Os óculos da ideologia
7 de Março de 2008 por Nuno Ramos de AlmeidaA propósito da morte do historiador Joel Serrão, o Público chama a título uma frase da historiadora Maria Filomena Mónica: “O homem que via a História sem óculos ideológicos”.
Acho que nem o jornalista leu algum livro do Joel Serrão, nem a Maria Filomena o percebe (ou percebe-o bem demais, dai a “traição”). O autor de “O Carácter Social da Revolução de 1383″ lia a história, como todo o mundo, à luz das suas ideias e da corrente de historiadores com quem compartilhava princípios. Fazia-o é com a inteligência e a honestidade que caracteriza os grandes historiadores. Isso de jornalismo ou de historiadores sem ideologia não existe. É como a fada madrinha: só está na cabeça daqueles que acredita ou nos querem fazer acreditar em contos de fadas. Recomendava aos dois escribas que relessem Max Weber, para não os estar a incomodar com Marx.
Finalmente, irritam-me elogios fúnebres em que os entrevistados façam passar os seus pontos de vista particulares à conta de um morto que não pode,naturalmente, responder. Mas é a vida…ou a morte.

Comentário de P.Porto
Data: 7 de Março de 2008, 13:30
Caro NRA
Eu concordo com a sua observação, não existem historiadores ideologicamente assépticos. Mas há ‘no entanto’.
No entanto – cá está ele – existem historiadores que manipulam a apresentação de factos históricos como forma de apresentar ou justificar uma idiologia, e outros que, apesar da ideologia que lhes é subjacente, se restringem à apresentação e interpretação sóbria e honesta dos factos. Na minha opinião, este era o caso de Joel Serrão.