Governar também será como uma caixa de chocolates?

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Quando 1994 viu nascer para o Cinema o mais improvável dos heróis,  poucos se surpreenderam com o seu êxito nos EUA. Afinal, que melhor redenção colectiva para uma sociedade obcecada pelo sucesso e atormentada pelos fantasmas de uma moral exigente? Forrest Gump, a irresistível criatura com um ligeiro atraso mental que tinha sempre a sorte necessária para fazer do seu afastamento do mundo uma vantagem competitiva — na guerra, nos negócios, na vida em geral —, veio proclamar o regresso à inocência de toda uma nação consumida pela culpa do Vietname, pela vergonha do Watergate. Ele é competitivo, ele tem sucesso, ele salva vidas e faz dinheiro, tudo sem macular um pouco que seja a sua alma simples e sorridente.
Cá em Portugal, a inocência não é um bem tão valorizado. Talvez porque a sua apreciação exija bons sentimentos algo escassos, talvez por ser ainda vista como um produto de luxo, apenas ao alcance de gente já bem instalada na vida. Cá em Portugal, o que o povo gosta mesmo é de “firmeza”. De gente de cenho franzido e fácies resoluto. De “líderes” que apontem caminhos à turba. Sempre nos poupa a canseira de puxar pelo encéfalo.
Como seria um Forrest Gump tipicamente português? Hmmm, deixem lá ensaiar uma historieta fantástica: era uma vez, lá na província longínqua, um humilde técnico, formado num curso rápido, que se dedicava a uma tristonha rotina de projectos manhosos, feiíssimos casebres erguidos a trouxe-mouxe, sinecuras camarárias. Nada o parecia destinar a um fado sequer mediano. Mas ele tinha um tesouro mais precioso do que inteligência, charme ou fortuna: um “ar” decidido. E havia uma indústria a precisar de matéria-prima assim como de pão para a bocarra: a Política.
O nosso Forrest luso é arregimentado por um partido e não tarda em conquistar a sua distrital. Segue-se a Assembleia da República. Ali, encontra o habitat ideal para medrar e fazer-se notar: o nível médio é tão pateticamente rasteiro que um tom mais firme e um olhar mais resoluto bastam para tapar os buracos originados pela falta de ideias próprias (improvável? Não se esqueçam que foi esta a casa que deu a Santana Lopes a fama de grande tribuno). Sucesso após sucesso, sempre às cavalitas de uma bem explorada imagem de tecnocrata eficiente e determinado.
De seguida, o primeiro-ministro da altura, criatura titubeante e ainda mais carente de “firmeza” do que o resto da Nação, encontra nele um aliado precioso: e lá sobe o homem a secretário de Estado, a ministro. Sempre sem dar provas de nada além de teimosia: agarrando cada projecto com a firmeza de um rottweiler a abocanhar o almoço, ele acaba por parecer uma torre de fortaleza, isolada num ermo pantanoso, cercada por poltrões. Entretanto, vai compondo o currículo com cursitos e pós-graduações de valor apenas teórico: mais uns diplomas para servir de pano de fundo a retratos heróicos e cartazes inspiradores. Ele pode ser algo denso mas não é tolo: o instinto assevera-lhe que não irá longe sem pedigree que se veja.
Saltemos uns anos. Imaginemos Portugal de rastos, envergonhado por ter dado origem ao governo mais ridículo, mais cabotino, mais palonço do Hemisfério Ocidental. Forrest Gump redimiu a América do seu próprio cinismo, da sua própria impiedade. O nosso predestinado vai redimir-nos da indecisão, da fraqueza, do vício da procrastinação.
É com alívio que o povo vota e regressa ao seio do Homem Providencial.
No final desta pequena fábula, poderíamos ver-nos nas mãos de um homem de qualidades quase médias. E depois? Não estamos todos fartos da casta dos iluminados inconsequentes? Quem gostaria de ter o professor Marcelo como PM?
Um líder deste jaez nunca nos desiludiria. O seu modo simples de ver as coisas não se deixaria enredar nas armadilhas do cálculo ou da moral: dizem mal de um ministro? Ele fica. O povo manifesta-se? Malditos comunistas. O progresso tarda? Não faz mal, que temos muitos “planos” e “choques” para o substituir. Nos entrementes, um ou dois grupos económicos por certo tratariam de se aproveitar. A inevitável corja de medíocres ambiciosos e de espertalhões com olho para o negócio depressa formaria uma clique coesa e implacável. A oposição, ainda atordoada, passaria anos a tentar terapias homeopáticas de duvidosa utilidade — Similia Similibus Curentur e tal —, atacando o inimigo com figuras igualmente exóticas.
Depois, quem desalojaria esta malta? Lembram-se da imagem de Forrest Gump, correndo não sabe bem porquê, arrastando multidões numa peregrinação insensata rumo a parte alguma? Lá iríamos nós assim, atrás da passada resoluta do jogging do Chefe, sem mapa nem destino, reconfortados apenas pela própria ideia de movimento, embalados pela ilusão de um rumo certo. Quando parássemos para retomar o fôlego, o mais certo era estarmos irremediavelmente perdidos.
O que vale é que tudo isto é ficção.

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