Acerca da ideia de que quem protesta é um grupo de privilegiados

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Foto de Vitor Ribeiro, via Abrupto

“À falta de melhor, e revelando a extensão da guinada à direita do «socialismo moderno», Vital Moreira faz uso da «lógica da acção colectiva» de Mancur Olson para diminuir o alcance do justo protesto dos professores. Segundo Mancur Olson, inspirador de uma das mais eficazes linhas de ataque neoliberal aos pilares fundamentais do Estado Social, o comportamento dos indivíduos é redutível ao egoísmo racional. Nada mais conta. Assim, só grupos pequenos e com incentivos bem circunscritos conseguiriam mobilizar-se e impor as suas reivindicações. Isto geraria uma assimetria entre minorias egoístas e uma imensa «maioria silenciosa», igualmente egoísta, mas com interesses difusos e desprotegidos. As hipóteses da «lógica da acção colectiva» caem felizmente por terra quando temos cem mil professores nas ruas de Lisboa em defesa da escola pública. Um professor egoísta teria preferido ficar em casa, esperando colher os «benefícios» que podem resultar dos protestos dos outros, sem ter que suportar os «custos» de participação em manifestações. As referências ideológicas dos intelectuais orgânicos do «socialismo moderno» são assim reveladoras e muito redutoras. Desaparecem da sua análise elementos cruciais como a dignidade e a ética profissionais, violentadas por uma prática governamental que apenas confia nas virtudes do comando, do controlo e dos incentivos pecuniários, e as motivações intrínsecas de tantos que dão o seu melhor na escola pública perante uma ministra que tudo fez para que o seu esforço crucial se tornasse cada vez mais invisível. A esmagadora maioria dos professores revelou ontem uma consciência aguda dos perigos de uma política ancorada em concepções tão estreitas da acção humana.”

João Rodrigues, no Ladrões de Bicicletas

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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5 respostas a Acerca da ideia de que quem protesta é um grupo de privilegiados

  1. M. Abrantes diz:

    Faz-me impressão um homem que despreza o descontentamento de cem mil pessoas. É uma atitude da mais pura e leviana arrogância. Será que Vital Moreira se deixou ultrapassar pelo seu próprio bem-estar material e social?

  2. Um belo naco de retórica irrelevante.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JPC,
    Tens toda a razão, completamente irrelevante. Bom, bom, foi a reunião da “Geração de Ideias”. Isso sim, malta fina que não cai na retórica das corporações e vê o futuro e o nosso primeiro de frente.

  4. Outra vez a desconversar, Nuno? Fico desapontado.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    João Pinto e Castro,
    Com todo o respeito, eu limitei-me a seguir a seriedade do seu comentário ao texto do João Rodrigues. Não me passou pela cabeça qualificar o seu post sobre o assunto como “um belo naco de retórica irrelevante”, só porque a partir do meio do texto não consigo concordar com uma palavra.
    Se tivesse comentado o seu post tinha-o feito de uma forma cuidada e séria como o seu texto exige. Não me apanhará a fazê-lo achando que a sua opinião é “irrelevante”. Se o meu caro João Pinto e Castro resolve estrear-se a comentar textos que eu coloco com este tipo de frases, depois não pode exigir que eu seja sério a responder-lhe.
    Com toda a amizade,
    Nuno

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