Apologia ao terrorismo

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Banksy

Sem rede. Todas as hipóteses foram ontem. Se cairmos não nos levantamos mais. Nunca como agora, se cheira o medo e nos sentimos a viver exactamente sem rede. Acomoda-te senão lixas-te. Faz o favor de não dar nas vistas. Olha para o lado. Vê. Há tantos sem emprego. Tropeças na rua em alguém que chora. Diz-te que não lhe apetece continuar a acordar. Não lhe olhes nos olhos, talvez isso se pegue. Cala-te. Não te indignes. Antes cair em graça do que ser engraçado. Lês a história de uma caixa do supermercado licenciada que ouve uma cliente a dizer para a filha: “tens que estudar, para não acabar como esta senhora”. Acabar. As notícias garantem-nos que há sítios piores. Pois, deve haver, mas a minha vida só vai piorar. Restam-me as prestações. O petróleo vai atingir os 175 dólares o barril, prevêem. Fixe. Os gajos todos que se fodam.
O ministro das polícias pretende inventar o crime de “apologia ao terrorismo”. Para quando o crime de propagandear o desespero. Queima. Sinceramente, a violência está a tornar-se simpática. Morder em vez de apanhar sem responder. Tropeço num texto em que se faz o elogio a um terrorista morto (colocava bombas em comboios nazis): “um matemático carregado de explosivos, um lúcido e temerário, um resoluto sem optimismo. Se isso não é um herói, o que é que é um herói?”. Bum! Bonito. Como são lindos os sonhos pequeno-burgueses. Vou ver o Fight Club e jogar no euromilhões.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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12 respostas a Apologia ao terrorismo

  1. xatoo diz:

    bom, se pretende proibir o crime de “apologia ao terrorismo” daí não vem mal ao mundo, o pior é se criminaliza a “apologia do terrorismo”. A mão invisivel da gaffe corrigiu automaticamente a delirante vontade do ministro.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Mais uma vitória de Adam Smith

  3. Junu diz:

    Excelente texto. Forte e incisivo. A escolha de períodos curtos foi determinante para marcar o ritmo. Cada um deles como um murro no estômago.

  4. ezequiel diz:

    incisivo, neoreal, do melhor, sem dúvida.
    um retrato muito fiel da “sensibilidade” actual
    cumps
    🙂

  5. xatoo diz:

    E, cercando-nos por outro lado eis que temos mais as declarações de um alto responsável da caserna que “defendeu hoje uma clarificação da intervenção das Forças Armadas no âmbito da Segurança Interna”
    a posta do “factor a ponderar” está aqui:
    http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Politica/Interior.aspx?content_id=85481
    O excelentissimo director do Gabinete Coordenador de Segurança contra Terroristas e Afins não andará muito longe do sonho, se sonhou que um dia destes sempre podemos reinventar o conceito de “Exército do Povo”

  6. xatoo diz:

    ps: e acabar de vez com o terrorismo de Estado

  7. The Studio diz:

    Genial, sim senhor. Um poema assim nem o Manuel Alegre.

  8. estando diz:

    E estando o Estado destes gulosos e ladrões a foder-nos quem é que defende o Povo?

  9. joséjosé diz:

    Ler até ficar sem respiração… Obrigado Nuno.

  10. João diz:

    Brilhante Nuno.
    Obrigado pela crueza da tua poesia.

  11. João José Fernandes Simões diz:

    Ainda não tinha lido isto.
    E achei cruel, parabéns.

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