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Transgénicos II por José Eduardo Gomes

25 Março 2008 | por Maria João Pires

Pelo que já expus acho que não se pode recusar os transgénicos a priori. A argumentação da pureza da natureza é um argumento reaccionário que não tem qualquer sustentação. Os transgénicos são uma tecnologia que tem o potencial de ser muito útil. O exemplo paradigmático é o do golden rice. Uma variedade de arroz transgénica que produz um precursor da Vitamina A na parte comestível do arroz. Esse precursor (o beta-caroteno) é normalmente produzido pela planta do arroz, mas nas folhas, que normalmente não fazem parte da alimentação humana. Este arroz poderia ajudar a combater a carência crónica de Vitamina A nas regiões pobres do planeta, onde o arroz é uma parte muito importante da alimentação das populações carenciadas. O Golden Rice conta com a feroz oposição dos “ambientalistas”, e não parece que ofereça grandes perspectivas de lucro às grandes multinacionais dos transgénicos, que têm outras prioridades. Continua por isso a não ser mais do que um projecto bem intencionado que não sai do papel. Há mais utilizações potencialmente benéficas. Por exemplo, a produção de insulina por plantas transgénicas, ou mesmo no leite de vaca, pode ajudar o tratamento da diabetes. Pode pelo menos tornar a produção de insulina mais barata.

Tenho o cuidado de dizer que os benefícios dos transgénicos são potenciais. E quando digo que não há nenhuma razão fundamental para recusar todos os transgénicos a priori, não quero dizer que todos os transgénicos são bons, e que devem ser recebidos de braços abertos. Isso seria irresponsável. O princípio da precaução aplica-se, obviamente, também aos transgénicos. Um arroz que produz um precursor da Vitamina A na semente, algo que a planta já produz nas folhas, não é a mesma coisa que um milho que produz uma toxina que mata a broca do milho (uma lagarta). A Vitamina A é bom para a saúde, já uma toxina, à partida, não oferece tanta segurança. Cada transgénico tem que ser avaliado, caso a caso, com precaução, por autoridades técnicas competentes.

Paradoxalmente os transgénicos poderiam até servir para salvar variedades rústicas, o que é exactamente o contrário do que acontece hoje em dia. Os transgénicos hoje põem em risco essas variedades, porque concorrem com elas. Poderiam servir a esse fim porque fazer transgénicos não é difícil, um pequeno laboratório com pessoal especializado, uma pequena empresa start-up, e poder-se-ia desenvolver variedades com maior produtividade, a partir das variedades rústicas. E porque razão não é isso que acontece? Porque os governos, sob pressão da opinião pública mal-informada, não só não incentivam essas start-ups, como impõem testes draconianos, financeiramente incomportáveis para pequenas empresas. Apenas as grandes multinacionais se podem permitir esses avultados investimentos. Mas são investimentos seguros, já que a concorrência desleal é garantida à partida. É a bondade do mercado a funcionar, com a ajuda do estado protector, obviamente.

O problema dos transgénicos é afinal económico. E acrescente-se ainda que os transgénicos estão sujeitos a patentes. Quer isso dizer que um agricultor que queira produzir milho resistente a pragas tem que se sujeitar ao monopólio da empresa que detém a patente do milho resistente a essa praga. Sendo que os transgénicos são estéreis, o agricultor vai ter que comprar sementes de cada vez que quiser fazer sementeira. Como as regras para o cultivo de transgénicos são apertadas requerem investimentos pesados (por exemplo, maquinaria para plantas transgénicas separada de outra maquinaria para evitar potenciais contaminações), o agricultor não pode experimentar um ano só para ver se se dá bem. Se faz o investimento é para a vida (ou quase). Depois poderá ainda ver-se obrigado a comprar produtos, como adubos ou pesticidas, específicos da variedade de transgénicos que cultiva. E quem lhe vai vender esses produtos? A mesmíssima empresa que vende as sementes. Foi você que disse monopólio?

Há um paralelo curioso entre os transgénicos e os medicamentos - também sujeitos aos monopólios ditados pelas patentes. As grandes farmacêuticas produzem medicamentos que inegavelmente são úteis para a saúde. Mas as farmacêuticas são regidas pela lei do lucro, e não pelo interesse público (mesmo sendo os medicamentos que produzem o resultado, a mais de 95%, da investigação feita por entidades públicas financiadas por dinheiro dos impostos, o que também acontece com os transgénicos). Chegámos mesmo a ver empresas farmacêuticas atacarem o governo da África do Sul, e mais recentemente da Índia, por produzirem medicamentos genéricos, mais baratos, em particular para o tratamento da SIDA. Isso não é uma razão para se lançar ataques contra farmácias. Imaginem o que seria se os Verdes Eufémios resolvessem deitar fogo a uma farmácia de bairro.

Também me choca a pouca atenção que se dá aos especialistas, que podem contribuir para um debate informado sobre esta questão. Quando um bando de radicais faz um ataque despropositado a uma propriedade de um agricultor, tem direito a abertura de telejornal (seja em Portugal, ou em França, ou noutro lado qualquer), mas aos especialistas ninguém lhes liga. E não me venham dizer que os especialistas não estão para isso. Em Portugal, que eu tenha reparado, já pelo menos dois especialistas conceituados, investigadores na área da Biologia Vegetal, vieram a público debater os transgénicos: José Feijó e Pedro Fevereiro (como já referi aqui e aqui, respectivamente). Existe ainda o  Centro de Informação de Biotecnologia, presidido precisamente por Pedro Fevereiro. Simplesmente os media não dão aos especialistas a atenção que um debate sério sobre a matéria exige. E por falar em sério, convém que quando se convida um/a especialista para um programa de rádio ou televisão ele/a saiba do que está a falar, ou então não se trata de uma especialista, mas apenas de alguém que se faz passar por “especialista” (isto a propósito do link  ali acima).

Resumindo, o problema dos transgénicos não é ambiental, muito menos de saúde pública. Mas há um problema económico sério, e há um problema grave de ausência de debate informado sobre o assunto. No entanto recusar liminarmente os transgénicos, todos os transgénicos, é deitar fora o bebé com a água do banho.

Comentários

Comentário de Cássio
Data: 2 Abril 2008, 21:13

POde me dizer quais são os benefícios dos trangênicos

Comentário de Caballerus
Data: 13 Junho 2008, 4:11

A empresa Delta & Pine, dos EUA, patenteou o gene classificado como terminador (exterminador). Ele é incorporado às sementes que plantadas e colhidas tenham sementes estéreis. Isto obriga o agricultor a comprar sementes sempre for plantar. Na América Latina, causaria grandes e negativos impactos.

O gene exterminador poderá ser levado pelo vento junto com os grãos de pólen e fecundar as flores de plantas silvestres ou domésticas, tornando-as também estéreis, e provocando uma irreparável destruição do patrimônio biológico da humanidade. Este é apenas um dos vários problemas ainda pouco estudados.

Agora vem babar ovo que voce entende de botanica? Engenharia genética ? Nutrição ?

Tenha dó… não levante bandeira sem ter um chão pra fincar.

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