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da liberdade e da censura, detalhes

29 Fevereiro 2008 | por Fernanda Câncio

O Metro de Londres decidiu não autorizar a afixação de um cartaz alusivo a uma exposição  de pintura na Royal Academy of Arts, alegando que o mesmo, uma reprodução de um quadro de Lucas Cranach (o Velho), de 1532, representando uma jovem mulher nua, era “demasiado sexual”. 

O episódio deu origem a variegadas proclamações apaixonadas de defesa da liberdade “contra a censura”, incluindo em Portugal, onde se leram, em jornais e blogues, textos em que não só se arremetia contra a decisão “inacreditável” do Metro londrino como esta era relacionada com “o multiculturalismo” e, portanto (parece que não há conversa sobre multiculturalismo que não dê nisso) com os muçulmanos. A ideia era, então, que o Metro (que entretanto reviu a decisão) teria recusado o cartaz por temer chocar os seus clientes islâmicos. Presume-se pois que só os islâmicos são passíveis de ser chocados com imagens de carácter “abertamente sexual” ou com a nudez humana. O que nos leva à conclusão de que Portugal deve estar cheio de islâmicos, a ajuizar pelas escandaleiras que se fazem a propósito de coisas como educação sexual nas escolas ou filmes de animação para crianças, sobre o mesmo tema, passados na RTP.
Este “islamismo”, aliás, vai de vento em popa.

Na mesma Londres, um casal de góticos, uma rapariga e um rapaz, foi impedido de viajar num autocarro por ela trazer uma coleira ao pescoço com uma trela que ele empunhava. Os jovens estavam vestidos dos pés à cabeça mas a trela foi considerada não aceitável, em nome, uma vez mais, da sensibilidade dos outros passageiros. A isto, porém, os ditos defensores lusos da liberdade de todas as exibições públicas do corpo disseram nada. Como ao facto de a empresa que gere a publicidade nos autocarros e metro parisienses ter recusado afixar um cartaz da revista Courrier International, por este trazer um título, “Sarkozy, le grand malade”, fazendo referência a um dos artigos nela contidos, uma coluna de opinião em que se diz que o presidente francês padece de uma incurável doença do ego. E igual indiferença dos bravos combatentes da liberdade mereceu a decisão do responsável de uma piscina holandesa, que, à imagem do que faz com os seus clientes nudistas, limitou as horas nas quais as muçulmanas que usam “burkini” (um fato de banho  que as tapa quase completamente, parecido com um fato de mergulhador) podem banhar-se.

Enfim: a uns chateia gente nua, a outros gente “demasiado” vestida. Os mesmos que denunciam “o silenciamento das vozes independentes” em Portugal fazem vista grossa ao episódio do Courrier em França. É conforme – como são conformes aos objectivos e às necessidades de propaganda certas noções de liberdade e censura. Tudo pelo maniqueísmo, nada contra o maniqueísmo.

(publicado hoje no dn)

Comentários

Comentário de alx
Data: 29 Fevereiro 2008, 12:01

Completamente de acordo. Só é pena não ter veres ao espelho quando se trata de anticomunismo. Aí és tão maniqueista como os outros todos.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 29 Fevereiro 2008, 12:43

?

Comentário de me
Data: 29 Fevereiro 2008, 12:45

«Presume-se pois que só os islâmicos são passíveis de ser chocados com imagens de carácter “abertamente sexual” ou com a nudez humana. O que nos leva à conclusão de que Portugal deve estar cheio de islâmicos, a ajuizar pelas escandaleiras que se fazem a propósito de coisas como educação sexual nas escolas ou filmes de animação para crianças, sobre o mesmo tema, passados na RTP.»

Teve piada, sim senhor.

Comentário de al-cabideche
Data: 29 Fevereiro 2008, 13:24

E no caso da peça “corpus christi”? terão sido os fanáticos cruzados? oops….seems not to be the case…

Publicist Kevin Wilson, who designed the Fat Christ poster, is no stranger to religious controversy.
Corpus Christi, a play he publicised at the Pleasance Theatre in Islington in 2000, attracted nightly demonstrations by Muslim cleric Abu Hamza, bombs threats and a fatwa.

http://www.thecnj.co.uk/islington/2008/021508/inews021508_01.html

Comentário de Cam
Data: 29 Fevereiro 2008, 15:28

O japão, a china e a india devem andar cheios de muçulmanos. Bem a india até tem alguns.

Comentário de Maria João Pires
Data: 29 Fevereiro 2008, 15:35

Se calhar estou enganada mas começa-me a parecer que há quem tenha lido o texto de través. Ah! E grande texto, clap! clap!

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 29 Fevereiro 2008, 19:24

Grande texto, mesmo.

Comentário de Luis Rainha
Data: 29 Fevereiro 2008, 20:11

Bem; isto dos blogues sempre serve para alguma coisa.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 1 Março 2008, 15:16

tinhas dúvidas, luís?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 1 Março 2008, 15:19

um pequeno desabafo: é extraordinária a capacidade das pessoas de lerem o que não está escrito. li algures num blogue, a propósito deste texto, que eu ‘critico o metro de londres por não ter colocado o cartaz’ e defendo ‘o direito à exibição do sado-masoquismo’ mas que ‘me passaria se em vez de um gótico fosse um muçulmano a trazer uma mulher de burka pela arreata’. e mais não sei o quê. notável.

Comentário de al
Data: 1 Março 2008, 17:54

Tudo o que pode presumir é que a direcção do metro de Londres achou que os muçulmandos podiam ficar chocados.
O resto é da sua lavra.
A relação com a educação sexual é tão disparatada que acho que deve concorrer a um concurso de ilogismos. Deve haver, é impossível que não haja.

Comentário de Maria João Pires
Data: 1 Março 2008, 19:58

“Tudo o que pode presumir é que a direcção do metro de Londres achou que os muçulmandos podiam ficar chocados.”, escreveu o al e eu só consigo exclamar “Holly shit!” (em estrangeiro para ficar menos vulgar)… se há coisa q não se pode presumir é isto mesmo. Ou melhor, presumir pode-se mas só se se gostar de ver papões muçulmanos em tudo o que mexe.

Comentário de al
Data: 1 Março 2008, 20:15

Não encontrei dados que me permitissem dizer que a retirada do cartaz fosse motivado pelo medo de ferir susceptibilidades de muçulmanos - como pensava que tinha sido.
O meu comentário resultou duma leitura apressada.
Apresento as minhas desculpas neste particular.

Comentário de Maria João Pires
Data: 2 Março 2008, 0:23

Um dos temas do texto da Fernanda era exactamente isso, al, aquilo-que-se-pensava-ter-sido-mas-afinal-não-é, certo?

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 2 Março 2008, 1:15

o al ‘pensava’. notável.

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