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Orgulho e Preconceito

23 Março 2008 | por Paulo Pinto

Fiquei abismado com a mais recente crónica de José Pacheco Pereira (JPP), publicada no Público de ontem e reproduzida hoje no Abrupto. O tema é a invasão do Iraque. Os argumentos não são famosos, a estratégia é primária, o balanço é tristonho. No fim, fiquei convencido de que há ali uma teimosia irredutível, um orgulho indisfarçável, uma falta de humildade gritante. E um conjunto de ideias preconceituosas a roçar o patético. Sempre tive por sensato que reconhecer o erro não é sinal de fraqueza, mas indício de inteligência. Mudar de opinião não é vergonha, é prova de humanidade. Reconhecer que se avaliou mal e que se julgou pior é sinal de maturidade e marca de abertura de espírito, porque estamos sempre a aprender, porque estamos conscientes das nossas limitações, porque erramos. Porque somos humanos, em suma. JPP não faz nada disto. Ninguém, aliás, exigia que o fizesse. Se não mudou de opinião acerca do assunto, está no seu direito. Como no meu direito estou eu de o comentar. Estamos entendidos acerca disto. Mas escusava de se assumir como mártir, em tom de ironia infeliz, ao afirmar que está a cometer “delito de opinião para o qual uma pequena turba, que só parece grande porque é alimentada pelo silêncio de muitos, pede punição, censura, opróbrio, confissão pública do crime, rasgar de vestes. Na minha terra, chamava-se a isto “atirar areia para os olhos”. Nem me ponho a escavar considerações prolongadas pelo infeliz uso de “turba” que, pelo que sei, quer dizer algo como “multidão descontrolada, populaça, massa de gente enfurecida, ralé”. Não percebo onde está a “pequena turba“. Uma “pequena turba” é um grupinho. Que, no presente caso, nem sequer é da “populaça” mas, pelos vistos, de políticos, intelectuais, comentadores, jornalistas. Mas percebo que JPP goste de se mostrar acossado. Não percebo é a torrente de atributos e intenções atribuídas aos que o criticam, todas unidas em torno de, segundo as suas palavras, “uma visão do mundo assente num único pilar, o antiamericanismo militante por razões puramente ideológicas”. Depois lá vem a habitual referência ao Bloco de Esquerda e a Mário Soares. Recuso-me a acreditar que JPP pense que quem criticou a invasão do Iraque ou hoje aponte para o cenário catastrófico dos últimos 5 anos o faça apenas movido por “razões ideológicas”. Orgulho e preconceito, escrevo acima. Obstinação e dissimulação, acrecento agora. Porque o fracasso dos 5 anos de guerra é de tal maneira evidente que só uma cegueira por “razões puramente ideológicas” ou outras pode justificar.

JPP não se atreve a defender o indefensável. A bater-se pela justeza de 5 anos de guerra. Limita-se a paliativos, enquadramentos, ironias, exemplos alegadamente comparativos e, como se viu, a fazer-se passar por injustamente criticado. Reconhece que muita coisa correu mal, mais por culpa posterior do que por erro de princípio. E assina como “historiador”. Então, nessa qualidade, deveria saber bem que os exemplos comparativos que apresenta não fazem sentido. Eu digo: JPP afirma que “as críticas a Bush têm um precedente curioso, parecem as críticas a Churchill e a Reagan”. O Abrupto inclui gravuras de propaganda da ex-RDA e de outras proveniências a ridicularizar ambos. E acrescento: comparar o panorama da II Guerra Mundial ou o da Guerra Fria com o actual só pode ser entendido como uma manobra de diversão ou uma demonstração de ignorância.

Ponto primeiro, a “decisão de invadir”. Segundo JPP, pouco teve a ver com a existência de armas de destruição maciça ou com o apoio de Saddam à Al-Qaeda. Não sabia desta, fiquei a saber. A decisão teria a ver com a “resposta à crise suscitada pelo terrorismo apocalíptico”  se manifestou em Nova Iorque, Bali, Madrid, Londres “e um pouco por todo o lado“. Apenas comento que o 11 de Março e a atentado em Londres ocorreram em 2004, pelo que não compreendo como podem ter pesado na decisão de invadir o Iraque. E também me escapa o raciocinio que desligaria estes atentados da Al-Qaeda mas que os ligaria a Saddam. Espero que JPP me ilumine. Seguindo a crónica, a Administração Bush terá desenvolvido a ideia de que, “para combater a nova forma de guerra que é o terrorismo, não bastava erradicar as bases terroristas onde elas existiam (como no Afeganistão ou Sudão), o que era visto como um sintoma, mas ir à causa, à relação de forças que bloqueava todos os processos políticos que deveriam “distender” o Médio Oriente e permitir a resolução de conflitos antigos como a Palestina”. Então, nada melhor para “distender” do que invadir o Iraque, pergunto eu? Desanuviar a tensão no Médio Oriente conseguir-se-ia com uma intervenção militar maciça num país soberano, que não tinha ligações à Al-Qaeda nem constituía ameaça iminente para o equilíbrio regional? Curioso raciocínio, curiosa estratégia. JPP apressa-se a dizer que os conflitos locais (como o da Palestina) eram uma espécie de “irritante geral, bloqueavam as forças moderadas e moderadoras no mundo árabe-muçulmano e impediam a estabilização da região”. Aqui, confesso, perdi-me, porque entramos no reino do delírio. Não consegui identificar essas “forças moderadas” (presumo que se trate, uma vez mais, da moderadíssima Arábia Saudita) e não percebi como é que a invasão de um país sob falsos pretextos lhes daria fôlego e dinamismo para melhorar a situação regional e promover a paz. Toda a gente percebeu ou acabou por perceber (e alguma avisou bem a tempo) que o Médio Oriente não é um tabuleiro de xadrez convencional, que o ódio antiamericano em particular e antiocidental em geral iria crescer em flecha e, consequentemente, reforçar os extremismos, que a intervenção iria agravar, até ao bloqueio, a crise palestiniana, que os efeitos da guerra seriam imprevisíveis, duradouros e muito perigosos para todos.

Se as supostas ligações à Al-Qaeda e a existência de armas de destruição maciça foram apenas “razões apresentadas publicamente para a justificar” (à invasão), ainda que mentiras juradas verdades a pés juntos por Bush e Blair, quais terão sido as verdadeiras motivações? JPP não esclarece. Nem fala dos interesses americanos na região ou do petróleo (apenas faz a graçola infeliz de dizer que é um “líquido que tem a tendência natural para surgir só em sítios complicados”). Diz, sim, que à tal “turba” que lhe ladra “não lhes interessa Saddam, não lhes interessa a submissão dos xiitas, não lhes interessa a natureza de um regime que atacou aldeias curdas com armas químicas, não lhes interessa um ditador que provocou guerras, essas sim, com mais de um milhão de mortos, e que invadiu os países vizinhos”. Presumo, portanto, que a ele e a quem decidiu a invasão, interessa. E agora comento eu: Saddam interessou só a partir do momento em que invadiu o Koweit, o regime só interessou quando se tornou desafiador para o Ocidente, a guerra com o Irão interessou, sim, mas no sentido oposto, porque então era este último o alvo a abater (e, hoje, de novo, por ironia do destino - ou pela inabilidade americana, cada um que escolha o que preferir). Quanto aos massacres nas aldeias curdas, não interessaram a ninguém, como não interessaram nem interessam as atrocidades ocorridas em todo o mundo a toda a hora e desde há tanto tempo. Só quando convém. Dizer que a invasão do Iraque teve as motivações que JPP aponta, é de uma ingenuidade ou hipocrisia sem limites. Em que, em 2003, ainda alguém poderia acreditar. Muita gente acreditou. Hoje, não. Já ninguém acredita. E é esta queima permanente de crédito, este desbaratar da confiança nas intenções da Casa Branca e do Ocidente em geral que iremos pagar com juros durante as próximas décadas. Mas isto, a couraça do orgulho e do preconceito de JPP não deixa, aparentemente, transparecer.

A crónica continuará, com a “questão das armas de destruição maciça”. Cá estaremos, nós, a turba, para exercer o direito de opinião. Ou, se preferirem, de delito.

Comentários

Comentário de Sérgio
Data: 23 Março 2008, 18:54

JPP faz parte da casta dos que quanto menos razão têm, mais se presumem no limiar do nirvana. É um velho instrumento retórico. Não vale a pena dar tanta importância a quem tem feito de tudo para a desmerecer. E é uma pena, porque (ainda) tenho admiração sincera pelo senhor.

Comentário de Uma senhora idosa
Data: 23 Março 2008, 20:39

Os (arrogantes) iluminados nunca têm dúvidas, e raramente se enganam; eles são uma elite, uma casta, acima do bem e do mal; ou os fins justificam os meios ou -, quando se prova que tal não correspondia à verdade - a coisa justifica-se a si própria porque saiu de cérebros iluminados, e com tal, do supra-sumo da verdade e da infalibilidade…
JPP como Bush, como Sócrates, como… toda essa cambada que é eleita pelo povo e quando chega ao poleiro do poder se esquece de quem o pôs no dito poleiro, que lhe paga o (chorudo) ordenado e mordomias afins - por inerência o seu patrão, a quem devem respeitar, a quem devem servir, e cujos reais interesses devem, em primeiro lugar, servir.
(é certo que JPP não está entre os governantes, mas como emissor de opinião com divulgação pública acaba por funcionar como retaguarda de um certo estilo de funcionários do poder)

Comentário de Luis Serpa
Data: 23 Março 2008, 21:44

Caro Paulo Pinto,

Tenho uma opinião totalmente oposta da sua quanto ao artigo de JPP: acho-o justo, válido, pertinente e nada arrogante - antes pelo contrário, reconhece que foram cometidos erros.

Arrogante e patética parece-me a sua introdução, o primeiro parágrafo todo. Pergunto-me como reagiria, se alguém criticassse um artigo seu usando esses termos. Não contei as linhas, mas são muitas, sem uma única refutação da tese de JPP - é um ataque pessoal em forma, cujo objectivo é deitar abaixo a credibilidade do opositor, e não a validade dos seus argumentos, antes de entrar na argumentação propriamente dita.

Luis Serpa

Comentário de Paulo Pinto
Data: 23 Março 2008, 23:59

Caro Luís Serpa: não coloque na minha boca, nos meus dedos ou na minha mente coisas que não afirmo e intenções que não possuo. Conceda-me, ao menos, o direito a este “delito de opinião”. E se me pergunta como reagiria, digo-lhe que o faria da melhor maneira que pudesse e soubesse: na minha opinião, com sensibilidade e bom-senso.
Posto isto, digo que a crónica de JPP não me parece nada o que afirma. O “reconhece que foram cometidos erros” é irrisório. Um eufemismo. JPP é inteligente e é uma opinião respeitada. Se dissesse que “não foram cometidos erros” perdia, de uma assentada, ambos os méritos.

Comentário de xatoo
Data: 24 Março 2008, 1:17

o Pacheco é o teólogo da Era do Capitalismo Destrutivo
agora terá de expiar os pecados e alancar com as consequências do Concilio das Lages às costas. Há quem pense que o impeachemnt de bush e cheney não será suficiente - é preciso fazê-los malhar com os ossos no TPI, essa gloriosa entidade que pune os crimes contra o direito internacional (que os neocons não subscreveram).
E nós, que exigiremos ao bando dos 4 (lembram-se do cartoon do António no Expesso de Março 2003 intitulado a Brigada do Galo de Barcelos? do dito P.Pacheco, Durão Barroso, Vasco Graça Moura e Paulo Portas se cunhou então a imagem que ficará para a posteridade.
aquela que valerá mais que todas as redacções e papelada rabiscada que possa ficar arquivada nos sótãos da Marmeleira.

Comentário de Rafael Marques
Data: 24 Março 2008, 3:09

Tem razão Luís Serpa.

Paulo Pinto acaba como começa, (escrevendo pelo meio uma dúzia de disparates irrelevantes mas muito BE, como seria de esperar):

“Mas isto, a couraça do orgulho e do preconceito de JPP não deixa, aparentemente, transparecer.”

Puro ataque pessoal, ainda por cima pouco inteligente: É que JPP não está arrependido, não mudou de opinião e parece acreditar no que diz. Tanto que escreveu este artigo, aliás coerente com tudo o que sempre tem dito e escrito sobre o assunto. Não há nada a esconder debaixo de qualquer couraça. O que transparece e aparece é. Se isto não é óbvio, nada é óbvio no mundo.

(sim, f. sou eu, again. virei sempre que for preciso.)

Comentário de Propranolol
Data: 24 Março 2008, 3:27

Referir criticamente o dinossauro JPP é difícil e fácil. O que Paulo Pinto diz é difícil, quer dizer, não embarca na fácil maledicência nacional, analisa com coerência e rigor, sem achincalhamento. De facto, estando eu convencido de que JPP não é um qualquer comentador e que o seu pensamento é um contributo importante na sociedade portuguesa, penso ser necessário desmontar argumentações tendenciosas, mas hábeis, que JPP usa relativamente às suas idolatrias pró-americanas, pró-cavaquistanesas e outras.

Comentário de gil
Data: 24 Março 2008, 11:05

Quanto a mim, o mais desconcertante das “queixas” de JPP tem a ver com os ataques por delito de opinião de que ele e José Manuel Fernandes, coitados, têm sofrido!
Não é difícil desenterrar os textos com que, na altura da invasão, o Director do Público e os restantes “neo-cons” de trazer por casa mimosearam todos os que se insurgiram com a criminosa aventura bushista: de “amigos de Saddam” até “pacifistas cobardes”, passando por referências a Chamberlain”, valeu tudo.
Devo confessar que não me lembro se JPP fez parte desse côro de belicistas de sofá mas lá que o escriba a que se associou não só pertenceu ao côro como foi um dos solistas, lá isso…

Comentário de Paulo Pinto
Data: 24 Março 2008, 11:13

Caro Rafael Marques: registo que não me olha de frente, mas manda recados de esguelha para o outro comentador. Permita-me o seguinte: 1. “muito BE, como seria de esperar”; ora abóbora, se este não fosse um assunto sério, eu dizia-lhe onde podia enfiar o BE. 2. “puro ataque pessoal”; mentira, disparate, delírio. Leia lá outra vez, as vezes que forem precisas, aprenda a distinguir um sapato de uma bota e depois diga-me coisas. 3. “ainda por cima pouco inteligente”; peço desculpa pela minha pouca inteligência. Que, porém, me permite aprender, reconhecer erros e corrigir posições. Coisa que o supremo inteligente JPP não faz.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 24 Março 2008, 12:39

rafael, registo que sabe que eu sei que sabe que eu sei. já é alguma coisa. e volte sempre que quiser.

Comentário de ruibarbo
Data: 24 Março 2008, 14:03

Grande texto, Paulo Pinto. Sobretudo porque denuncia as trapaceirices do tal dito “historiador” que se serve do título como argumento de autoridade.
Dado que as Lajes tiveram o apadrinhamento de Durão Barroso e que JPP era na altura uma espécie de ponta de lança da intelligentsia de direita no sentido de convencer a “turba” sobre a bondade das intenções da invasão, pergunto-me se não lhe deverão ser assacadas responsabilidades pelos milhares (milhões, se contarmos com as consequências a longo prazo) de mortos daí resultantes. Responsabilidades factuais e não apenas ideológicas! Assim como a Kristol, Cheney, Wolfowitz, e outros cães de guerra. Porque é justamente isso que JPP é - à dimensão portuguesa.

Comentário de Sócretino
Data: 24 Março 2008, 20:13

E as armas de destruição maciça,as que há estão enterradas na areia do deserto e a envenenar até aos genes,os iraquianos-e isso é um CRIME,assim como é a privatização(agora,na economia)dos campos petroliferos que é para sacar o barril a 1Dólar,i.e,159 litro a 0.64Euro!!!!
JPP,simpesmente não passa dum publicitário xunga com ao nível dos vendedores de pentes.
Ouvia-o na TSF e quando ouvi uns disparates acerca de matemática e astronomia,vi que o omem (sic) é tipo ‘picareta falante’,pq a ótica dele, o que fala de tudo e de nada é que é um ganda entendido,esperto(lá isso é!),génio,sabão,etc.Para o nível cultural deste povo será óbvio que um gajo com este patuá,é que é um grande ’savant’(sábio,prós basbaques!)

Comentário de tina
Data: 24 Março 2008, 20:49

O que eu acho extraordinário é uma esquerda que afinal defende que seria melhor que continuasse a haver perseguição política no Iraque e que o bem estar de alguns continuasse a custa do sofrimento de muitos. Deviam era ter vergonha na cara, seus hipócritas.

Comentário de Paulo Pinto
Data: 24 Março 2008, 22:48

Desculpe, é comigo?

Comentário de tina
Data: 24 Março 2008, 22:55

Sim, é consigo.

Comentário de Socratrico
Data: 25 Março 2008, 0:40

É isso socretino, ensina lá os basbaques a escrever belga, que isso sao perolas, socretino, perolas, cólidade intelectual

Comentário de xatoo
Data: 25 Março 2008, 11:55

chegou a peixeira Tina

Comentário de xatoo
Data: 25 Março 2008, 11:59

É a Economia de guerra, estúpida!

Comentário de Paulo Pinto
Data: 25 Março 2008, 12:07

Muito bem, já que é comigo, respondo: 1. não sei para que raio vem à conversa “a esquerda”. Eu escrevo o que escrevo, bem ou mal, não represento “esquerda” nenhuma (e nem sei bem o que isso é); daí a pergunta sobre se era comigo. 2. Verifico que a sua percepção daquele país é imaculada: hoje é unanimemente reconhecido que não existe lá qualquer “perseguição” e que desapareceu o “sofrimento de muitos”; JPP não diria melhor, parabéns. 3. Não vejo onde está a minha hipocrisia, lamento. Certamente que temos noções diversas acerca do conceito.

Comentário de Luis Serpa
Data: 25 Março 2008, 12:43

Caro Paulo Pinto,

não partilho de todo a formulação da Tina, embora partilhe provavelmente o fundo do raciocínio. Confesso-lhe que não tinha previsto continuar este diálogo, mas a sua observação “não represento “esquerda” nenhuma (e nem sei bem o que isso é)” remeteu-me para duas ou três notas que apontei ontem e que, se não se importa - extravasam um bocado o tema do post - aqui deixo(está um bocado em bruto, ainda);

A esquerda de hoje só é incompreensível porque nós continuamos a olhar para ela à luz da esquerda da ciência, do progresso, da justiça social, do internacionalismo de antanho. É evidente que depois da União Soviética, da China, da Coreia do Norte, do Cambodja, de Cuba, do Vietnam, da Etiópia, de Angola, Moçambique, Albânia e tantos outras experiências de socialismo “científico”, “popular”, “democrático”, a esquerda de hoje não pode continuar a desfraldar essas causas: teria o ar ridículo, confrangedor e patético da meia dúzia de iluminados comunistas que prosseguem o “combate”, afrontando as forças da reacção - é assim que eles chamam à realidade - com a energia da cegueira. A esquerda “moderna” viu-se assim obrigada a adoptar outras causas. Claro que o substracto é o mesmo, mas as montras são outras: o progresso científico foi para as urtigas - hoje, o progresso é inimigo do homem, e já não a salvação; a justiça social foi substituída pelo relativismo - é a única forma de se defender os palestinianos corruptos, anti-democráticos, machistas, anti-gay, contra os israelitas - e o internacionalismo foi substituído pelo direito à auto-determinação. Uma ideologia que assentava em raciocínios falaciosos, em práticas ditatoriais e que levou aquilo que se viu (ou vê, em Cuba, na Coreia do Norte) está hoje condenada a defender Sadams e Ahmadinejads e a lutar contra a “globalização”, contra os transgénicos e contra os Estados Unidos, que representam o mal absoluto. Um mundo do qual se a super-potência fosse a China, a Rússia, o Irão, a Venezuela ou a Palestina nos - e lhe - podíamos perguntar se seria um mundo melhor.

Comentário de Maria João Pires
Data: 25 Março 2008, 12:46

Agora estou sem tempo nenhum… mas «está hoje condenada a defender Sadams e Ahmadinejads e a lutar contra a “globalização”, contra os transgénicos e contra os Estados Unidos, que representam o mal absoluto». o Luís é um piadista, não é? Conte mais destas q o que faz falta é animar a malta.

Comentário de Paulo Pinto
Data: 25 Março 2008, 13:08

Caro Luís Serpa: sou completamente avesso às etiquetas e chavões de “esquerda” e “direita”. Mas completamente. Lamento. Deve ser incapacidade minha de apreender conceitos complexos. Fico com urticária quando oiço o Louçã a falar da “nova esquerda”, quando escuto outros personagens (dextros ou esquerdinos) com discursos semelhantes. Um dia hei-de escrever um post sobre a questão. Para mim são as coisas mais obtusas, mais escorregadias, mais vazias, mais desligadas da realidade que conheço. São meros artifícios de linguagem, armas de arremesso para se atirar ao vizinho, jogos de espelhos, conceitos etéreos, vagos e difusos, facilmente manipuláveis, plásticos.
Por isso, não sei bem o que hei-de dizer sobre aquilo que comenta. Digo apenas que se a “esquerda” é isso que escreveu, Deus nos salve e guarde dela.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 25 Março 2008, 13:09

amen

Comentário de Luis Serpa
Data: 25 Março 2008, 13:30

Caro Paulo,

temos uma coisa comum: a urticária que a expresão “nova Esquerda” na boca do Louçã nos provoca (confesso-lhe que no meu caso esta reacção é extensiva a todas as expressões que saem daquela iluminada boca, mas isso é outra história). Quanto às etiquetas, não sei: tanto em Lisboa, como em Paris ou Genève, as pessoas que vejo nas manifestações contra os transgénicos, contra a guerra do Iraque, contra a globalização, contra Israel, contra o G8, contra a OMC (ou WTO, no acrónimo inglês) afirmam-se de esquerda. Eu também acho que são de esquerda, porque partilham muitos das características da esquerda dos anos 60 e 70, que se afirmava como tal. Mas confesso-lhe que isso não é problema que me aflija muito.

Ainda a respeito da hipocrisia mencionada pela Tina: uma vez ouvi o José Bové a arengar a agricultores no Brasil. Esse é um belo exemplo de hipocrisia - o José Bovée é uma das pessoas que luta contra a possibilidade de os agricultores do Brasil (e do resto do mundo) venderem os seus produtos na Europa. A isto, mesmo quem não gosta de etiquetas deve chamar “hipocrisia”, não? (Se bem forçoso seja reconhecer que a esquerda - ou o que lhe quera chamar - não tem o monopólio da coisa. E se perguntar ao Bové, garanto-lhe que ele se diz de esquerda).

Cara Maria João - compreendo que precise de ser animada, se bem não saiba bem porquê. Não conte, porém, comigo - sou tão incapaz de “animar a malta” como o Paulo Pinto é de apreender conceitos como “esquerda” e “direita”. E não, não sou um piadista, infelizmente.

Comentário de tina
Data: 25 Março 2008, 17:41

2. Verifico que a sua percepção daquele país é imaculada: hoje é unanimemente reconhecido que não existe lá qualquer “perseguição” e que desapareceu o “sofrimento de muitos”;

Desonestidade típica da esquerda. Desculpe insistir om isto da esquerda, mas voce demonstra todos os seus tiques.

Olha o Xatoo, anda mesmo chateadinho, o que se passa, ainda anda sózinho aos caídos?

Comentário de Victor
Data: 25 Março 2008, 18:29

Nao ha paredao suficiente para tanto fascista

Comentário de tina
Data: 25 Março 2008, 21:09

Bem resumido pelo Luís:

“A esquerda “moderna” viu-se assim obrigada a adoptar outras causas. Claro que o substracto é o mesmo, mas as montras são outras: o progresso científico foi para as urtigas - hoje, o progresso é inimigo do homem, e já não a salvação; a justiça social foi substituída pelo relativismo - é a única forma de se defender os palestinianos corruptos, anti-democráticos, machistas, anti-gay, contra os israelitas - e o internacionalismo foi substituído pelo direito à auto-determinação. Uma ideologia que assentava em raciocínios falaciosos, em práticas ditatoriais e que levou aquilo que se viu (ou vê, em Cuba, na Coreia do Norte) está hoje condenada a defender Sadams e Ahmadinejads e a lutar contra a “globalização”, contra os transgénicos e contra os Estados Unidos, que representam o mal absoluto. “

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 25 Março 2008, 22:46

o que eu me parto a rir com estes resumos.

Comentário de Sergio
Data: 25 Março 2008, 23:08

Oh, Tina. Olhe que ouvi (na rádio) do Cohen um chorrilho de tolices sobre o que sobrou da esquerda. Aquilo é uma calamidade mental e uma salada de fruta e de alface. Não o queira tomar como autoridade…

Comentário de Maria Joäo Pires
Data: 25 Março 2008, 23:11

Jà somos duas.Näo sò com os resumos mas tb.com as generalizaÇöes e uniformizaÇöes delirantes..ver-se a esquerda (essa coisa täääo una e coesa) como uma matilha de clones do “casseur de macdo” entra na categoria de grande trip de um qqr alucinògeneo potente.

Comentário de Paulo Pinto
Data: 25 Março 2008, 23:27

Já aprendi a lição do dia: sou desonesto, sou típico, sou de esquerda e tenho todos os tiques. Obrigado, Tina. Ou deveria chamá-la de Barrela?

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