A morte do homem

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Não sabia que Hugo Claus tinha um filho de Sylvia Kristel. Conhecia apenas dois livros dele. São bons. Amargos como a vida mais doce. Quando li a notícia da sua morte no Libération, lembrei-me de uma passagem de um outro autor (Cioran): “há noites em que o futuro é abolido, quando de todos os instantes só subsiste aquele que nós escolhemos para não ser mais”. Um homem decidiu não continuar a viver. Doente e diminuido, não queria esquecer-se do que era. Não escrevia. As palavras fugiam. Sem elas o mundo deixava de ter sentido. Era um estranho. Num momento em que conseguia pensar, falou com o filho e as mulheres que tinha amado sobre a vontade de morrer. Repetiu-a várias vezes, a um médico, para a decisão estar de acordo com a lei belga – há mortalhas e poderes que nos perseguem até ao fim mesmo. Cumpridos os devidos procedimentos legais. Acabou.

Segundo todas as religiões morreu em pecado mortal. Deus demora a aceitar um novo artigo para o Seu infinito catecismo: “Concedei-nos Senhor, o favor e a força de acabar e a graça de nos apagarmos a tempo” (Cioran). Amén.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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16 respostas a A morte do homem

  1. Luis Rainha diz:

    Só mesmo tu para me deprimires ainda mais nesta hora. Obrigado, pá. 🙂

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Vejo que os arrufos com o Ezequiel deixaram-te marcas gráficas

  3. Luis Rainha diz:

    Eu ainda continuo desconfiado de que o Ezequiel é um heterónimo teu.

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Sim, Brigadas Bigorna

  5. Luis Rainha diz:

    A sério: aquilo é bom de mais para ser verdade.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Eu gosto do Ezequiel, apesar de raramente concordar com ele. Quando não escreve sobre o médio oriente, pensa coisas interessantes, inteligentes e surpreendentes. É só uma questão de o leres com mais empatia/simpatia.

  7. Luis Rainha diz:

    Essa inopinada enchente de bons sentimentos é para me convenceres de que não és mesmo o autor dele, certo?

  8. Luis Rainha diz:

    E sabes que eu tenho por aqui 5 crianças e 1 mulher. A minha empatia esgota-se logo pelas 10 da matina.

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Experimenta o contrário: cinco mulheres e uma criança. Talvez melhores.

  10. Luis Rainha diz:

    As minhas viagens pelo mundo muçulmano indiciam-me precisamente o oposto.

  11. Luis Rainha diz:

    Mas se calhar até sou capaz de vir a gostar do Ezequiel. É uma questão de provar.

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Recusas cinco mulheres e aceitas o Ezequiel. É um bom princípio. Pelo menos, não corres o risco de ter de declarar ao fisco.
    Boa noite e até amanhã.

  13. Sócretino diz:

    Ele há o SKYPE,o Messenger…

  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Palavra?

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Maria João,
    Muito bonito. Obrigado

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