sei, mas eu esperaria que a vigarice fosse punida independentemente de quem é o vigarista.

Comentário de Luís Lavoura
Data: 1 Abril 2008, 10:12

Excelente post, sim senhor.

Comentário de gibel
Data: 1 Abril 2008, 10:20

Penso que o João estará mal informado. A conduta do Banco UBS na chamada crise do subprime está pelo menos desde o início do ano a ser investigada criminalmente pelo Ministério Público de Nova Iorque em coordenação com a SEC (a CMVM norte-americana).

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 1 Abril 2008, 11:11

A questão, gibel, é que os investidores não vão ser indemnizados pela fraude de que foram vítimas.

Comentário de Model 500
Data: 1 Abril 2008, 12:59

Os investidores não serão indemnizados pela fraude de que foram vítimas se não levarem o caso a tribunal. Se levarem ganham de caras.

Comentário de gibel
Data: 1 Abril 2008, 14:31

João,

já existem pelo menos duas “class actions” instauradas contra a UBS e o Citigroup em Nova Iorque. Sendo, se quiser, um pouco cínico :) …se os advogados que as subscrevem não tivessem uma razoável expectativa de ganho…

Comentário de xatoo
Data: 1 Abril 2008, 15:10

e como é que o Ministério Público de Nova Iorque vai controlar as patifarias financeiras da UBS que é um conglomerado Suiço?
controlará a ínfima parte que estará adstrita a Wall Street, isto é, pouco ou nada, porque a fuga está ao alcance de um clique

Comentário de Carlos Fonseca
Data: 1 Abril 2008, 21:34

Merece-me igualmente muitas dúvidas que a UBS e o Citigroup venham a ser obrigados a indemnizar os investidores lesados.
Mas, em meu entender, o post é certeiro ao colocar em causa a óbvia diferença entre o tratamento severo aplicado por organismos reguladores e fiscalizadores (ASAE) a agentes económicos sem poder (sistema económico) e a falta de actuação sobre entidades financeiras, de grande porte, capazes de causar avultados prejuízos a aforradores individuais e institucionais (sistema financeiro). Tanto assim é que até o “iluminadissimo” Bush teve a iniciativa de reforçar os poderes de intervenção da Reserva Federal (FED), impondo uma abrangência e implicações sem paralelo desde a Grande Depressão.
Recolha-se informação sobre ‘fundos de pensões’ que ficaram completamente falidos, com as repercussões sociais imagináveis para milhares e milhares de reformados nos EUA, senão mesmo milhões.
É o neoliberalismo económico na máxima força. E o pior é que ainda tem grandes defensores.

Comentário de al
Data: 1 Abril 2008, 22:41

Mas compara-se a asae com o FED? Bem… o director do fed ganha menos que o Constâncio, mas de resto caímos no anedótico.
Muito menos compare a UBS com o Casino Estoril. A UBS obedece à lei norte-americana ou deixa de poder ser cotada nas bolsas americanas o que se traduz em perdas de centenas de milhões. Simples. Lá não se brinca impunemente. Onde há brincadeiras é aqui, não lá.

Comentário de gibel
Data: 1 Abril 2008, 22:51

Carlos,

o que até poderá acontecer será os investidores que resgataram a medo e antecipadamente as participações nos hedge funds terem de indemnizar os investidores que ficaram e os trustees que vêem os seus activos sub-avaliados para serem vendidos à pressa. É como o hotel califórnia: you an check out anytime you like but you can never leave :)
(sinceramente, não há aqui vítimas indefesas de um cego capitalismo selvagem; os clientes destes fundos, que são fundos fechados, com pouco mais de uma centena de participantes, são investidores qualificados, tinham obrigação de saber no que se estavam a meter, mas a ganância do homo sapiens…)

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 1 Abril 2008, 23:51

Fundos fechados? Ora, não digam asneiras!

Comentário de Carlos Fonseca
Data: 2 Abril 2008, 0:07

Al,
A ASAE neste caso é apenas um citação figurativa. Com efeito, para maior objectividade podia falar-se, por exemplo, em ‘Food and Drugs Administration’, organismo de peso no sisitema económico norte-americano. O que é verdade é que os sistemas financeiros, a nível mundial, garantem uma impunidade às instituições do sector, inatingíveis pelos operadores económicos. Quanto ao resto da sua conversa, nem vale a pena perder tempo. Olhe vá até ao casino…

Comentário de Carlos Fonseca
Data: 2 Abril 2008, 0:08

Gibel,
Sugiro que se informe devidamente. Não se trata de fundos fechados.

Comentário de al
Data: 2 Abril 2008, 1:55

C. Fonseca: não vou ao casino. Não frequento enclaves onde a lei não entra como deveria (assim assevera o Prof. Jorge Miranda, por exemplo). Mas percebo que o assunto seja inconveniente. De facto, é uma humilhação permanente ao estado de direito.

Comentário de gibel
Data: 4 Abril 2008, 2:25

simplificando, nada de muito técnico, apenas o artigo da wikipedia
http://en.wikipedia.org/wiki/Hedge_fund

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