Jornalismo substancial

Nas edições de segunda-feira e terça-feira, o Público assinala as eleições presidenciais do Chipre dizendo que ganhou “o candidato nominalmente comunista”. Este “nominal” é um mistério. Percebe-se que, sob a bitola esclarecida da grande timoneira Teresa de Sousa, os jornalistas de internacional do Público são vivamente desaconselhados a admitir que um dirigente de um partido comunista possa ganhar eleições num país da União Europeia. Mas, não estando em causa a bondade da intenção, “nominal” significa, aqui, que o partido é de nome comunista, embora na realidade não seja. Ora, os factos são ligeiramente diferentes: o vencedor é, Dimitris Christofias, secretário geral do AKEL – Partido Progressista dos Trabalhadores, força política que se considera maxista-leninista. O AKEL não é “nominalmente” comunista é apenas ideologicamente. Que bom termos os óculos da Teresa de Sousa para ver o mundo, o que seria de nós sem a verdade a que temos direito.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 respostas a Jornalismo substancial

  1. JN diz:

    Que susceptibilidade. Ou que intolerância.
    E já agora, que contradição.

    Nomimal, adj. Relativo a nome. Que só existe em nome; que não é real.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JN,
    Exactamente, relativo a nome. O AKEL não se chama comunista, considera-se , quanto muito, comunista.
    O problema é que a jornalista considera que ele não é comunista. Com base em quê? Com base de ele aceitar a economia privada, lê-se no texto.
    Para além de não saber o que é o AKEL, um dos partidos comunistas mais “ortodoxos”, com relações privilegiadas com o KKE (o partido grego), desconhece que não deve haver, desde a NEP dos anos 20, partido comunista no mundo que não aceite sectores da economia nas mãos dos privados.
    E eu é que sou intolerante e contraditório…

  3. P.Porto diz:

    Então, RNA, que tal considerar o AKEL ‘nominalmente’ comunista como significante para não se pretender transformar em partido único, não pretender ter o controlo cerrado da comunicação social, porque pretender estatizar a economia?

  4. JN diz:

    Ou ainda que não é real, só existe em nome.
    Daí à contradição de o AKEL ser comunista ideologicamente.
    A intolerância está na reacção ao “nominal”.

    Outra coisa. Aceitar a propriedade privada é uma coisa. Aceitar em sectores da economia a actividade privada é outra completamente distinta.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JN,
    Aceitar a propriedade privada de meios de produção é disto que trata o NEP, não da roupinha dos cidadãos. Ó você acha que é possível existir propriedade privada dos meios de produção, sem que ela exista nos sectores da economia? No éter, para ai?

    P. Porto,
    Já tinha saudades dos seus comentários. Apesar deste não ser muito inspirado, mas deve ser culpa do meu post.

  6. Sérgio diz:

    E que tal aceitarem que os comunas também ganham eleições legítimas?

  7. CARLOS CLARA diz:

    e depois… JN? Acha que o povo de Chipre se deixou enganar, né?

  8. JN diz:

    Nada a declarar contra as vitórias dos comunas.
    Aliás acredito muito sinceramente na capacidade dos comunas em gerir o interesse público, melhor que qualquer outro espectro político.
    A questão aqui é outra.

    O porquê desta susceptibilidade dos comunas?
    Primeiro foi o ex-presidente da CM Beja, com a indignação de ser um autarca corrupto comuna com a personagem do tal filme com a Soraia Despida, perdão Chaves, do qual não me lembro do nome.
    Agora esta indignação com a semântica de um adjectivo.

    Fico preocupado com esta susceptibilidade.
    As coisas têm que funcionar de outra forma.
    Não pode ser assim, tão à flor da pela.
    Sei lá.

    Será que os comunas estão a perder a sua capacidade de encaixe?
    Meus senhores. Isto preocupa-me muito.

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JN,
    Não percebeu. A minha indignação não é como comuna, mas como jornalista com muitos anos de profissão. A confusão de juizos de valor com juizos de facto é arrepiante na frase: candidato nominalmente comunista. Pede-se à jornalista que conte os factos e que os separe dos juizos de valor. Ela está a escrever uma notícia e não uma coluna de opinião.
    E só porque você me chamou “comuna” é que lhe perdoo-o a confusão entre Beja e Évora. Abílio Fernandes foi durante mais de 20 anos presidente da câmara de ÉVORA!

  10. nuno magalhães diz:

    óh ramos de almeida, bute fazer um jornal que fuja à agenda das teresas de sousa…

  11. João diz:

    finalmente um post sobre o chipre
    tinhas que ser tu nuno

    gosto desse, já raro, olhar jornalista.
    que se indigna

  12. JN diz:

    Caro NRA,
    Lamento imenso ter atribuído a CM Beja a Abílio Fernandes. Ainda mais quando reconheço que fez um bom trabalho na cidade de Évora.
    Agradeço o perdão. E comuna não era directamente consigo. Era para a “geral”.

    E compreendo a sua indignação com o assunto do post.
    Simplesmente não achei o caso tão arrepiante.
    Mas é bom verificar que existe essa indignação e atenção.
    É sinal de bom profissionalismo.

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