Buracos no céu

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Num comentário agora perdido nas catacumbas do 5 dias, o nosso cientista residente, o Filipe Moura, escreveu que «a matemática é que tem que encontrar maneira de descrever os fenómenos, mesmo aqueles que aparentemente não “façam sentido” ao nosso senso comum».
Ora parece-me que o Filipe, talvez por excessiva modéstia, foi algo injusto para com a sua ciência. A Física nem sempre anda a reboque das observações, feita guia turístico atrasado, correndo sempre atrás dos fenómeno detectados. Tomemos como exemplo o tema já então glosado, os buracos negros. Em 1783, quase dois séculos antes de Cygnus X-1 cair nos anais como o primeiro desses interessantes objectos a ser lobrigado (não resisto, Filipe) algures nos nossos céus, já o geólogo/ filósofo/ naturalista John Michells lançava a hipótese das “estrelas escuras”; corpos celestes dotados de uma gravidade tão intensa que nem a luz dela poderia escapar. Este conceito foi depois (embora brevemente) adoptado por Laplace.

Apoiando-se no trabalho de Einstein, Karl Schwarzchild sugeriu a existência de “singularidades”; pontos sem volume e de densidade infinita. Alguns anos depois, Subrahmanyan Chandrasekha fez as contas e teorizou a massa que uma estrela moribunda deveria ter para conseguir prender a luz emitida numa armadilha gravitacional. O nome definitivo (?) para estes corpos estelares foi inventado em 69 por John Wheeler. E ainda tivemos de esperar um pouco até ver surgir o consenso em torno de Cygnus X-1: aquilo é mesmo um buraco negro.
Não têm fim as ocasiões em que a prática surgiu às apalpadelas bem após o triunfo dos princípios teóricos: a holografia foi inventada antes de o laser a ter tornado possível, este só surgiu dois anos depois de Townes e Schawlow o terem previsto, etc., etc.

Agora, extrapolemos. Será que as soluções para os enigmas fulcrais da existência já andam por aí, aguardando apenas a eclosão da tecnologia capaz de as validar? E se afinal Hawking for mesmo muito “melhor” do que Heidegger a falar-nos do tempo?
Todas as boas questões são colocadas por filósofos; mas sempre me pareceu que as grandes respostas acabarão por ser escritas no quadro negro de um cientista.

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10 respostas a Buracos no céu

  1. dlm diz:

    mas ele nao foi injusto, a ciecnia sem os misterios ou a observaçao dificilmente daria saltos teoricos, por exemplo a cavidade negra do seculo xix.

    e esta, a ciencia, pode muito bem desafiar o senso comum, ou a observaçao, por exemplo as transformaçoees de lorenz ou de galileu com que einstein literalmente brincou

  2. dlm diz:

    a cavidade negra é mais conhecida por corpo negro se procuram informaçoes no google

  3. a grande lição filosófica da ciência contemporânea consiste, precisamente, em nos ter mostrado que as perguntas que a filosofia deixou de fazer a si própria desde há séculos – as perguntas sobre a origem e o fim – são as perguntas que realmente contam.

  4. Eu a discutir questões interessantes como a liberdade com o Rui Tavares, e tu vens aqui falar de física. Enfim…
    Já tinha ouvido falar em “buracos negros newtonianos” (do Michells), mas nunca li o artigo e nem sei como tal funcionaria. Os buracos negros surgem quando a velocidade de escape (vê o teu link da wikipedia) se torna superior à da luz, algo proibido pela teoria da relatividade. Ou seja, é um fenómeno intrinsecamente relativista, a meu ver. Precisava de saber mais de história da física para saber como funcionaria o caso do Michells. Mas creio que só tem mesmo interesse histórico.
    Quanto aos outros exemplos que propões, é claro que a teoria anda muitas vezes (eu diria – hoje em dia a maior parte das vezes) à frente da experiência: lembremo-nos da massa dos neutrinos: http://bde.weblog.com.pt/arquivo/010591.html
    Para não falar das supercordas, que não sei quando serão testadas. Agora, até um ultrateórico como eu tem que admitir que é a experiência que decide.
    Quanto às perguntas e respostas, de acordo em parte. Nenhum filósofo “previu” a mecânica quântica (aqui, foi a experiência a falar). Mas, sim, os filósofos fazem excelentes perguntas.

  5. “Os buracos negros surgem quando a velocidade de escape (vê o teu link da wikipedia) se torna superior à da luz, algo proibido pela teoria da relatividade…”

    Esqueci-me de referir: mas permitido pela mecânica newtoniana.

  6. maradona diz:

    Se vamos a classificar John Michell com base nas divisões actuais da ciência, então ele era um sismólogo (um sismólogo que não era geólogo, o que ainda é mais interessante… enfim, depois explico). Também era saudavelmente maluco. Mas eu estou aqui só para fazer notar esse outro grande John Michell, o autor de, e passo a citar, “twelve books” e especialista em “sacred geometry and the geometry of reconciliation.” Tudo aqui:

    http://www.thehope.org/jmichell.htm

  7. Nuno Cruz diz:

    Concordo com o Luis Rainha e com o Joao Monge. A verdade é que o territorio da filosofia se reduz ao mesmo tempo que o da ciência dilata.

  8. M. Abrantes diz:

    A filosofia não inventa foguetões. É mais poderosa:faz os homens colocarem-se perguntas cujas respostas lhe exigem que vá à Lua.

  9. Lorentz, para o lmd…

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