Os óculos da ideologia

A propósito da morte do historiador Joel Serrão, o Público chama a título uma frase da historiadora Maria Filomena Mónica: “O homem que via a História sem óculos ideológicos”.

Acho que nem o jornalista leu algum livro do Joel Serrão, nem a Maria Filomena o percebe (ou percebe-o bem demais, dai a “traição”). O autor de “O Carácter Social da Revolução de 1383” lia a história, como todo o mundo, à luz das suas ideias e da corrente de historiadores com quem compartilhava princípios. Fazia-o é com a inteligência e a honestidade que caracteriza os grandes historiadores. Isso de jornalismo ou de historiadores sem ideologia não existe. É como a fada madrinha: só está na cabeça daqueles que acredita ou nos querem fazer acreditar em contos de fadas. Recomendava aos dois escribas que relessem Max Weber, para não os estar a incomodar com Marx.

Finalmente, irritam-me elogios fúnebres em que os entrevistados façam passar os seus pontos de vista particulares à conta de um morto que não pode,naturalmente, responder. Mas é a vida…ou a morte.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Os óculos da ideologia

  1. P.Porto diz:

    Caro NRA

    Eu concordo com a sua observação, não existem historiadores ideologicamente assépticos. Mas há ‘no entanto’.

    No entanto – cá está ele – existem historiadores que manipulam a apresentação de factos históricos como forma de apresentar ou justificar uma idiologia, e outros que, apesar da ideologia que lhes é subjacente, se restringem à apresentação e interpretação sóbria e honesta dos factos. Na minha opinião, este era o caso de Joel Serrão.

  2. Tem toda a razão. Não há historiadores «a-ideológicos». Veja o caso do Fernando Rosas a quem toda a gente vai pedir entrevistas e conselhos, como antigamente se ia ao oráculo de Delfos. É historiador e é de extrema-esquerda. Mas os historiadores podem ser mais ou menos imparciais, sobretudo se a diferença estiver no objecto de estudo. Não interessa tanto ser de direita ou de esquerda, quando se observa um contexto micro, como quando se faz história social ou política. Neste caso acho relevantíssimo o partidarismo ou a ideologia. Por muito que tente, não acho que o Fernando Rosas veja o Estado Novo com os mesmo olhos que a Maria Filomena Mónica ou o António Costa Pinto. Para mim, logo que o método seja fiável, não costumo ligar à ideologia dos cientistas – o problema é que a maioria dos historiadores que vêm à televisão e aos jornais dar entrevistas e fazer crónicas, são mais cronistas do que historiadores. Mas, bem vistas as coisas, num país em que a História local é feita por amadores, não parece que isso preocupe muito a quem de direito…

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    P Porto,
    Estou de acordo, mas a aqueles que fazem simples história propagandística eu não chamo historiadores.

    Nuno Resende,
    Há grandes historiadores conservadores e grandes historiadores marxistas que se apaixonaram de uma forma “ideológica” pelo seu objecto de estudo, mas quando pensam fazem-no com tanto cuidado e inteligência, que o seu horizonte de observação transcende em muito as baias da sua ideologia.

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