“Transgénicos I” por José Eduardo Gomes
24 Março 2008 | por Maria João PiresHá temas que merecem debate e reflexão, de preferência fora dos momentos “quentes” quando as opiniões se extremam e muita da racionalidade parece tirar férias. Alguns meses depois do episódio - que inflamou os espíritos este Verão - dos “Verdes Eufémios” pedi ao José Eduardo Gomes, o Zèd do Peão, que sistematizasse, num texto para o cinco dias, o que foi escrevendo sobre transgénicos nos últimos meses. Porque o tema não é fácil e exige alguma pedagogia o resultado foi um texto grande que será apresentado em duas partes (hoje e amanhã).
Os transgénicos (I) por José Eduardo Gomes
Vi uma vez um documentário, se não me engano de Ken Burns, em que a dada altura se falava de Benjamin Franklin, um dos “pais fundadores” dos EUA e inventor do para-raios. Ficou-me na memória um pequeno pormenor que me era desconhecido, e até então (ingenuidade minha) impensável. Houve, da parte dos puritanos religiosos, quem se opusesse à utilização do para-raios. O argumento era de que os relâmpagos eram uma punição de Deus, e que o homem não devia contrariar a justiça divina. Como é óbvio o bom-senso imperou, e o uso do para-raios generalizou-se. Presumo que como é hábito os autores de tão reaccionários argumentos tenham acabado por aceitar essa inevitabilidade, e sem nada aprenderem com história se tenham dedicado a repetir argumentos igualmente reaccionários contra outros progressos, sendo uma e outra vez derrotados, e recomeçando uma e outra vez o mesmo ciclo. E que tem isto a ver com um post que, como o título indica, é sobre transgénicos? É simples, muitos dos argumentos que se usam contra o uso dos transgénicos são da mesma natureza dos argumentos dos puritanos contra os para-raios.
Quer-me até parecer que é o caso dos Verdes Eufémios. Digo “quer-me perecer” porque na realidade, no meio do turbilhão mediático que resultou da destruição do campo de milho transgénico em Silves, não vislumbrei quaisquer argumentos dos Verdes Eufémios, se é que os têm. Deduzo apenas que achem que não se deve “mexer” na Natureza. E esta é uma argumentação frequente, que está longe de se limitar apenas aos movimentos radicais-eco-pitorescos. Basta fazer uma pesquisa Google para ver que há muito por aí quem seja contra os transgénicos por se estar “a brincar” com a natureza, a natureza é assim uma espécie de obra de Deus, ou uma espécie de Deus ela própria (o que dá no mesmo), na qual não se pode “tocar”.
Esta argumentação religiosa/mística é absolutamente incoerente. Vejamos; o que é um transgénico? Um organismo ao qual foi introduzido material genético estranho. Isto é um fenómeno que acontece na natureza, que o diga quem tem herpes labial. Há Vírus que podem introduzir os seus próprios genes nas células do hospedeiro, inclusivamente de forma permanente. As bactérias também podem transmitir genes uma às outras. Se os vírus e bactérias podem fazê-lo para sobreviver porque não poderão os humanos? Porque razão não há-de ser natural? Já que o ser humano é inteligente porque raio não se há-de servir da sua inteligência para seu benefício? Dizem os místicos que estamos a alterar a natureza, e é verdade. Mas qualquer organismo pelo simples facto de existir interage com o seu ecossistema, logo altera a natureza. E há maior alteração da natureza do que a agricultura? Não foi uma violação da natureza muito maior o homem do neolítico destruir para re-inventar e manipular novos ecossistemas? Será que para respeitar a natureza deveríamos tornar-nos caçadores-recolectores?
Confesso que também não percebo porque razão se critica os transgénicos na Agricultura e não na investigação biomédica. Se a utilização de transgénicos é uma perigosa manipulação da natureza, então tanto faz que tenha por fim aumentar a produtividade da agricultura (que, by the way, produz comidinha) ou que tenha por fim a investigação em doenças como o cancro ou Alzheimer. Para os mais distraídos a produção de transgénicos é hoje (já vai aí para vinte anos) uma prática de rotina, tanto na investigação fundamental em Biologia, como na investigação aplicada à medicina. Eu próprio já fiz uns quantos transgénicos. Hoje em dia é impossível imaginar como séria a possibilidade de não se usar transgénicos na investigação. Portanto aos ferozes opositores dos transgénicos, os que
recusam liminarmente os transgénicos por uma questão de princípio, na infeliz circunstância de lhes ser diagnosticada uma doença lixada, tipo cancro (oxalá que não), aconselho a serem coerentes e em vez de irem a um médico acreditado pela ordem, vão antes visitar o curandeiro da aldeia. Sim, porque a probabilidade do médico usar no seu diagnóstico e no seu tratamento, conhecimentos resultantes da investigação feita com transgénicos, é bastante elevada.
Já agora, o termo OGM - Organismo Geneticamente Modificado - com que se apelida os transgénicos é bastante enganador, e suponho que isso não aconteça por acaso (seja intencional ou não). Parece mesmo feito à medida para dar a imagem de que tudo o resto que se faz na Agricultura não resulta de modificações genéticas. Nada mais errado. Desde que existe Agricultura que o homem provoca modificações genéticas nas espécies que cultiva. De início, e durante uns séculos, limitava-se a fazer cruzamentos e a seleccionar as variedades que mais lhe agradavam. Convenhamos que não é algo que aconteça espontaneamente na natureza. Naquele tempo o homem esperava que ocorressem mutações por acaso para depois seleccionarem as melhores variedades mutantes. Mas depois da descoberta da Genética começou a induzir-se mutações, em vez de esperarem que elas ocorram. E provocar mutações é uma técnica que já se usa, vai quase para cem anos, no melhoramento de plantas para a Agricultura. Se isto não são modificações genéticas, então não sei. Para cúmulo, (como já referi aqui) um estudo recente demonstra que as alterações provocadas pela indução de mutações destabilizam geneticamente as plantas, muito mais do que os transgénicos. Acontece que um dos argumentos que mais se usa contra os transgénicos é o da poluição genética, ou seja o risco transgenes serem transmitidos às populações de plantas selvagens. Considerando que os transgénicos são sempre ou quase sempre estéreis, e as variedades tradicionais não, que os transgénicos são sujeitos a regras de cultivo draconianas, e as variantes tradicionais não, e que as variedades tradicionais são mais alteradas geneticamente do que os transgénicos (conforme o estudo que referi), conclui-se que as variedades tradicionais apresentam um risco de poluição genética muito superior aos transgénicos.
Quer isto dizer que sou um entusiástico apoiante do uso dos transgénicos na Agricultura? Não, claro que não, muito longe disso.

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