Olavo e a batalha naval (com alterações)
17 Março 2008 | por João GalambaA entrevista do filósofo Olavo de Carvalho, publicada na Revista Atlântico, é muito interessante. Mas é interessante sobretudo por aquilo que o autor não diz, ou se “esquece” de dizer. Entre outras coisas, Olavo de Carvalho fala de estruturas objectivas e permanentes que caracterizam um dualismo politico com proporções quase apocalípticas entre a Esquerda e a Direita:
Se eu conseguisse descobrir essas duas estruturas permanentes, a direita e a esquerda estariam delineadas por diferenças objectivas muito além do horizonte de consciência dos indivíduos e organizações que personificavam essas correntes.
Captar e descrever a unidade do movimento revolucionário é desenhar claramente, perante os olhos dos homens “de direita”, a verdadeira natureza do seu inimigo permanente
Para além do elemento religioso-abolutista da coisa, as semelhanças com um famoso filósofo alemão de barbas, parecem-me evidentes. Adiante. Diagnosticada a inevitabilidade do conflito, Olavo de Carvalho dedica-se à caracterização “objectiva” do inimigo: a Esquerda tem um entendimento muito particular do tempo:
Descobri várias dessas diferenças. A principal é a diferença na percepção do tempo histórico. A esquerda – toda a esquerda, sem excepção – enxerga o tempo histórico às avessas: supõe um futuro hipotético e o toma como premissa fundante da compreensão do passado. Em seguida, usa essa inversão como princípio legitimador das suas acções no presente
E é a partir daqui que a sua objectividade desaparece; e desaparece porque Olavo abandona a perspectiva quase divina que anunciara no ínício, para passar a falar como representante de uma posição política particular. O problema é que a Esquerda a quem Olavo atribui um elemento necessariamente revolucionário não passa de um artificialismo exigido pela sua própria posição—sem esse elemento a sua dicotomia esquerda-direita perde qualquer conteúdo.
Olavo acusa a Esquerda de “projectar e viver num futuro hipotético”, mas tenta evitar o extremo oposto do reaccionarismo, que, idealizando o passado, acaba por incorrer num pecado semelhante. É na sua defesa de uma direita supostamente legítima que Olavo revela toda a sua parcialidade, pois refere-se à esquerda como vivendo num “tempo às avessas”. Ora isto pressupõe um tempo verdadeiro—o da sua direita, claro. Segundo Olavo a única alternativa aceitável é uma certa ideia de democracia, que ele diz ser essencialmente conservadora. E é conservadora porque não é revolucionária: o tempo da vida democrática involve uma espécie de síntese contínua e criativa entre o passado presente e o futuro. Mas ao defender esta posição ele compromete o dualismo político sem o qual uma noção de direita não tem significado positivo. Se a esquerda é revolucionária, (por definição de esquerda, diga-se) a direita só pode ser reaccionária. Nestas dicotomias estritas não há compromisso. No final, o filósofo brasileiro revela pouco mais do a inevitabilidade do conflito, uma espécie de lógica amigo-inimigo que não andará assim tão longe do pensamento de Carl Schmitt. Para evitar tudo isto, bastava ter-se lembrado de uma coisa muito simples: nem toda a Esquerda é revolucionária. Perdia-se certamente em carga dramática, mas ganhava-se em rigor.

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