Contentes, agora?

10.03.2008, Rui Tavares

Quem crucifica os ministros da Educação? Nós, do taxista ao Presidente. Entregámos à actual ministra um claríssimo caderno de encargos: afronte os professores. Caso contrário, não vale a pena. Ela engoliu o isco, o anzol e a linha, chegando a declarar que cumprira a missão: “Perdi os professores, mas ganhei a opinião pública.”

Agora precisa dos professores, mas ainda lhe resta alguma opinião pública. Vejamos exemplos. Emídio Rangel: “Tenho vergonha destes pseudoprofessores que trabalham pouco, ensinam menos, não aceitam avaliações e transformaram-se em soldados do Partido Comunista.” Pedro Norton: “O eduquês é uma tralha ideológica mais pestilenta que os estábulos de Augeias.” Henrique Raposo: “Os alunos acabam o secundário sem saber escrever” (cinco linhas abaixo, já é o ensino superior e não o secundário). Miguel Sousa Tavares: “A queda de Maria de Lurdes Rodrigues teria o efeito de um toque a finados por qualquer futura tentativa de reformar o Estado e mudar o país.” Tudo muito enfático. Mas pouco prático.

Durante anos, o discurso catastrofista sobre a educação e o ensino público foi variando os alvos: a culpa era dos professores, dos sindicalistas, dos burocratas, do ministério. Às vezes eram todos o mesmo, outras vezes uns vítimas e outros carrascos. Esperem: afinal, a culpa é do eduquês, que ninguém sabe se é uma ideologia ou um mero exemplo de linguagem burocrática, tão perniciosa ou inócua como qualquer outra linguagem burocrática. Quando não sobra mais nada, a culpa é da falta de autoridade, essa particular obsessão de gente insegura. E agora Vasco Pulido Valente diz-nos que os professores não precisam de avaliação, mas de “um ethos de excelência”. Como é que ninguém se lembrou desta? Se conseguirmos que os professores respirem excelência como quem respira oxigénio, temos o problema resolvido.

Vivemos estes anos sob a retórica das “reformas impopulares”. Precisamos de reformas impopulares! Se não forem impopulares, não são reformas! E reformas impopulares, claro está, só se conseguem com maioria absoluta. Ninguém quis ver o lado perverso desta lógica: com maioria absoluta não é preciso que as reformas sejam boas, basta dizer que elas são impopulares e que quem se lhes opõe é contra as reformas.
Funciona, pelo menos no início. E quando precisamos da colaboração dos seres humanos lá em baixo? O problema é mesmo esse: as reformas fazem-se com as pessoas que temos, não com as que fabricamos. Insistir numa reforma apenas porque é “impopular” é uma desculpa fácil. Difícil é fazer uma reforma compreensível e motivadora para quem vai ter de participar nela. Mas às vezes é possível, e nesses casos é essencial.

Um discurso que nos diz que todo o ensino público está mal não é nem nunca será reformista. O verdadeiro reformismo é realista: quer concentrar as suas forças no que está mal e não disparar em todas as direcções. E no ideal, o reformismo é progressista: só funciona quando dá às pessoas um horizonte de expectativas atingível e honesto. Quem quer um governo reformista não pode consegui-lo aliando-se à opinião mais pessimista e destrutiva, ainda que tacticamente. Se o fizer, começa com demonstrações de autoridade vácuas e acaba batendo com a cabeça no muro. Que isto sirva de lição ao PS.

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11 respostas a Contentes, agora?

  1. ruibarbo diz:

    o raciocínio do Rui aplica-se mutatis mutandis à manifestação dos professores: quem nos diz que tudo aquilo que o governo quer em matéria de reforma da educação está mal, está a disparar em todas as direcções. Supõe-se portanto que é “uma demonstração de autoridade vácua” por parte dos professores.
    Enquanto eu não vir explicado por a + b o que querem os professores e por que não concordam com a reforma, esta diatribe não passa de sound bites lançados sobre o “mal” e o “pior” em que este sistema de ensino caiu, está a cair, vai cair.

  2. jaime roriz diz:

    Andei vinte anos na escola e devo ter tido mais de uma centena de professores. Desses, 90 seguramente, deveriam ser proíbidos de se darem com pessoas quanto mais dar aulas. São arrogantes, mal criados, prepotentes, não sabem ensinar, não se relacionam com os alunos, são exigentes com todos menos com eles próprios, criticam sempre os alunos e o estado.
    Nunca na história de portugal houve um ministro da educação que não tivesse sido fortemente contestado. Creio que faz parte da nossa cultura criticar os ministros da educação. “O Cardia tem que arder” e “o boi Couto” são mimos com que presenteámos os nossos ME’s. É certo que esta ministra tem um ar extremamente desagradável. O raio da mulher faz desanimar qualquer um. Tem um péssimo aspecto e creio que qualquer um poderia alegar legítima defesa ao insultá-la. Só o aspecto e os maneirismos da mulher são uma injúria. Acho que se merecem …. ela e os professores.

  3. M. Abrantes diz:

    O seu texto tem muita da razoabilidade que parece faltar aos nossos governantes. Algumas opiniões vindas de pessoas que não valorizam o protesto dos professores, revelam dois traços comuns:

    1. Um complexo não resolvido relativamente aos professores. Os professores são, eventualmente, o primeiro exemplo de autoridade formal com que temos que lidar na nossa vida. Quando chegamos á escola eles são pessoas maiores do que nós, pessoas que nos repreendem e pessoas que nos acabam com o recreio. Há quem não consiga crescer para lá desta imagem e vá sempre sentir um especial apreço por todo o tipo de contexto que diminua os professores. Uma espécie de “toma lá também tau-tau” rectroactivo.

    2. Uma visão pueril do trabalho do professor. Enquanto alunos, o trabalho do professor parece-nos banal. É chegar á sala, falar, escrever umas coisas no quadro, e já está. Não acartam pedra, nem nada que se pareça, e têm férias no Natal e na Páscoa enquanto os nossos pais andam a trabalhar. É claro que depois alguns de nós crescemos. Conhecemos pessoas que dão aulas e sabemos o trabalho que têm. Podemos até nós próprios dar aulas, e constatar que se pode passar um ano inteiro sem um único fim de semana livre, e viver situações de stress bastante pesadas. Outros, pelo contrário, parecem manter a visão que tinham enquanto meninos. Sem dramas, pois isso não os impede de serem fazedores de opinião influentes, directores de canais de tv, ou até de chegar ao governo.

    O que neste momento parece enfurecer uma boa parte dos que acham que as estratégias relativas ao ensino podem ser traçadas para além dos professores,é um factor absolutamente novo. E é o seguinte. A classe docente foi sempre uma classe de obedientes. Nunca teve nenhum poder, limitando-se a comer e a calar tudo o que foi imposto pelos governos, antes e depois do 25 de Abril. A classe docente foi sempre um paradigma de classe desunida e sem força. Ora não é que estes professorzecos resolvem agora bater o pé? Como se atrevem?

    O que sobra disto tudo? Eu digo-lhe o que sobra: sobra uma máquina chamada ensino, que toda a gente sabe que tem baixo rendimento (os professores são os primeiros a dizê-lo), e que algumas pessoas acham que pode ser consertada sem passar cavaco aos mecânicos.

  4. Caro Ruibarbo:
    Já que você quer que lhe expliquem por a+b, eu explico-lhe pior a+b.

    Os professores querem essencialmente três coisas, e acessoriamente muitas mais, das quais não cabem aqui mais do que alguns exemplos.

    As três coisas fundamentais são:

    1. Fim da burocracia bizantina que desvia os professores da sua função principal, que é ensinar.

    2. Fim do delírio pedagógico, ou seja: fim da possibilidade das chamadas «Ciências Pedagógicas» se imporem às escolas por via administrativa (só deverão poder impor-se por via da sua autoridade intelectual e académica).

    3. Fim do incivismo endémico que permite a alguns alunos boicotar a aprendizagem dos outros.

    Estas três exigências pretendem corrigir os três vícios essenciais do sistema educativo português, vícios estes que se reforçam mutuamente e dos quais decorrem todos os outros, que são centenas.

    Acessoriamente os professores exigem (por exemplo):

    1. Criação da disciplina de Desporto, em que todos os alunos pratiquem uma modalidade colectiva de modo a criar espírito de corpo nas escolas.

    2. Ensino da Música, que é a melhor propedêutica que se conhece para a Matemática.

    3. Recuperação do Latim, do Grego, da Filosofia e das Humanidades em geral.

    4. Responsabilização efectiva das famílias: há países onde as faltas repetidas dos alunos, ou o seu comportamento disruptivo na escola, podem implicar multas (ou mesmo, no casos mais graves, prisão) para os pais.

    5. Liberdade de escolha para todos: dos pais para seleccionar a escola, da escola para seleccionar os alunos. Possibilidade de as escolas instituirem, se assim o entenderem, exames de entrada em cada ciclo.

    6. Criação, em paralelo, de escolas de vocação sobretudo prática e de escolas de vocação sobretudo académica; mobilidade horizontal dos alunos entre umas e outras.

    7. Simplificação drástica do sistema de avaliação imposto pelo Ministério; abolição de critérios não mensuráveis, «politicamente correctos» ou indefiníveis, como «ligação à comunidade».

    8. Criação a nível nacional dum sistema paralelo de avaliação dos professores, que será accionado a pedido destes, consistirá em provas públicas, fará média com a avaliação referida no número anterior, média esta que determinará a maior ou menor rapidez da progressão na carreira.

    9. Possibilidade de todos os professores progredirem na carreira. O acesso aos escalões mais elevados não deve estar garantido, mas a oportunidade sim.

    10. etc., etc., etc.

  5. Posto isto, devo dizer que começa a ser tempo de os professores se concentrarem um pouco mais no que querem e um pouco menos no que não querem.

  6. ruibarbo diz:

    ok, José Luiz Sarmento: prezo o seu esclarecimento. mas o que ainda não entendi é onde é que esta reforma colide com os pontos elencados, onde é que ela os fomenta, implementa, permite e onde é que ela se torna a visão nos antípodas que os professores apregoam ser em relação às suas exigências.
    isso continuo a não ver explicado.
    Porque desejar ter um sistema educativo como o da Suécia, todos podem fazê-lo. resta saber onde traçar a linha entre o possível e o simplesmente desejável.

    já agora, noto que nas suas sugestões não surgem coisas simples como ensino intensivo do inglês (o nível do inglês aprendido nas nossas escolas é vergonhoso comparado com a maioria dos países europeus. e, sim, utilização de novas tecnologias. o problema é que muitas vezes são os próprios professores que não estão para fazer uns powerpoints…

    dito isto chamo a atenção que um sistema bipartido entre escola vocacional técnica e académica gera as maiores injustiças e desigualdades que se reproduzem posteriormente nas diversas esferas sociais. vejam-se os casos da Alemanha e da Áustria. Por lá anda a discutir-se a possibilidade de acabar com este sistema.
    ainda bem que a retórica emancipatória dos profs resolveu redescobri-lo. pois é: é sempre mais complicado do que parece.

  7. Caro ruibarbo:

    Pergunta-me você em que é que as reformas impulsionadas pela actual ministra da educação colidem com os pontos que elenquei ou, pelo contrário os implementa ou permite.

    Para lhe responder começo por recapitular. As «reformas» consistem até agora, basicamente, em quatro diplomas: o Estatuto da Carreira Docente, o diploma sobre a Avaliação do Desempenho dos Professores, o diploma sobre a Gestão Escolar e o diploma (actualmente suspenso) sobre o Estatuto do Aluno.

    Quem ler estes diplomas verificará: nenhum deles contribui para desburocratizar o sistema, antes o burocratizam ainda mais, especialmente o segundo; todos estão escritos naquele horrível jargão a que se pôs o nome de «eduquês», que mais não é do que a tentativa de fazer passar, mercê duma linguagem obscura, uma política e uma ideologia educativas que a sociedade maioritariamente rejeitaria se lhe fossem apresentadas em linguagem clara; e que, à medida que responsabilizam cada vez mais os professores, desresponsabilizam cada vez mais os pais e os alunos, dando assim azo ao agravamento do incivismo de que falei.

    Temos assim que, dos três vícios centrais do sistema, Maria de Lurdes Rodrigues não só não reforma no sentido de os corrigir, como «reforma» no sentido de os agravar. Não corrige, antes agrava, a burocracia bizantina e gigantesca do Ministério porque se o fizesse iria mexer com muita gente poderosa. Não corrige, antes agrava, o delírio pedagógico, porque se agisse contra ele estaria a comprometer o seu próprio habitat natural. E não corrige, antes agrava, o incivismo, porque para corrigir este vício teria que corrigir os outros dois.

    O resto, por importante que seja, é acessório. Estou de acordo consigo quanto ao Inglês, mas talvez esta língua se aprendesse melhor no contexto duma maior atenção dada às Humanidades.

  8. CARLOS CLARA diz:

    Que duelo tão desajustado.
    A máquina burocrática, que sou sempre contra, já nem sei… Alguém sabia o que se passava nas escolas? Duvido. Os professores sabiam, sobretudo sobre regalias. Sobre o resto, não sei. Mas com tanta preocupação sobre os alunos, porque não fizeram mega-manifestações antes? Tinha-lhes ficado bem. Suponho eu que amor ao ensino, à Pátria e sobretudo ao desenvolvimento intelectual dos alunos, tão veemente inflamado não pode ser apenas de hoje, penso eu. Depois, quanto à dignidade, até quando uma pessoa se insurge, se pode analisar se ela existe ou não: torna-se desnecessário proclama-la.

  9. Carlos Clara:
    Porque é que não fizemos mega-manifestações antes? Porque as coisas são mesmo assim: o dique vai enchendo, vai enchendo, e só com a última gota é que rebenta.

  10. O José Luiz, e eu que até estava a gostar de ler os seus comentários, e vai agora, sai-se com esta. A sério acredita nisso?

  11. Isabel:
    Acredito que os professores aguentaram muitas coisas em silêncio até não aguentarem mais.

    Por outro lado, também sei e posso testemunhar que se insurgiram contra muitas coisas sobre as quais são agora acusados de não se terem feito ouvir; mas disto haveria que pedir contas, não aos professores, mas aos media…

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