Dados recentes sobre uma questão antiga

Não se arriscará aqui a arrogância de procurar resoluções para dilemas e debates científicos que se arrastam há décadas. A discussão do peso relativo do património genético versus as circunstâncias sociais e físicas que enformam a vida do indivíduo não terá por certo desfecho definitivo tão cedo. Entretanto, novos campos científicos, novas explicações irão surgindo, adicionando-se a modelos tão variados como a psicologia evolucionária, a sociobiologia ou até a teoria da herança dual (que tem o caso da absorção da lactose como caso exemplar). Mas o ano de 2007 trouxe-nos algumas pistas que talvez venham em breve a surpreender muita gente…
Começando pelos estudos que o centro de cognição infantil da universidade de Yale divulgou recentemente (Hamlin, Wynn e Bloom, 2007), apontando para a existência funcional de juízos sociais em crianças pré-verbais (entre os 6 e 10 meses de idade): ao escolher entre brinquedos que tinham pouco antes manifestado comportamentos positivos ou negativos (ajudando um terceiro boneco a escalar um monte ou dificultando-lhe a operação), quase todas as crianças escolheram  a personagem “boa” para brincar. Mais: preferiam brinquedos “neutros” (que não haviam ajudado nem prejudicado a escalada) aos “maus” e os “bons” aos “neutros”. Nas palavras da líder deste estudo, ele “mostrou que estas capacidades sociais decisivas ocorrem mesmo sem muitos ensinamentos explícitos”.

Às críticas que apontam os dez meses como uma idade em que já muita experiência social foi assimilada, Hamlin retorquiu assinalando que a avaliação provisória de estudos ainda em curso aponta para a replicação destes resultados em experiências com bebés de três meses. Mas, mesmo fazendo fé na interpretação dos autores do estudo — “isto apoia a visão de que a capacidade para avaliar pessoas é uma adaptação biológica, universal e não-aprendida” — tal apenas provaria que possuímos um dado conjunto de ferramentas sociais ao nascer, não que algo aparentado a disposições ou “naturezas sociais” possa sofrer influências decisivas codificadas nos nossos cromossomas, que aliás obedeceriam a mecanismos totalmente ignotos neste momento.
Ainda no mesmo ano, um outro estudo (Wallace, Björn et al. 2007) procurou detectar uma explicação genética para a prevalência de estratégias que castigam comportamentos injustos no jogo do ultimato. Trata-se precisamente do jogo, inventado por psicólogos e muito empregue por economistas, que foi um dos exemplos usados por Boudon para minimizar a universalidade da teoria da escolha racional: um jogador oferece ao outro parte de um montante disponível. Este deve aceitar, caso em que dividirão da forma proposta o dinheiro em jogo, ou recusar, caso em que nenhum deles receberá dinheiro algum. Os resultados gerais são conhecidos: em vez de dar lugar à entrada em cena do homo economicus, o jogo do ultimato revela que os jogadores tendem a recusar ofertas inferiores a 20%, preferindo castigar a ganância do que recolher algum lucro (mais: é sabido que os resultados desta divisão se aproximam mais dos 50%-50% em países onde a entreajuda comunitária é a norma). Uma explicação popular desta tendência justiceira é de que ela teria “raízes evolucionárias profundas” (Wallace, Björn et al.), relevando de uma disposição geral necessária ao estabelecimento de laços de cooperação entre indivíduos não aparentados, característicos da espécie.
Este estudo, que utilizou gémeos homozigóticos como oferentes e respondentes e distribuiu prémios pecuniários reais, apurou que mais de 40% da variação do comportamento de rejeição de ofertas é “explicado por efeitos genéticos aditivos”. Por curiosidade, refira-se que uma engenhosa pesquisa realizada no Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, de âmbito similar mas tendo como alvo chimpanzés, apurou que estes demonstram um comportamento exclusivamente economicista: qualquer oferta (de passas, neste caso) é aceite, por mais injusta que seja, desde que superior a zero (Jensen, Call e Tomasello, 2007).
Em suma: começam a existir sólidas razões para suspeitar que muito do que somos  pode ser potenciado e constrangido por estruturas congénitas.

PS: desculpem lá a falta de links, mas já tinha isto aqui à mão, e não estou agora com tempo para procurar tudo na net…

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5 respostas a Dados recentes sobre uma questão antiga

  1. ezequiel diz:

    Caro Luís,

    Apesar de não ser economista ou das ditas ciências exactas, sempre gostei da linguagem lúcida e honesta destas disciplinas. A lucidez é uma necessidade poética. E, aqui, como todos podem ver, aliaste à lucidez um estilo deveras delicioso. So, it is a genuine pleasure, mate ! (vi há pouco o tal filme e ainda estou meio combalido) Mas, como te estava a dizer, gosto especialmente dos preâmbulos dos ensaios e tratados científicos – muitas vezes não consegui ir mais além (o prob mantem-se) …mas, bolas mais uma digressão 🙂 , nos tais preâmbulos explicitam-se sempre os domínios das investigações …os seus territórios, sempre impecavelmente delimitados, envoltos pelo mais dinâmicos egos (no inflection here directed at anybody, fuck…I´M getting all freudie-like!…e, como dizia, soberanias…Foucault, homem perspicaz, pensava nas célebres formações discursivas não em termos de conceitos, ou de sentidos, (não só) mas em termos quase espaciais, e recorreu à arqueologia enquanto procurava por metáforas que exemplificassem o que a sua luminosa careca pensava. OU seja, meu caro, concordo inteiramente com tudo aquilo que consigo compreender neste teu post (não sou homem das economias, nem das escolas racionais…mas um home lá faz um esforçozito e, afinal, estás aí para a “batalha”…you`re a tough camarada, I presume eh eheh estou a brincar meu, estou sempre a brincar…não me leves a mal. Insulta-me à vontade. Eu mal acordo levo com um insulto do gato nas trombas. É coisa corrente)…porra, não consigo dizer nada….

    mas, é assim: existe uma outra escola das escolas racionais, assumidamente darwiniana que afirma coisas distintas…e a nossa história é de facto paradoxal, como diz a Sra. Prof. Agnes Heller…o mal, as injustiças, a crueldade não são assuntos triviais nem são fábulas e podem facilmente coexistir (a lógica desta coexistência? Não faço a mínima ideia) com a justiça, com a solidariedade e com tudo o que hã de mais nobre no humano…pronto, chama-lhe pluralista simplista, call what it what you like (como diz um dos meus hip hopers prefs) 🙂

    encontrar um instinto social benigno numa Doutrina científica é louvável e, acima de tudo ( e isto dá-nos uma enorme felicidade) demonstrável…Mas o ser humano (e aqui só posso oferecer o senso comum) é coisa mais complicada, a meu ver…imagina que esta fosse uma definição compreensiva da natureza (total) do humano. Contentar-te-ias? Tenho a certeza que não. Quando vestisses a pele colectiva de homo filosoficus optarias certamente pela razoabilidade e dirias, imgaino eu: bem é isto que se passa na minha área, mas outros e outras de outras áreas virão cá molhar o bico, shall we say. Esta é, portanto, uma esfera, inextricably (oops, finalmente tive a oportunidade de usar a palavra..esta é para um dos comentadores que diz que é sempre tudo tão complexo tudo tão inextricável….:) connected to others (e cá estou eu armado em economista a arriscar-me a incitar da wrath of the Queen 🙂 ) Eu acredito que é neste interstício, que pode ser chamado de diferença. (sem qualquer referência ao grande senhor, nem me atrevo a entrar aí) que acontecem as coisas
    interessantes.

    Não sei se compreendi bem a última parte do texto. Então a macacada é menos altruísta? Não percebi.

    A tour de force, Q. (importas-te que eu te trate por Q..fica bondish, glam, sei lá…fica funky..pensa na morenazza berry :)! Se não gostares, my mouth will be forever shut!!) Se fores dado a mais impulsos criativos destes (eh ehe heh h:) manda pó postal que a malta gosta mesmo de ler this stuff…
    BRIL

  2. ezequiel diz:

    e certamente gostarás de dar uma vista de olhos, se já não deste, num livro do Dreyfus,também mencionado pelo João (e o dreyfus é sacaninha aprumado) being in the world…onde ele fala dos bébés japoneses e americanos…que são japoneses e americanos antes de desenvolverem o conceito de americano ou japonês (o conceito é a prática, ou está na práctica…não sei!)…e há um outro prob: qual foi o critério que permitiu ao dreyfuss ou a outro loonie tune (no bom sentido) que o jovem Bakano já é de facto japonês…já anda vestido de samurai? Penso que não. 🙂

    ou será que sabemos menos do que o suficiente acerca da aprendizagem pré-verbal? É uma possibilidade também. Esquecemos facilmente que os bébés aprendem a ouvir muito mais cedo do que aprendem a falar…dá que pensar! (às tantas sabem muito mais acerca de nós do que nós acerca deles???)

    era só isso
    cumps

  3. Luis Rainha diz:

    No que concerne a macacada, o que parece passar-se é que eles aceitam qualquer coisinha, por mais egoísta que o parceiro de jogo seja. Nós, gente, já tendemos a recusar ofertas somíticas.

    Bem; antes “Q.” do que “Queen”…
    Quanto a ti, podemos acordar no “BOF” (Brave Old Freemason)?

  4. josé silveira diz:

    muito bom o texto, luís. só uma pequena ressalva: em portugal emprega-se sobretudo o termo “evolutiva” (como em psicologia evolutiva) e não “evolucionária”. um pormenor de somenos 😉

  5. ezequiel diz:

    Caro Luís

    Bem, Q é bastante mais kool do que bof, não é???

    Para ser franco não gosto mt de bof. Nadinha mesmo. Do nome porque dos freemasons…nunca me fizeram mal algum.

    Luís Rainha tb é bem fixe. Usarei o teu nome. Leva mais tempo a escrever mas…no probs
    cumps

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