Autoridade, autoridade

Tenho uma ideia. Pegamos naquela aluna indisciplinada da escola do Porto que brigou com a professora por causa de um telemóvel, fazemos um círculo em torno dela com todos os comentadores, políticos, espectadores e treinadores de bancada, e apedrejamo-la. Assim uma coisa de Antigo Testamento, mas com um toque moderno: em vez de pedras, usamos os nossos telemóveis. Depois filmamos tudo, e pomos no youtube. Que tal vos parece? Um pouco exagerado, talvez?

Se não resultar, fazemos o mesmo à professora, depois aos pais e finalmente à ministra. Estou apenas a tentar acompanhar a tendência do debate. Como sabemos, este caso de indisciplina é um sinal do fim dos tempos. Mas se arranjarmos uns bodes expiatórios talvez a coisa se endireite.

Antigamente, claro que não era assim. Pelo menos antes do século IV d.C., quando São Cassiano de Ímola, mártir dos professores, foi apunhalado pelos seus próprios alunos com os estiletes de metal que eram usados para tirar notas (em tabuletas de madeira cobertas com uma pelicula de cera, porque o pergaminho era caro e o papiro raro).

Dos estiletes de metal aos telemóveis, os novos media têm sido inimigos dos professores, pelo menos até estes aprenderem a usá-los a seu favor. E porquê? Porque o professor precisa da atenção dos alunos, una e indivisa, na sala de aula. Essa é a melhor maneira de dar aulas e mesmo a única: ainda não inventaram outra. O pesadelo de um professor é “perder” uma turma, aluno a aluno, fila a fila, quando todos se distraem e não há maneira de estancar aquela vaga. Hoje há mais motivos de distração, e amanhã haverá mais ainda, valha-nos São Cassiano.

***

A mente autoritária, essa, só precisa de uma coisa e sempre a mesma: gritar por mais autoridade, mesmo que isto não lhe garanta mais autoridade. Gritar por mais autoridade apaga todas as contradições, sossega todas as inseguranças.

O problema é o seguinte: a autoridade é, em si, uma coisa contraditória. Há duas autoridades: a do medo (medo da violência, nomeadamente) e a do reconhecimento. Ambas estão mais difíceis, por boas razões.

A autoridade pelo medo, “responder bofetada a bofetada” como sugere Vasco Pulido Valente, é precisamente o que falhou no episódio do Porto: a professora tentou puxar mais do que a aluna, que tinha o dobro do seu tamanho. O programa pulido-valentiano não aguenta hoje dois minutos numa sala de aula, e no passado só funcionava integrado numa cadeia com vários elos: tinha-se medo do professor, do pai, do marido, da tropa e da PIDE.

A autoridade pelo reconhecimento está também em maus lençóis. O mundo exige-nos atenção de demasiados lados e o professor está no lado mais fraco. Mas isto não é o fim dos tempos. É apenas o princípio de tempos novos.

Esses tempos novos exigem turmas menores, não ultrapassando 20 alunos. Cacifos para deixar os telemóveis à entrada. Mais professores e funcionários. Intercomunicadores nas salas. E para os alunos indisciplinados? Puni-los com a única coisa que hoje em dia mete medo: o aborrecimento. Proponho aborrecê-los em turmas ainda menores, orientadas por dois professores, até que prestar atenção seja a única coisa interessante a fazer naquela sala.

Voltar à escola de elite não é opção, quando precisamos de toda a gente qualificada que pudermos formar. A opção que resta é dar às massas uma escola de elite. Custa mais dinheiro. Sim, ainda mais dinheiro, e dos seus impostos. Não foi você que pediu medidas impopulares?

 

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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8 respostas a Autoridade, autoridade

  1. Rafael Marques diz:

    “E para os alunos indisciplinados? Puni-los com a única coisa que hoje em dia mete medo: o aborrecimento. Proponho aborrecê-los em turmas ainda menores, orientadas por dois professores, até que prestar atenção seja a única coisa interessante a fazer naquela sala.”

    Eu proponho mais: pô-los a ler os textos do Rui Tavares. Só não se aborrecem porque o disparate até é divertido….

  2. M. Abrantes diz:

    Não me parece que contentarmo-nos com a justificação de que a indisciplina é um sinal dos tempos resolva coisa nenhuma (deve haver poucas coisas que não sejam sinais dos tempos). Afinal queremos ou não queremos aulas?

    Aqui atrás uma professora foi agredida por uma mãe. Não me lembro de a PGR ter agido. Lembro-me de a ministra da educação ter deixado a batata quente com a escola (afinal foi apenas uma bofetada num dos responsáveis, nas palavras da senhora ministra, pelo estado do ensino). Agora a PGR decidiu agir.

    Enfim, gostava de saber se esta atitude da PGR se sustenta em alguma estratégia clara para combater conflitos escolares, ou se vai ser diferente quando o procurador for outra pessoa, ou se é apenas uma manobra política adequada, numa altura em que muita gente se colocou ao lado dos professores, sabendo nós que há eleições à porta (os anjinhos na terra contra-argumentam com a separação de poderes; boa viagem com poucos furos na carruagem).

    A verdade é que o tratamento que este caso está a ter parece desproporcionado. A violência escolar não é já assunto antigo? Quem tem lavado as mãos destes problemas? Que tratamento vão ter , a partir de agora, casos semelhantes ou mais graves (acontecem mãos cheias deles por dia)? É dramático ter a sensação que nenhum responsável do governo ou da justiça tem respostas para estas perguntas.

  3. agent diz:

    A ideia dos telemóveis nos cacifos parece-me estar longe ser boazinha. Deixava de apanhar o professor e calhava tal “sorte” ao funcionário que não soube tomar bem conta do cacifo durante a aula.
    A responsabilidade para o aluno de hoje, sendo algo que ele renuncia bem, é algo que ele transmite ainda melhor.

  4. topiscis diz:

    quem nunca pecou que atire a primeira pedra.
    penso eu que alguém já disse isto. assim a aluna sai incólume e depois ainda nos arriscamos a termos ilícitos de assedio sexual.
    não. eu cá prefiro comprar pevides e ver o benfica a jogar a….

  5. Distraídos com o acessório e o superficial, escapa-se-nos o essencial.

    Rui Tavares toca no fulcro da questão: que Escola pública queremos? Uma que forma a maior quantidade possível de gente qualificada, quer ele.

    E quero eu, se estivermos a falar da mesma coisa. Penso que está na hora de se perceber, finalmente, que a Escola pública que temos NÃO forma a maior quantidade possível de gente qualificada. Forma toda a gente, qualificada ou não. O que é bem diferente!

    A Escola pública está definida do seguinte modo: o Ensino Básico é obrigatório para TODOS, quero dizer, é obrigatório fazer E TODO DE SEGUIDA, de preferência, SEM CHUMBOS (repetições de anos). Este é o modelo actual e a isto tudo se tem de submeter. Esta definição é a causa da falência global de todo o sistema de ensino em Portugal em Democracia.

    Que pode seguramente formar mais mestres e doutorados do que antigamente, mas que foram cada vez mais imbecis graduados e, assim, vai desvalorizando progressivamente a própria noção de qualificação.

    Os níveis de iliteracia, a que eu somaria os de INUMERACIA, se alguém se atrevesse a estudá-los e, mais do que isso, a publicá-los, não mentem.

    A imperdoável falácia é a seguinte: pretender que TODOS são capazes de aprender, se usarmos a estratégia adequada. Dela nasceu o “eduquês”. Ignorar que há diferenças intelectuais entre os alunos, e mais ainda, que o seu aproveitamento depende de diversas variáveis intrínsecas e extrínsecas, de entre as quais se destacam, nas primeiras, as capacidades cognitivas e intelectuais de cada Aluno, mas também as suas condições socio-económicas e a verdadeira VONTADE E MOTIVAÇÃO PARA APRENDER, e, nas segundas, fundamentalmente a qualidade do ensino, isto é, das Escolas em geral e dos docentes em particular.

    Poderia continuar, mas sei que já ninguém me estaria a acompanhar, por isso concluo: há que ter a coragem de substituir no ensino público democrático o actual paradigma do igualitarismo por um paradigma de mérito, como no antigamente. Sim, leram bem, sem preconceitos, como no antigamente. Sem os vícios desse mesmo antigamente que decorriam de não se praticar numa Escola democratizada, antes ditatorial.

    O paradigma do mérito, conjugado com a democratização do Ensino e das Escolas, teria como consequência eventual um aumento das taxas de abandono escolar, mas simultaneamente um crescimento da QUALIDADE do Ensino público, o que levaria por seu lado a uma selecção dos mais aptos, independentemente das suas condições economico-sociais, e a uma canalização para o ensino profissional dos menos aptos, que no entanto, a seu tempo (eventualmente já como adultos), poderiam sempre continuar e concluir os seus estudos, sem a pressão dos fenómenos da adolescência e da natural dependência funcional das suas condições familiares.

    Um pouco, no fundo, o que se passava em Portugal antes do 25 de Abril, mas APÓS A REFORMA VEIGA SIMÃO, que era radicalmente diferente do que fora o velho ensino salazarista.

    Repensar tudo isto e afastar ideias preconcebidas parace-me uma boa maneira de contribuir para, algum dia, se encarar a Educação em Portugal com menos pessimismo…

  6. Suspeito é que ninguém esteja verdadeiramente apaixonado pelas questões da Educação para ser minimamente construtivo…

  7. Uma coisa tenho como certa: a qualidade do ensino em Portugal é francamente baixa, estudos vários provam isso à saciedade, e não vejo, repito, não vislumbro propostas concretas para melhorar sustentavelmente a situação, para além das medidas governamentais que mais não farão, porém, que tentar tapar, pela enésima vez, o sol com a velha peneira já gasta. Porque incapaz de perceber o problema.

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