A morte pudica

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O pior de ver morrer alguém que amamos é o nosso próprio silêncio. Melhor: a nossa cumplicidade no silêncio do outro. Porque queremos acreditar no estoicismo alheio, desejamos que brecha alguma macule essa resistência. E dizemos: “ele está bem; achei-o animado”. Ou coisa parecida. Assim, fazemos por evitar conversas sobre diagnósticos, cirurgias,  sintomas. Levamos as palavras por carreiros mais indolores, certos de que estamos a preservar a fortaleza de quem se sabe a morrer. O pior é quando pressentimos ali um animal acuado a ganir, escondido do mundo. E nos sabemos incapazes, inúteis, imprestáveis. O pudor de nomear o monstro, de dizer o abraço certo (mas qual?), de estar lá dentro. É isto que nos lixa.

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