A morte pudica

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O pior de ver morrer alguém que amamos é o nosso próprio silêncio. Melhor: a nossa cumplicidade no silêncio do outro. Porque queremos acreditar no estoicismo alheio, desejamos que brecha alguma macule essa resistência. E dizemos: “ele está bem; achei-o animado”. Ou coisa parecida. Assim, fazemos por evitar conversas sobre diagnósticos, cirurgias,  sintomas. Levamos as palavras por carreiros mais indolores, certos de que estamos a preservar a fortaleza de quem se sabe a morrer. O pior é quando pressentimos ali um animal acuado a ganir, escondido do mundo. E nos sabemos incapazes, inúteis, imprestáveis. O pudor de nomear o monstro, de dizer o abraço certo (mas qual?), de estar lá dentro. É isto que nos lixa.

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5 respostas a A morte pudica

  1. morre-se só, luís — mas ficaremos sempre com essas dívidas por saldar.

  2. Luis Rainha diz:

    É isso que receio. Mas nem isso muda nada.

  3. Nada muda a puta da morte, Luís, mas fazer o abraço – sempre o certo porque é o abraço – está sempre certo.

  4. Passemos ou não a vida a medir as palavras, ao pé do fim do outro temos sempre o pavor da inconveniência; sempre a controlar, sempre a representar, sempre o centro do mundo, sempre a saber o que o outro quer: triste papel.
    Só conheço dois que me mandavam foder, a mim e mais ao papel; os meus amigos. (ui que mal que isto soa).

  5. Pingback: cinco dias » Parabéns

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