comunidade

Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro, e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão enbrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, pulpitassem compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

Luiz Pacheco, Exercícios de Estilo, Editorial Estampa.

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