Pesquisa

Sim, e agora?

10 Março 2008 | por João Pinto e Castro

Rui Tavares mistura várias coisas no mesmo saco no seu artigo de hoje no Público, entre elas: a) A avaliação dos méritos genéricos da escola pública; b) A avaliação da pedagogia dominante no nosso ensino; c) A avaliação do modelo de gestão escolar hoje vigente.

No fim, acusa a Ministra e o Governo de terem baralhado tudo: “Um discurso que nos diz que todo o ensino público está mal não é nem nunca será reformista.” Peço desculpa, mas a confusão é dele.

Deixo, porém, à Ministra o encargo de se defender a si mesma, e passo a explicar a minha opinião sobre o tema. Sinteticamente, porque tem que ser:

1. Avalio muito positivamente o desempenho global do ensino público após o 25 de Abril de 1974. Transformou o analfabetismo num fenómeno residual. Alargou drasticamente os anos de ensino obrigatório. Chegou a todo o país. Permitiu a milhões de jovens concluírem os seus estudos secundários e abriu as portas da universidade a centenas de milhares deles.

2. Repudio a retórica sobre o eduquês como uma catilinária reaccionária e ignorante que pretende fazer-nos recuar aos tempos anteriores a Coménio (o fundador da pedagogia moderna que os pobres críticos confundem com Rousseau).

3. Acredito que a escola pública tem condições para superar a sua actual crise de forma a continuar a assegurar a educação universal e gratuita primária e secundária a todos os que a ela queiram recorre.

4. Não tenho o menor desejo de polemizar sobre se as coisas teriam sido melhores ou piores se outro caminho tivesse sido seguido. Fizemos o que fizemos, e fizemo-lo genericamente bem.

5. Interessa-me exclusivamente discutir os problemas da escola pública de hoje e encontrar para eles as melhores soluções.

6. Não acredito que haja respostas definitivas para os problemas, válidas independentemente das épocas e das circunstâncias. Julgo, por isso, que certos arranjos que provaram ser adequados ou ao menos neutros no passado se encontram hoje obsoletos.

7. Tal como vejo as coisas, a escola pública tem hoje dois grandes desafios pela frente: a) o desafio da adaptação do conteúdo do ensino às necessidades da sociedade contemporânea; b) o desafio da gestão criteriosa dos recursos ao seu dispor.

8. O primeiro desafio é o mais difícil e exigente. Não falarei dele agora, excepto para dizer que as potencialidades da escola pública a esse nível só poderão ser libertadas se se resolver primeiro o segundo, dado que, sem isso, não teremos recursos para o fazer.

9. A escola pública é hoje um local de esbanjamento das capacidades dos professores e dos alunos. O sistema por ele responsável existe há muito tempo, mas só na última década se converteu num travão essencial ao progresso.

10. As escolas públicas têm sido geridas, perante a complacência do governo central, por uma aliança perversa entre a máquina burocrática da 5 de Outubro e os sindicatos dos professores.

11. Como tem sido observado por múltiplos comentadores, os professores presentemente não são avaliados nem prestam contas a ninguém. Esta situação insólita, sem par, ao que julgo, em qualquer país desenvolvido, tem que terminar. Este é que é o problema.

12. Tal como a pressão sobre o Ministério da Saúde atingiu o seu clímax quando se encontrava prestes a entrar em vigor o controlo dos horários dos médicos e a abertura de farmácias nos hospitais, os professores mobilizaram-se em massa para bloquearem o Ministério da Educação quando se aproxima o momento decisivo em que eles começarão a ser avaliados e em que entrará em vigor o novo regime de gestão das escolas.

13. Nestas condições, é ingénua a reivindicação do diálogo da Ministra com os professores, quando é claro que os sindicatos recusam qualquer forma de avaliação e temem perder o controlo sobre as gestão das escolas. Alguma vez propuseram outra coisa que não fosse a pura e simples manutenção do statu quo?

14. Soa-me estranha aos ouvidos a afirmação de que a reforma não pode ser feita contra os professores. Trata-se de uma constatação ou de uma ameaça? Porque, se, como parece, é uma ameaça, a resposta é muito simples: os professores que boicotarem a avaliação não serão promovidos e poderão eventualmente ser alvo de processos disciplinares.

15. Pretender o contrário é aceitar que a política educativa deve ser confiada ao soviete dos professores. Digo soviete para não dizer corporação, visto que esta palavra parece ferir muito certos ouvidos.

16. Sustento que a manifestação de sábado passado foi uma vitória de Pirro, pela simples razão de que nem o PCP, nem os sindicatos, nem os restantes partidos da oposição sabem o que fazer com ela? Semana de luto? Que tal semana da fome? Greve geral da função pública? E depois? É eleições antecipadas que pretendem? Para quê? Para serem derrotados nas urnas?

17. As mesmas pessoas que há semanas declaravam defunto o movimento sindical encontram-lhe agora insuspeitadas virtudes. Pois a verdade é que os sindicatos continuam, como sempre, amarrados à política suicida do PCP.

18. Já outros fizeram notar que o Governo continua a não depender de ninguém nesta matéria, desde que não se esqueça que o ensino existe para educar os alunos, não para empregar os professores, e desde que focalize as suas atenções no tema da gestão escolar, que é o nó da luta pelo poder que estamos a presenciar.

19. De modo que me parece que a pergunta do Rui - “Contentes, agora?” - deverá antes ser endereçada aos sindicatos e aos professores que com eles alinharam.

Comentários

Comentário de João Galamba
Data: 10 Março 2008, 20:29

excelente post!

Comentário de josé Manuel Faria
Data: 10 Março 2008, 20:31

“De acordo com o documento, é criado o Conselho Geral, um órgão que terá, no máximo, 20 membros, sendo constituído por professores, funcionários não docentes, encarregados de educação e representantes da autarquia e da comunidade local.

Os professores nunca poderão estar em maioria no Conselho Geral. O projecto de decreto-lei estabelece que a sua representação não poderá ser inferior a 30 por cento nem superior a 40 por cento da totalidade dos membros.

Permitir que um docente do ensino privado possa ser director de uma escola ou agrupamento público; e impor a nomeação, pelo director, de todos responsáveis pelas funções de gestão intermédia (coordenadores de departamentos, conselho de docentes, directores de turma, coordenadores de estabelecimento, etc), são objectivos centrais do projecto governamental, confirmados na conferência de imprensa realizada pelo ME.”

Quem nomeia estas 20 personalidades?

Que capacidades têm para nomear o director da escola.

Onde está o mal nas eleições para o Conselho Executivo?

Comentário de M. Abrantes
Data: 10 Março 2008, 20:59

Alguns mal entendidos seus:

1. Os professores não estão contra a avaliação. Queira ler, ver e ouvir a imprensa.

2. “Avalio muito positivamente o desempenho global do ensino público após o 25 de Abril de 1974″.

Se é isto que pensa, então revela algum descuido quando entende que o ensino pode ser reformado contra a vontade das pessoas que são, em última análise, responsáveis por este (nas suas palavras) desempenho positivo: os professores.

Mas não me espantava que fosse esse o caminho tomado. Infelizmente o que vai marcando pontos no nosso país, é uma casta de iluminados que se pronuncia e decide sobre tudo, mesmo contra as opiniões de experts e profissionais nas matérias. Não faltam exemplos no governo. Estamos no rabo da europa há décadas, mas este cabotinismo não desampara.

3.”Não tenho o menor desejo de polemizar sobre se as coisas teriam sido melhores ou piores se outro caminho tivesse sido seguido. Fizemos o que fizemos, e fizemo-lo genericamente bem.”

Em resumo, recusa qualquer tipo de análise/crítica sobre o caminho seguido. É muito curiosa esta perspectiva. Mas os professores são, em geral, pessoas que levam a sério o seu trabalho. Não se podem dar a luxo de fazer de conta que tudo está bem.

Comentário de ruibarbo
Data: 10 Março 2008, 22:16

Mas afinal, alguém me explica, como se fosse a uma criança, o que querem os professores? É que perante tantos qualificativos - isto está “muito mal”; “a situação nunca foi tão má”, etc - fico sem perceber patavina do que querem verdadeiramente os profs. O que reivindicam? Por que clamam?

Comentário de Miguel Abrantes
Data: 10 Março 2008, 22:35

Excelente análise. Peço licença para o reproduzir integralmente.

Comentário de Rouxinol
Data: 10 Março 2008, 23:06

“O que reivindicam? Por que clamam?”

Querem encontrar, cada um à sua maneira, a mais pequena discordância num extenso conjunto de reformas que, grosso modo, aumentam a sua responsabilidade e requerem maior exigência (e isso é chato..para os professores, claro). Quando encontrarem a alínea de que discordam, já sabem porque é que está tudo mal.
A Fenprof, pela sua natureza, reage por interesses. Ver aqui um exemplo disso mesmo.

Depois, atrás deles, a infantilidade de uma esquerda (e direita populista) de reflexos anti-governo, nada construtivos.

Comentário de Filipe Moura
Data: 10 Março 2008, 23:07

“As mesmas pessoas que há semanas declaravam defunto o movimento sindical encontram-lhe agora insuspeitadas virtudes.”

Essa é que é essa. E dá vontade de rir.

Comentário de Lutz
Data: 10 Março 2008, 23:52

Muito bom!

Comentário de GL
Data: 11 Março 2008, 2:17

“o ensino existe para educar os alunos, não para empregar os professores”

Essa é a frase. Está tudo dito.
Sócrates recuou muito mal na Saúde e faço votos que não recue agora.

O objectivo disto tudo é a 1 ano da eleição, liquidar qualquer hipótese de maioria absoluta, de forma a se obter a médio prazo uma redução do ciclo político. Mais uma vez ninguém pensa no país. A direita porque anseia o poder, a esquerda porque não anseia o poder e, quanto menos reformas, mais votos.

Mais uma vez fica a evidência de que é quase impossível fazer reformas em Portugal.

Comentário de armandorocheteau
Data: 11 Março 2008, 14:45

Parabéns pelo post. Reproduzo-o no 2+2=5

Comentário de Luis Rodrigues
Data: 11 Março 2008, 14:49

Excelente post. Discordando embora de um ou outro ponto, subscrevo claramente a generalidade das suas observações.
É flagrante o terror das avaliações (”à séria”) e o propósito de evitá-las - ou pelo menos de evitar que tenham consequências práticas. As comoventes manifestações de interesse na avaliação - mas “não nesta”, claro - servem apenas para esconder, e mal, essa intenção.
A propositada distorção dos pormenores (a participação dos pais, a progressão das notas, etc..) para criar ruído é demonstrativa dessa postura.
As palavras, de uma dirigente sindical que se queixava de que larga percentagem dos professores não chegaria ao topo da carreira, dizem tudo.

Comentário de José Luiz Sarmento
Data: 11 Março 2008, 14:57

ruibarbo:

Leia a minha resposta à sua pergunta no meu comentário ao post «Contentes, agora?»

Pingback de Streptococcus pyogenes : Goodnight Moon
Data: 11 Março 2008, 15:35

[...] Este post do João Pinto e Castro é [...]

Comentário de aleph
Data: 11 Março 2008, 16:15

“Avalio muito positivamente o desempenho global do ensino público após o 25 de Abril de 1974. Transformou o analfabetismo num fenómeno residual.”

Avalia muito positivamente, comparando com o quê?

Recordo-lhe que 34 anos após o 25 de Abril e 22 anos após a entrada na União Europeia, Portugal é o líder destacado na taxa de abandono escolar em toda a união europeia, com uma taxa de abandono de cerca de 40%.

Na taxa da analfabetismo, estamos ainda pior. Segundo o ultimo census, cerca de 9 % dos portugueses são analfabetos. Quase um milhão de cidadãos “residuais”, suponho… É claro que estas estatísticas melhoram com o passar dos anos. É só esperar que os analfabetos morram…

Mais: segundo as estimativas apresentadas no Human Development Report 2007/2008 da ONU, temos a maior taxa de analfabetismo de toda a União Europeia a 25, mais uma vez destacados e temos à nossa frente a bonita quantia de 63 países com melhores performances na alfabetização…

“Fizemos o que fizemos, e fizemo-lo genericamente bem.”

Imagine-se se tivéssemos feito as coisas mal…

Comentário de André Carapinha
Data: 11 Março 2008, 16:49

Lendo o post recordei-me da espantosa frase do Sócrates de há uns dias (que foi objecto de post no 2+2=5):

«Os portugueses tem de entender que a alternativa às reformas é ficar tudo como estava»

É evidente que se pode discordar do rumo de uma “reforma”, e que existem muitas alternativas a “ficar tudo como estava”. Estando de acordo com os desafios que enumera no ponto 7 («a) o desafio da adaptação do conteúdo do ensino às necessidades da sociedade contemporânea; b) o desafio da gestão criteriosa dos recursos ao seu dispor»), discordo totalmente que as “reformas” que nos são apresentada respondam tanto à alinea a) como à b):

Quanto à a), é estranho que a “adaptação do conteúdo do ensino às necessidades da sociedade contemporânea” resulte numa visão da escola como mero veículo de passagens administrativas, sem qualquer critério de exigência, espécie de depósito de alunos das 9h às 18h. As “reformas” da ministra o que conseguem é diplomar o analfabetismo, com corolário nas extraordinárias “novas oportunidades”: tinhas o 9º, agora tens o 12º, sabes é o mesmo que antes. Acho que o JPT se devia informar com quem esteja por dentro do assunto sobre o que DE FACTO se está a passar nas escolas.

Quanto à b), é curioso que a “gestão dos recursos” seja o instituir de uma cada vez maior burocratização do trabalho do professor (aconselho-o a informar-se sobre os espantosos relatórios). Também não me parece boa gestão, seja aqui ou numa qualquer empresa, colocar a quase totalidade dos recursos humanos disponíveis contra as medidas que se toma. Eu sublinho esta “quase totalidade”, porque nela se encontram os professores com genuíno espírito reformista, inovadores, adaptáveis à mudança, que aceitariam de bom grado as reformas se as entendessem como positivas.

Preparamo-nos para assisitir ao introduzir nas escolas do pior das empresas privadas (o amiguismo e a cunha), e não do melhor (a exigência e a competividade). Criou-se uma casta superior (os professores titulares), que não foram promovidos por quaisquer critérios de mérito mas de pura e simples antiguidade, que a partir deste momento tudo pode nas escolas, inclusivé dispor a seu bel-prazer das carreiras dos seus colegas da casta inferior. Curiosamente, são esses, os tais que eram “acomodados”, “não inovadores”, “velhos”, que sairam reforçados desta salganhada feita sem qualquer critério. É igualmente curioso que não sejam esses que protestam nas ruas - esses já estão representados nos Conselhos Executivos, que são os únicos orgãos com que a Ministra admite dialogar. Com quotas para progressão na carreira e a avaliação a depender exclusivamente de professores titulares (que nem tem de ser da mesma disciplina), isto vai ser assim como se passa na empresa onde trabalho, onde as promoções dependem menos da excelência do trabalho e mais de sair à noite com o chefe.

É verdade, e eu escrevi-o já muitas vezes, que as acções dos sindicatos são demasiadas vezes subordinadas à agenda do PCP. Também desta vez vamos assistir ao mesmo, mas a “vitória de Pirro” de que o JPT nos fala não é do PCP, dos sindicatos, ou dos restantes partidos da oposição - já que os objectivos destes são políticos, logo de desgaste ao governo. Será, sim, e mais uma vez, da classe profissional que deveria ser representadas pelos sindicatos.

Mas convém também aqui não misturar alhos com bugalhos: “afrontar os sindicatos” não é algo correcto em si mesmo, tal como “reformar” também não o é. São meios cuja benignidade depende dos fins em causa. Nesta caso, e com muita pena minha, preparamo-nos para mais não sei quantos anos de retrocesso no ensino, mas desta vez através de um choque traumático que será muito pior que qualquer uma das “reformas” que desde o 1º governo Guterres inauguraram o caos actual, e que vai demorar muito muito tempo a recuperar. E assim se adia o país, naquilo que lhe falta mais: um ensino público de qualidade.

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 11 Março 2008, 18:39

Reconheço a relevância de muito do que diz, André, mas não entendi qual a sua proposta. Não estou à espera de uma reforma perfeita, porque isso não existe, estou à espera de uma reforma que comece pelos problemas essenciais, que, repito, são: a) avaliação dos professores; b) alteração do modelo de gestão das escolas. Uma coisa de cada vez. Vai ver que, depois, tudo o resto se tornará mais fácil.

Comentário de José Luiz Sarmento
Data: 11 Março 2008, 20:47

Caro João Pinto e Castro:

A avaliação dos professores e o modelo de gestão das escolas não são as questões essenciais. São questões importantes, mas acessórias. As questões essenciais são: a) a burocracia bizantina que não deixa margem para o ensino; b) os delírios pedagógicos dos “cientistas da educação”; c) o incivismo endémico que não deixa margem para a aprendizagem.

Ou, como diria a placa na minha secretária se eu fosse ministro da educação: É O ENSINO, ESTÚPIDO!

Comentário de André Carapinha
Data: 12 Março 2008, 3:56

Caro João Pinto e Castro:

Não são as minhas propostas que estamos aqui a analisar. Mais uma vez está a cair no erro de “Mais vale qualquer coisa do que nada”. Não concordo, sobretudo quando essa “qualquer coisa” caminha no sentido do abismo.

As minhas propostas não caberiam no espaço de um comentário, mas adianto que estou no geral de acordo com o que escreve o José Luis Sarmento. Esta “reforma” não ataca o essencial (antes pelo contrário), e ocupa-se do acessório, mal. Incrementa-se a burocracia e a ausência de autoridade, mesmo de disponibilidade, do professor; e se se avalia (o que concordo) parte-se de péssimos critérios e acaba-se em formas viciadas e contraproducentes.

Escreva um comentário