In memoriam de António Nobre

No seu post “O aumento das pessoas não saberem”, a Fernanda Câncio suscita, a propósito de uma entrevista de Jerónimo de Sousa na SIC Notícias, e do uso que nela é feita da expressão “hádem” (em lugar de “hão-de”), a estimulante questão do valor do erro de português e da sua função e sentido estilístico – questão que, como é sabido, é um locus criminis incontornável da literatura nacional desde o dia em que, no Quartier Latin, António Nobre chamou Georges a ver o seu país de marinheiros, e mais a lancha poveira que ia “linda com o seu erro de ortografia”.

Eu tomo como certo que a referência que a Fernanda faz ao “hádem” não tem um valor político, no sentido de pretender diminuir o seu autor ou as ideias que ele expressa pelo facto de conjugar mal o verbo haver, isto porque Jerónimo de Sousa fala, senão como a maioria, pelo menos como muitos portugueses, e seguramente que a Fernanda não pretende desvalorizar as opiniões dos seus compatriotas que utilizam menos bem o idioma. É uma pena que tantos portugueses falem assim; pela minha parte, e porque tive a sorte de ter tido pais letrados, esforço-me por falar e escrever sem erros e transmito essa preocupação aos meus filhos; mas sei que nem todos tiveram a sorte que eu tive, e por isso não retiro do meu melhor português nenhum sentimento de superioridade social. Na I República, o jacobinismo retirou às massas trabalhadoras iletradas o direito ao voto e considerava-as apenas aptas a serem dirigidas pelos caciques do P.R.P., mas esse tempo já passou, felizmente, e eu não quero crer que a Fernanda pretenda voltar para trás.

Não tendo portanto valor político (e eu espero que a Fernanda não entenda este uso do “portanto” como “um tique”), e admitindo também que não está ali por acaso (em obediência ao clássico princípio da intencionalidade), o “hádem” de Jerónimo terá então no post de Fernanda um valor literário, estilístico, caracterizador do personagem – um pouco como as minúsculas que a própria Fernanda usa, como marca pessoal, ou como os “ésses” que por vezes coloca no final de formas verbais que os não têm (ex.: “tu escrevesteS muita bem, pá”), para aproximar a sua escrita da linguagem oral. A diferença, no entanto, está em que as minúsculas da Fernanda têm pedigree (louvam-se, como ela já aqui explicou, em E. E. Cummings) e os seus “ésses” também não aparecem sem querer, ao contrário do “hádem” de Jerónimo.

Assim sendo, o dito “hádem” deve ser classificado na categoria dos traços involuntários da personalidade, das forças da sua natureza incontida, entre aquilo que malgré lui o Secretário-Geral do P.C.P. revela do seu ser profundo – e que a Fernanda, na sua subjectividade de autora, acha relevante para o caracterizar. As figuras políticas prestam-se a estas escolhas e devem saber aceitá-las; aliás, todos deviamos saber aceitá-las, e saber ser julgados – não pelo preconceito social mesquinho, que eu sei que a Fernanda nunca terá por quem possui apenas a instrução primária – mas por um certo estilo que, subjectivamente, pode marcar. Pela parte que me toca, com “hádem” ou sem “hádem”, acho insuportável um certo bem-falar de plástico, um certo vazio de valores sociais profundos, um certo estilo parvenu, superficial e inculto, que marcam outras figuras da política portuguesa; mas estamos no domínio da subjectividade pura, os gostos não se discutem, as palavras são como as cerejas, e hádem ser sempre assim.

PS Sobre a questão do Santos Silva, que me parece que já deu o que tinha a dar, subscrevo o post do Nuno sobre o assunto, mas com uma diferença de tomo – é que não tenho cinco-familiares-cinco entre os fundadores do PS (horror!)

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SEXTA | António Figueira
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