Nova democracia

Declarando à RTP, a propósito das muitas dezenas de milhar de professores que ontem desceram a Avenida, que aquilo que o convence “não é a força dos números, é a força da razão”, José Sócrates foi muito além de Augusto Santos Silva na defesa da Sr.ª ministra da Educação: com essa frase peregrina, ele fez história e fez teoria, pois libertou enfim a democracia da terrível tirania do número, que desde a Grécia antiga a perseguia e aprisionava. – Venham pois governar Portugal, Manuel Monteiro ou Garcia Pereira, mesmo se não tiverem o inútil número mas tiverem a clara razão; e se acaso não se entenderem sobre quem tem essa razão, por favor nada de números – resolvam a coisa à paulada.

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SEXTA | António Figueira
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6 respostas a Nova democracia

  1. Uma coisa é aquilo que convence o Sócrates; a outra é a que deve governar.
    Por muitos profes que se tenham manifestado, nada indica que os “números” que escolhem o governo estejam com eles.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Repara que tem uma base filosófica muito sustentada: Platão díscipulo de Sócrates defendia o governo dos filósofos e a expulsão dos poetas da Polis. Nos tempos de hoje, Sócrates defende a expulsão dos professores e o governo dos engenheiros.

  3. A.Silva diz:

    Nesta história há mais um protagonista,que já defendeu a ministra e pode voltar a fazer o mesmo,é o inquilino de Belem que não está muito interessado em dar a posse a Menezes

  4. ó antónio, meu querido antónio, plize. nem preciso de dizer o que diz o filipe — até porque não faço ideia de qual é a opinião dos eleitores sobre esta matéria. mas, sem fazer qualquer esforço, lembro-me de muitos assuntos em que os números e a razão andam desencontrados. basta, por exemplo, ver telenovelas. mas enfim.agora é a época de chamar anti-democrático a tudo o que mexe.

  5. Lutz diz:

    Já estava a espera que alguém pegasse na frase de Sócrates e dissesse o que o António acabou por dizer. A facilidade deste argumento não o torna mais sério. Estamos numa democracia representativa com um governo eleito para quatro anos. Uma manifestação, quanto mais de uma classe profissional, é um facto político a levar em conta pelo governo, mas não serve como legitimação democrática para anular o que consta no programa do governo eleito.

  6. António Figueira diz:

    Caro Lutz,
    Claro que V. tem razão, mas a tentação de gozar um bocadinho com o dito socrático foi grande demais. Repare que o PM podia ter dito aquilo que V. disse e não o fez (justamente porque quis desvalorizar o facto político incontornável que foi a manifestação); preferiu pôr as coisas em abstracto – a razão contra os números, perigo e honra de ser impopular, etcetera e tal – e evidentemente perdeu-se.

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