Imagens, almas e bárbaros de bata

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João: à primeira vista entendi a tua proclamação da impossibilidade de conhecer a mente humana como uma espécie de paralelo laico aos interditos de desenhar Alá ou mencionar o nome de Jeová. Não estremeças ante a injustiça; podia ter pensado que ias trazer à colação o pobre Gödel, já tão maltratado em tantas paragens bárbaras. Claro que a tua roca fia mais fino.
Mas olha: cá por mim, ouso acreditar que nem a não-computacionalidade dos processos mentais os torna ontologicamente inalcançáveis, ilhas sagradas para sempre ocultas do nosso olhar por brumas tão imanentes quanto opacas. Mais. Atrevo-me a prever, do fundo da minha impante ignorância, que nada que Kant possa ter escrito me convencerá do oposto (já nem a coisa do Ens Realissimum me deixou muito impressionado, confesso).

Peço-te alguma indulgência para a truculência positivista do Filipe. Olha que mesmo no campo dele, a Física pura e dura, é  possível encontrar vias de pesquisa científica fascinantes, ainda que algo arriscadas e difíceis de entender para o leigo; coisas como a hipótese Orch OR, do anestesiologista Stuart Hameroff e do conhecidíssimo matemático Roger Penrose. Esta teoria — falsificável segundo a bitola do amigo sir Karl e tudo — tem sempre vivido sobre fogo cerrado, mas é um bom exemplo de como nem todos os cientistas andam à procura da nossa essência pelos caminhos mais batidos das ciências cognitivas.  Pode ser que um deles, num destes dias, até a lobrigue (esta é em tua honra, Filipe).

E lá cairá mais uma fronteira, mais um segredo.

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3 respostas a Imagens, almas e bárbaros de bata

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  2. Eu também entendi o essencial (creio que em filosofia desconhecem este conceito: “entender o essencial”) do que o João escreveu, apesar do arrazoado de palavras complicadas (nos comentários, pelo menos). Concordo plenamente com o que escreves aqui e nunca o teria escrito melhor do que tu, com palavras simples e com o “lobrigar”.
    É interessante teres referido o Godel. Na conferência da Gulbenkian de Outubro sobre os limites da ciência foi bem referido (creio que pelo Freeman Dyson) que o teorema de Godel é um desafio, e não uma limitação.

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