Capacidades desperdiçadas

Se falarmos com um jovem enfermeiro, ele (ou ela) é bem capaz de nos dizer o seguinte: há cinco anos, ao sair do curso, podíamos escolher o hospital em que queríamos trabalhar, o serviço e até a equipa desejada. E agora, segundo os dados mais recentes, Enfermagem é (tal como Psicologia) um dos dois cursos com mais diplomados no desemprego. E garanto que se for a um hospital não vai achar que há enfermeiros a mais.

O senso-comum sobre estas coisas diz-nos que a Universidade não prepara as pessoas para o mercado de trabalho e que não investe nos cursos que os empregadores desejam. O senso-comum está errado.
É um erro prático, como nos sugere o caso da Enfermagem. Um curso demora anos a fazer e redireccionar a universidade para os cursos que o mercado deseja demora mais ainda. E nem sempre compensa, porque o mercado entretanto já mudou de ideias.

Mas é um erro também de princípio. O senso-comum culpa a Universidade por “deitar cá para fora” gente dos cursos que o mercado “não quer”. E culpa a Universidade porque acha que não pode culpar o mercado — assim lho disseram esta espécie de sofistas modernos que se dedicam a explicar quais são os desejos do mercado, e depois a falhar previsões sobre quais são os desejos do mercado, e finalmente a dizer-nos como todos os que não acreditaram nessas previsões erradas é que estavam errados.

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E se, por uma vez na vida, pudéssemos culpar o mercado? Veríamos que os sessenta mil diplomados no desemprego não são excesso nem desperdício, a não ser no sentido em que estão a ser desperdiçados. O mesmo vale para as dezenas de milhares de diplomados que estão no subemprego desqualificado. Alguém não está a aproveitar esta gente: os empregadores, e a sociedade no seu conjunto.

A experiência universitária não traz só o conhecimento específico do curso escolhido, e isso é algo que os bons empregadores reconhecem. Num artigo da Chronicle of Higher Education um “caçador de cabeças” explicava como não lhe interessava saber se a pessoa que procurava vinha de Gestão, Filosofia ou Física, mas antes saber se ela tinha adquirido as capacidades de raciocínio, disciplina mental, criatividade ou autonomia pretendidas. A conclusão de uma licenciatura ou, melhor ainda, de um mestrado ou doutoramento em qualquer área (e sublinhe-se este “em qualquer área”) era um indício forte dessas capacidades. Para muitos trabalhos, a informação pragmática a dominar acaba por ser dada in loco e de forma relativamente rápida — mas as capacidades que já se trazem é que são inestimáveis.

Lembrei-me disto há exactamente uma semana, ao participar num debate organizado na Faculdade de Letras pelos “Precários Inflexíveis”, um dos grupos que tem vindo a surgir para reagir contra o sub-emprego (outro é o FERVE — Fartos d’Estes Recibos Verdes). Os futuros diplomados estavam ansiosos. Um dos sofistas do mercado dir-lhes-ia, é claro, que a culpa é deles por terem “investido” no curso errado e também da Universidade deles por não ter extinguido o curso que provavelmente mais os motivou. Nunca lhe passaria pela cabeça que a culpa pode ser de quem não “investe” neste recursos humanos disponíveis ou acha que aproveitar um licenciado ou mestre é pô-lo a atender telefonemas.

O senso-comum tem sido duro com as universidades e mole com o mercado de trabalho. E assim revela não compreender uma coisa nem a outra.

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Segunda | Rui Tavares
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