Ouvi dizer que Goncourt previu há século e meio a erupção de um deus fixado pelas artes da fotografia

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Numa das muitas histórias que me ocorrem pela cabeça e que nunca hei-de escrever, imagino uma imagem normal, anódina, inofensiva, sem gravitas, desfocada, nascida de um minuto de tédio de um transeunte, de um turista, de ninguém. Poderia ser uma viga de cimento mal pintado contra um céu cerúleo. Ou uma praça alentejana espreguiçando-se na melancolia do Outono. Ou poderia ser apenas assim: um avião ancorado à pista, aguardando as indignidades implacáveis da manutenção, vergado ante a erosão do tempo e do espaço subsónico. Um anjo decadente e banal. Poderia ser mil coisas, esta imagem. Mas sobretudo aquilo que hoje nunca imaginaríamos. No entanto, esta imagem teria consequências: emblema perfeito mesmo que involuntário da grande modorra emboscada nas nossas almas, ela teria de proliferar. De telemóvel em telemóvel, de computador para impressora, do monitor para o espanto mudo. Como um boato, um veneno talvez benigno, a resposta certa à pergunta ainda por formular. Essa imagem, mesmo sem banda sonora nem museu à volta, a todos tocaria. Nuns quantos pixels, uma prova irrefutável da inutilidade do esforço. A demonstração do absurdo no âmago das nossas vidas. Um manifesto imperativo, escrito num alfabeto que por certo carregávamos sem saber. Haveria tentativas de a proibir, de a banir como a uma droga letal. Mas de nada serviriam: em tão pouco tempo, todos teriam tatuado nas retinas o retrato incompreensível mas claro do nada no centro do Mundo. Este ruiria devagar ante o alastramento de uma tal contaminação, silenciosa e bela; milhões de olhos perdidos entre pistas desertas e Boeings ancorados. E assim tudo terminaria, em paz e anuimento.
Um dia, talvez venha a escrever esta história. Mas duvido.

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4 respostas a Ouvi dizer que Goncourt previu há século e meio a erupção de um deus fixado pelas artes da fotografia

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Cerúleo,
    Já a escreveste.

    PS- Pensei que vinha de ceroulas.

  2. Luis Rainha diz:

    Se já tivesses pintado, não brincarias com tal palavra, ó insone incréu.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Incréu vem de pitéu, ó Bacon dos subúrbios?

  4. Luis Rainha diz:

    Não. Vem mesmo é de Ptoloméu. Ou coisa assim.

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