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Live and let live

25 Fevereiro 2008 | por Maria João Pires

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Já tinha visto referências a esta história há uns dias no Quase em Português mas como tenho andado como o tempo, leia-se cinzenta, deixei passar. Hoje voltei a encontrá-la num blog francês, o Demonia Magazine, e não resisti mais. A coisa conta-se em poucas linhas, o casal que se vê na foto, estranho qb. de facto, foi impedido de entrar num autocarro porque o condutor do mesmo ficou chocado com o que viu. Tasha Maltby, a mulher da foto, tal como se lê no Demonia, (…) est consciente de la bizarrerie de cette façon d’agir mais l’assume pleinement: «Cela peut paraître étrange mais nous rend tous les deux heureux. C’est ma culture et mon choix. Cela ne fait de mal à personne».“. E eu acrescento… estamos em presença de dois adultos, certo? Vivem bem com as suas escolhas, certo também? Não entendo como é que alguém se pode indignar tanto como o autor deste texto (os comentários ao mesmo, que trazem a esta conversa o tema da luta pela defesa dos direitos e da dignidade das mulheres, também me deixam de queixo caído, pensava eu que no centro dessas lutas estava o respeito devido a cada mulher em fazer o que bem entende com o seu corpo, mas parece que ando enganada).  Live and let live continua a ser assim tão difícil de entender?


P.S. - Ao contrário do autor do indignado texto só esbracejo contra burkas impostas

Comentários

Comentário de luis eme
Data: 25 Fevereiro 2008, 17:52

Também não me parece chocante, apenas ridiculo…

Se há quem goste de andar com trela, como qualquer animal de estimação, não percebo a razão de isso fazer comichão ao motorista.

Os motoristas deviam indignar-se sim, com as pessoas normais que não respeitam os lugares para grávidas, deficientes, etc, e ao qual fecham os olhos, ou com os tipos que entram nos autocarros e começam a insultar algumas pessoas, sem as conhecerem de sitio nenhum…

Comentário de Luis Rainha
Data: 25 Fevereiro 2008, 17:52

Engraçado é ver o post nesse blogue com um simpático boneco ao lado, a propósito da proibição do fumo, com os dizeres “É permitido permitir” e “só para quem quer”.
O tabaco é coisa fixe; andar vestido à gótico é que é coisa de degenerados.

Comentário de ezequiel
Data: 25 Fevereiro 2008, 17:57

nem mais! :)

Comentário de Maria João Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 18:05

Pois, Luís, somos todos muito respeitadores das liberdades individuais e tal… desde que se mantenham muito mainstream.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 25 Fevereiro 2008, 18:15

não, joão. a questão é que ainda não se fez uma lei em portugal a dizer que as pessoas não podem andar de coleira e a serem puxadas pela trela. mal se faça, é ver toda a gente a clamar pela liberdade de andar pela trela e a explicar que ‘obviamente’ andar pela trela, desde que por decisão individual, é eminentemente respeitável. prevejo já, até, uma petição ao parlamento.

Comentário de samuel
Data: 25 Fevereiro 2008, 18:16

Se os infelizes que vivem obcecados e “preocupados” com as vidas dos outros empregassem metade dessa energia a cuidar de si próprios, teriam vidas fantásticas!

Abreijos

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 19:29

live and let live o mais possível - mas só uma pergunta, Maria João : e numa escola pública ou na aula de uma escola pública, como é? este o casalinho pode entrar?

Comentário de Maria João Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 19:45

Agora parece que é moda as escolas públicas terem um regulamento interno onde constam, entre outras coisas, normas de vestuário. Confesso que é coisa que me causa uma certa urticária porque, entre outras coisas, a adolescência é o momento onde, por excelência, a identificação “tribal” tem maior importância e, atrevo-me a dizer, até é saudável

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 19:50

corrijo - “este casalinho” e não “este o casalinho”.

Comentário de Mazinha
Data: 25 Fevereiro 2008, 20:01

ó João, isso das normas de vestuário até me parece bem. Houvesse disso nos anos 80 e eu poderia agora ver fotos minhas sem aquela sensação de que já não há nada que eu possa vestir que me fique tão mal :)))
(tb tiveste blusas com chumaços e camisolas asa de morcego???)

Estas vestimentas não me ralam nada, há coleiras e trelas psicológicas que me fazem bem mais confusão…

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 20:03

Mas deve ou não deve poder entrar na sala de aula de uma escola pública um casal de jovens, alunos da mesma turma, nesta mesmíssima ATITUDE? ( regras de vestuário???!!! olhando para o par e lendo o post não julgo que estejamos a falar de regras de vestuário…)

Comentário de Nuno Góis
Data: 25 Fevereiro 2008, 21:01

Claro que vivo e deixo viver (porque não escrever isto em português???). Mas parece-me que há aqui uma série de equivocos… Para já não sei se é a mulher que gosta de andar assim ou se é um fetiche do homem ao qual a mesma obedece, qual animal de estimação, como se auto-intitula. Depois também acho extraordinário dizer que é contra burkas impostas. É que eu sou contra as impostas e as expostas, e não me lembro até hoje de ter ouvido uma mulher dizer: tirem-me esta burka se faz favor, vejo sim mulheres como você indignadas (e com razão) só de verem aquilo. E para concluir, é tão lindo e tão progressista dizer live and let live… OK, a partir de agora se souberem de casos de violência doméstica não denunciem, pois só a mulher pode fazê-lo e se não o faz é porque gosta… Poupe-me e repare no post que o meu colega de blogue tem abaixo do meu, esse sim um escandalo de censura que se passa no mesmo país.
Quanto ao Luís Rainha, que grande confusão vai nessa cabeça. Não seja demagogo e não misture alhos com bugalhos. Para já nada escrevi contra os góticos ou a sua maneira de vestir… E depois misturar a permição de se fumar (liberdade individual) no meu blogue com esta aberração não lembra a ninguém. Aliás só a si e com a conivência da autora deste post.
Pergunto-me se dos vários colaboradores deste blogue, não haverá neste momento alguns envergonhados com este lamentável post.

Comentário de ernesta
Data: 25 Fevereiro 2008, 21:45

Lembram-se de quando começaram a aparecer os primeiros turistas com crianças pela trela?

Concordo com o essencial, liberdade individual etc etc, mas bem cá dentro continuo a achar muito “História d’O”.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 21:50

Ora ainda bem que te “astreveste”, João.

Pssst, Mazinha, camisolas asa de morcego não me lembro, mas coisas com chumaços teve de certezinha.

Olhe que os adornos fazem parte das indumentárias, Alexandra Tavares Teles.

Ena, que grande confusão de narizes que para aí vai, Nuno Góis. E porquê tanta interrogação com o escrito em inglês? Olhe, porque lhe apeteceu, pode ser?

Ah, e por falar em equívocos, essa da comparação com a violência doméstica foi de gritos… ai que me apetece tanto dar-lhe uma definição da “mesma coisa”. Bom, mas deixemos as respostas para quem de direito - leia-se, para quem V. questiona directamente. Ora assim sendo, cá vai a parte que me toca: não só não estou envergonha com o post como o subscrevo, e lamentáveis são outras coisas.

Comentário de ernesta
Data: 25 Fevereiro 2008, 21:52

Não resisti e resolvi brincar…
http://cabradeservico.blogspot.com/2008/02/parece-mas-no.html

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 22:17

Ó Ana não me diga que o rapaz que segura a trela também é um adorno da indumentária… (seria adorno se se tratasse apenas de um colar… nem é costume pôr a trela aos cães para os adornar…)

Comentário de Maria João Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 22:36

Alexandra, no post referi bem o estarmos em presença de adultos, daí que qdo me inquiriu sobre a escola ter-me quedado no aspecto da indumentária.

Ora bem, caro Nuno, ao que vejo para si é impossível aceitar que uma mulher adulta, consciente e livre escolha a submissão como filosofia de vida ou opte pela burka ou decida, presumo, virar freira. São opções q nunca seriam as minhas mas que me merecem tanto respeito como qualquer outra. Não as respeitar ou assumir, como o Nuno faz, que a escolha dela é só feita para satisfazer o parceiro é sintomático de uma implícita menorização feminina. By the way, também há homens muito submissos no universo bdsm…

Comentário de Nuno Góis
Data: 25 Fevereiro 2008, 22:53

Menorização feminina só na sua cabeça. Setal imagem se passasse com um homem a mina indignação seria igual, não duvide. Quanto ao que cala consente o que já me mostra um pouco quem é você…
desculpe lá o que é universo bdsm?… Não falo nem entendo códigos.
Perdoe-me a burrice

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 22:54

o meu ponto não é a questão da defesa da dignidade das mulheres que, concordo com a autora do post, é matéria absolutamente descabida neste caso. A minha questão é: e se trocarmos um motorista por um professor e o autocarro pela sala de aula? O que deve fazer nestes casos uma escola pública? ( PS como é epq

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 22:56

Não tinha pensado na coisa por esse lado, Alexandra, mas não deixa de ser uma possibilidade se entendermos adorno como sinónimo de adereço e pensarmos nos adereços teatrais, tão presentes nas afiliações grupais (façamos o assuponhamos que é uma trela a fazer de colar ou um colar a fazer de trela, então, assim mais ou menos como quando nos faltam os guardanapos de papel e usamos o papel higiénico como substituto)

Comentário de teresa
Data: 25 Fevereiro 2008, 22:58

maria joão
nada disso me choca, tal como não me choca o nudismo ou o sado-maso. Mas confesso que ficaria chocada se visse alguém a tomar café na esplanada da Suiça tal qual como veio ao mundo ou se, em nome de uma filosofia de vida, que respeito, se amarrasse no Marquês para levar umas chicotadas.

Não faço ideia quais os apetrechos que fazem parte da indumentária dos góticos, mas parece-me que nem a Madona se atreveu a sair de soutien para a rua.

Não retiro uma virgula ao que foi dito sobre liberdades individuais, mas confesso que teria grande dificuldade em explicar às minhas filhas porque é que um tipo passeava a namorada pela trela em pleno centro comercial…

Comentário de Maria João Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 23:01

Ana, a coleira aqui não é um mero adereço (vai ler o texto de onde tirei a citação).

Alexandra: como presumo q o seu comentário está incompleto e que o irá terminar volto cá mais tarde, depois do Boston Legal, para lhe responder.

Qual “cala consente”, Nuno. Deve ter-me escapado qqr coisa (possível porq li tudo muito a correr, delícias da maternidade) . BDSM é acrónimo de “bondage, discipline, dominance and submission, sadism and masochism”.

Comentário de DLM
Data: 25 Fevereiro 2008, 23:10

nice, nice, quite tarantino, blade runer, matrix, 4chan, harajuku, shibuya

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 23:16

o meu ponto não é a questão da defesa da dignidade das mulheres que, concordo com a autora do post, é matéria absolutamente descabida neste caso. a minha questão é: e se trocarmos o tal motorista por um professor e o autocarro pela sala de aula? o que deve fazer neste caso uma escola pública onde se ensina - no meu tempo ensinava - que os seres humanos não usam trelas?
ps. como é pequeno o passo que vai entre concedermos todos os direitos e a constatação da necessidade de um rápido internamento em instituição apropriada - imaginem que a miúda levava a trela completamente à letra e, no absoluto direito ao uso do corpo é à procura da felicidade, sempre sem incomodar alheios, em vez de falar, ladrava…)

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 25 Fevereiro 2008, 23:25

Pois não, João, eu li o texto*, mas estava a fazer o exercício proposto pela Alexandra relativamente a um casal de jovens da mesma turma e tendo em mente a história das tribos adolescentes.

Já agora, acabei de ser informada pela adolescente cá de casa que há cerca de um mês aconteceu a mesmíssima cena aqui em Lisboa, ali para os lados do Centro Comercial Fonte Nova, meteu autocarro e tudo. Citando a referida fonte, “há uma pipa de góticos assim, é uma estética… não me agrada nada, mas não tenho nada que achar bem ou mal”. Por isso, Teresa, vai na volta e não tem que explicar nada às raparigas eheh.

*(a prová-lo aqui deixo este link - http://www.demonia-magazine.com/ - a que cheguei através do dito)

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 25 Fevereiro 2008, 23:47

maria joão, há muitos adultos de 18 anos (o rapaz e a rapariga em causa são nitidamente muito jovens e daí a questão da escola) que frequentam as escolas secundárias. mas a questão coloca-se igualmente em relação às universidades estatais (e digo estatais porque são as que nos vinculam a todos como cidadãos) e por isso pergunto - deve ou não um professor deixar entrar na aula e assistir à aula um casal de alunos em que o rapaz leva a rapariga pela trela?

Comentário de teresa
Data: 25 Fevereiro 2008, 23:54

tenho tenho, que elas ainda não são adolescentes….

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:00

Partindo do princípio que ladrar – o som do dito, claro - não incomoda ninguém. E essa dos motivos para internamento tem muito que se lhe diga, cuidado. Indo lá às avessas, o exemplo típico é o delírio de ciúme do alcoólico: mesmo que o cônjuge o(a) ande a trair, pelas características da alteração do pensamento não deixa de ser um delírio.

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:17

Ok, Alexandra, já cá estou de novo e, apesar de não ser esse (e a alexandra percebeu-o bem) o tema do post, vou tentar responder às perguntas que me faz. Para mim não é óbvio que uma universidade pública impeça tais figuras. É que voltamos sempre à mesma conversa do “a minha moral é melhor que a tua”, ou não?

Comentário de Pedro Nogueira
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:28

Pergunto só ao Luis Rainha se se acha assim tão especial para mandar esta posta de pescada: “O tabaco é coisa fixe; andar vestido à gótico é que é coisa de degenerados.”. Tem graça, a boutade.

Comentário de Pedro Nogueira
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:29

Acerca deste post escrito pelo Nuno li e deixei passar. Registei apenas a aberração daquela foto. Não gostei. Ponto. Mas depois há aquela tendência para se pensar que “hoje há gente para tudo”, ou que “se a estupidez matasse…”. Deixa-se andar. Ponto.
Daí ao coro de reacções que li aqui e aqui vai uma distância daqui ao Cairo. Dá-me para perguntar: em que mundo vivem? Se calhar por falta de sentido de humor esqueci-me de registar a “graça” da coisa. A mesma”graça”- que é mais uma “gracinha” - que se vê na foto do dono e da “Bobby” (perdoem-me o sarcasmo) e também a “originalidade” : das reacções e da própria foto em si.
Dá que pensar que defendam o “Live and Let Live”! Olha, também eu…
Num tempo de susceptibilidades e censuras várias, inclusivé do politicamente correcto. Numa sociedade que mal se sustém com meras caricaturas censuradas, óperas canceladas, emblemas futebolísticos alterados para o hemisfério sul por causa de uma cruz, ainda acham que devemos deixar passar em claro uma aberração daquelas…Mas enfim, há que saber o que se defende…
Para mim a liberdade é o supremo dos valores. É o valor mais importante na nossa sociedade. Por isso mesmo deve ser estimada. Inclusive protegida. Só existe liberdade porque existem regras, não é possível de forma alguma separar uma da outra. Acho que não tenho de explicar isto.
Se sou contra todas as burkas e ayatholas deste mundo, sou também contra todas as manifestações exteriores que mostrem a humilhação da mulher. Consentidas ou não. E não vamos entrar por aí, ou então é toda uma nova discussão que não cabe neste texto.
Resumido e para finalizar, que isto já está a ficar muito sério: se querem o chicote, as correntes e passearem-se como cãezinhos na rua, por favor: que o façam lá em vossa casa. É uma questão que pertence ao foro privado de cada um e talvez até à nossa higiene: a mental. Respeitem-na. De resto devem ser tão livres como qualquer pessoa livre desta sociedade que se quer e deve ser livre.

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:31

“que o façam lá em vossa casa.”, que curioso, esta costuma ser a frase com que são brindados os homossexuais..

Comentário de Pedro Nogueira
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:43

Ai sim. Pelos vistos estamos no ambito dos ataques gratuitos. Não vá por aí. Não tenho nada contra os homossexuais e tenho muitos amigos homossexuais. Quando se entra por aí já é sinónimo de desespero. Entra no insulto e saio da discussão e fica a escrever sozinha ou com o seu coro de apoiantes…

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:47

Não são ataques gratuitos, é uma analogia lícita porque o que está aqui em causa é ou não o respeito pela diferença em relação à chamada norma?

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 0:56

e quais são os limites no respeito pela diferença? ou não há limites? acho que é isso que está aqui em causa. eu devo rspeitar toda a diferença só porque é diferente?

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:00

Teresa, a resposta a essa pergunta é estritamente individual.

Comentário de Pedro Nogueira
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:02

Respeito as diferenças em relação á norma. Mas isso não impede que possa distinguir o que é certo do que é errado. O que é possivel do que não é possivel. Pelos vistos para si a liberdade não tem balizas: vale por si mesma. É uma entidade em si…

Comentário de Luís
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:03

Quando por liberdade se entende “fazer o que se entende do seu corpo”, estamos conversados!!! Quando a cultura da liberdade se limita à expressão física, que mais se poderá dizer!!! De facto, nesse feminismo, já nem as feministas se reconhecem!

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:04

maria joão, não é uma questão de moral e muito menos de saber qual a melhor. eu nunca vou por aí, até porque não sei. o que eu digo é que há manifestações da individualidade que temos o dever de deixar de fora do espaço que é de todos. E que a ‘ágora’ tem o direito de determinar que há expressões da individalidade humana a que não lhe cabe assistir. Sejam essas expressões de carácter sexual, religioso, filosófico, estético, ou meramente próprio de uma idade. Defendo que à escola, por exemplo, não lhe basta ser não religiosa para ser laica. Ser laico é mais do que isso. E parece-me que andar preso a uma trela não deixa de ser uma espécie de fundamentalismo.

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:05

individual? o tipo que vai na auto estrada ao contrário, só porque é diferente, merece ser respeitado?
sim, estou a levar as diferenças ao limite, mas continuo a perguntar - onde está esse limite?

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:10

“o tipo que vai na auto estrada ao contrário, só porque é diferente, merece ser respeitado?”, é um mau exemplo, Teresa porque esse comportamento colide com a segurança dos outros.

Alexandra, aí está a linha que nos separa, para mim basta-me uma escola que não seja religiosa nem ostente qualquer símbolo de pertença.

Luís, “não só mas também” são umas conjunções (as tais kinky que referi há dias) que vêm mesmo a calhar.

Pedro, o seus certo e errado não são universais. É uma chatice, eu sei, mas é assim.

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:13

a segurança, neste caso física, é um valor por todos aceite e que restringe o direito à diferença. há mais algum, maria joão?

Comentário de Nuno Góis
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:14

Maria João, para além de não me ter respondido a tudo, o que é cobardia, pois é o meu post que ataca gratuitamente, constacto também que a falange de apoiantes que tinha ao início se foi dissipando e com ela a sua pseudo-confiança em nome da sua pseudo-liberdade ou dessa liberdade que nem você própria consegue explicar. E constacto isto com uma facilidade gritante: A Teresa fica não sei quanto tempo à espera de resposta que não tem, acabando por ter uma respostazinha de uma fragilidade gritante. Quanto à sua resposta ao Pedro Nogueira é também indiscritivel e mostra que o seu nível é baixo de mais para o que tenta defender.
Atacar gratuitamente foi fácil, com os amiguinhos mais fácil ainda, mas responda às pertinentes questões que lhe são colocadas e se se der ao trabalho tente responder-se a si própria. Mas não se esqueça de descer à terra… E pense bem se a liberdade tem limites ou não sem que seja preciso fazermos um desenho.
Obrigado

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:16

mas já agora vamos ao outro exemplo, porque não andar nu na rua? sim, é uma ofensa ao pudor, mas onde passa a linha desse pudor? até onde se pode ir?

Comentário de Pedro Nogueira
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:20

Acha mesmo. Ainda não respondeu á questão das balizas… Fique lá com a sua liberdade ilimitada…

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:21

No relacionamento entre duas pessoas, adultas, livres e conscientes todos os comportamentos me merecem o mesmo respeito.

Caro Nuno, não passo a vida ao pc, sabe? Se a Teresa ficou não sei quanto tempo à espera de resposta minha por esse motivo que quer que lhe diga?

Qto às suas perguntas que ficaram por responder… está a referir-se à violência doméstica? Pois se assim é digo-lhe que volte a ler o meu post, nele fica bem claro que estou a falar de mulheres (ou homens) livres, isto é, não sujeitos a nenhum tipo de coação material, social, etc..logo a comparação não faz sentido.

Porque é que a analogia que usei para responder ao Pedro é indescritível e de baixo nível? ainda não percebi, garanto-lhe.

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:24

Teresa, se o enquadramento legal contempla o atentado ao pudor estamos noutro tipo de situação

Pedro, estava a responder às “balizas” quando o seu comentário entrou. Como já deve ter percebido no relacionamento entre duas pessoas adultas, blá blá blá, TODOS os comportamentos me merecem o mesmo respeito (naturalmente acho muitos bizarros, mas não é problema meu).

Comentário de Luís
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:29

De facto, este “debate” mostra bem como caímos na armadilha dos limites da liberdade individual: quem os define: a lei? o estado? os valores da maioria?
Ao olhar para a fotografia e a notícia em apreço, a pergunta que me surgiu foi esta: mas a lberdade não é a possibilidade de amar? Viver preso ou “pendurado” a alguém será a expressão de uma liberdade madura?

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:29

Maria joão,

eu não me queixei de estar à espera, que também não tenho o pc como outro membro…

mesmo no relacionamento entre duas pessoas adultas, livres e conscientes, há comportamentos que não me merecem respeito, como a mutilação, mesmo que por mútuo acordo. mas estamos a falar de comportamentos em público, que foi essa a questão desde início. deveremos aceitar que se passeiem seres humanos por uma trela se isso for estéticamente justificado?

Comentário de cfa
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:35

Estebelecer um paralelismo entre o direito a esta patetice sair à rua e os direitos dos homossexuais diz coisas assustadoras sobre si, Maria João.

Comentário de Carlos Pedro
Data: 26 Fevereiro 2008, 1:56

” Live and let live continua a ser assim tão difícil de entender?”

Parece-me que sim. Por exemplo, a autora continua a não entender o direito da Arriva a seleccionar os seus clientes. Estejam vestidos assim ou assado, com trela ou sem trela.

Eu não vejo problema algum em que o casal se passei naqueles termos na rua (atendado ao pudor? Dificilmente…), mas por que raio os legitimos proprietários da camioneta (ou de um táxi, ou de um salão de chá, ou o reitor de uma escola) devem ser obrigados a transportá-los, isso já me escapa.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:00

ó cristina, pá. a joão não estabeleceu ‘paralelismo’ nenhum entre ‘esta patetice’ e os direitos dos homossexuais — que eu visse e lesse. estabeleceu um paralelismo entre uma frase usada por um dos comentadores para esta situação e as que costumam ser usadas em relação a homossexuais.

mas já agora chamo a atenção dos presentes para o facto de o rapaz estar todo encasacado e a moça bastante al aire. ainda não vi ninguém discutir isto. será que ela não tem frio? é legítimo um gajo andar todo encasacado com uma rapariga assim descapotável pela rua (a ajuizar pela foto, não está sequer sol)? se ela quiser ir a casa buscar um casaco ele solta-a?

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:06

maria joão, o pudor, que não considero que esteja a ser aqui violado, é um bem jurídico que limita o direito à diferença, ou a algumas delas. tal como a segurança, ou a ética, ou até a estética. o que quero saber é se considera que o direito à diferença é um bem que se sobrepôe a todos os outros ou, não o sendo, por onde está limitado.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:07

Começando pelo fim…
«“que o façam lá em vossa casa.”, que curioso, esta costuma ser a frase com que são brindados os homossexuais..» este foi o paralelismo, cfa.

“deveremos aceitar que se passeiem seres humanos por uma trela se isso for estéticamente justificado?” diz a Teresa e eu relembro - e acrescento - uma pequena frase do texto, atribuida à rapariga «… c’est (…) mon choix.»

Comentário de Nuno Góis
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:09

A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro.

Sem o respeito por esta máxima não existe liberdade.

E por mim basta, que eu não passo mesmo a vida no pc.
Quanto a si Maria João leia todos estes comentários com atenção e tente reflectir um bocado.
Para despedida gostava que um dia destes visitasse o meu blogue, mas se possível com uma atitude mais construtiva. Fique certa que, à excepção de hoje e devido ao seu post, sempre que vir outros blogues mencionados é por razões positivas ou pertinentes.
Quando discordo de algo que li, seja onde for, escrevo um post meu sobre a matéria sem obrigatóriamente tentar denegrir o outro. Muito menos me aproveitarei de comentários contra outros blogues para lhes dar razão antes de ter lido algum direito de resposta do(s) visado(s). É bom ter príncipios e respeitá-los.
Até breve

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:09

maria joão : Não gosto de fundamentalismos, não gosto mesmo. E não gosto desta ditadura que é atribuir aos outros a obrigação de assitirem à felicidade que nos provoca isto ou aquilo, uma sova, uma grilheta ou outra técnica ou táctica qualquer. Muito menos na escola que não deve ostentar qualquer símbolo de pertença e que se quer não religiosa, como diz. E livre de ditaduras, acrescento eu.

Ps - já agora - e se a rapariga da fotografia fosse negra, era racismo? o racismo consentido entre adultos, é racismo? E a escola? Que deve fazer se lá dentro germinar alegremente um caso desses ?…)

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:21

estou com a f., não se pode dizer que a rapariga seja feia mas realmente vai mal agasalhada.

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:23

Ana, suponho que é médica. Se lhe pedirem para unir os dedos de forma a ficarem com o aspecto de barbatanas não o faz. por razões éticas, médicas e porque é crime. mas poderá ser também “mon choix”… continuo a perguntar, onde passa a linha?

fernanda, esqueceste-te de referir que, na linha Katie McCann, a rapariga não olha de frente para as câmaras enquando ele olha a direito, ostensivamente. Isto só pode querer dizer que ela não está à vontade ou que tem medo… (just a joke…)

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:24

em sério, agora: teresa, que limite é este? eu não vejo limite nenhum. vejo dois miúdos com vontade de chocar e de ostentar a cena deles ou aquilo que querem fazer passar pela cena deles. não vejo nenhum ilícito nem nenhuma violência. vejo, quanto muito, palermice. dão ‘um mau exemplo’? bom, é possível. não pior decerto que o dado por muitos casais tugas que por aí se vêem, com o gajo a andar 5 passos à frente da mulher. com a diferença de que neste caso me parece existir um jogo inteiramente voluntário.

parece-me, teresa, que todos os exemplos que dás não colhem. andar em contramão numa autoestrada cria perigo objectivo para os outros, além de para o próprio. andar nu na rua era, a última vez que vi, proibido, podendo até constituir um crime, se for considerado exibicionismo (pode-se discutir isto, claro).

se um ser humano quiser ser passeado por trela, que bem ou valor atinge esse comportamento/opção? vamos aqui falar da indisponibilidade, mesmo para o próprio, da alienação da sua própria dignidade (é um dos argumentos mais comummente usado para combater a legalização da prostituição)? mas será, mesmo admitindo essa indisponibilidade, que o comportamento retratado põe em causa a dignidade da rapariga?

Comentário de cfa
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:33

Sim, Fernanda e Alexandra Tavares Teles, e se ele levasse na mão um saco de plástico para apanhar os dejectos ficaríamos todos mais contentes.

Comentário de frida
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:34

cara maria joão,
que sempre me fez sentir defendida nas causas do direito à diferença. (do que faço cá em casa. é certo!)
pois agora seja de coleira ou trela , com um osso na cabeça ou uma saia de ráfia, uns brócolos nas orelhas, e já me começa a enervar tanta comparação ….
recapitulemos e voltemos a falar de indumentária. ok ??

até já f. !!

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:38

teresa, há uma enorme diferença entre considerar lícito e aceitável que uma pessoa queira ter barbatanas em vez de mãos e transformar-lhe as mãos em barbatanas. mas, correndo o risco de suscitar de novo a irritação da cristina, essa questão coloca-se em relação às operações de mudança de sexo — e de nariz, de mamas, de tudo e mais alguma coisa.

alexandra, não vejo grande paralelismo entre isto e uma sova. quanto à questão da escola, que colocaste, é mais complicada. admito que as regras específicas de uma escola, nomeadamente quando se trate de uma escola frequentada por não adultos, obstaculizem este aparato. mas muito haveria a dizer sobre isso — tenho a certeza de que em muito boa praxe já se fez alguém andar com alguém pela trela, sem que se considerasse isso mais que uma ‘brincadeira’ em que se entrou voluntariamente.

não, este não é um assunto fácil — e se a rapariga além de rapariga fosse negra a coisa ainda seria mais complicada, pelo tipo de simbolismo associado.

frida, minha linda. que bom ver-te aqui, finally.

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:44

fernanda
o que tentei perceber era exactamente qual o limite para o direito à diferença, se é que o há. o casal da foto é só o que tu disseste, mas invocar um direito à diferença como bem absoluto já me choca porque há, tem de haver, limites. fui ao extremo na segurança, no exibicionismo, no pudor, na mutilação, mas todos eles são limites. e também são limites coisas tão simples como a proibição de nalguns sítios se usarem cores berrante nas fachadas de casas.
continuo a dizer que a foto é muito história d’O e que teria difilcudades que as minhas filhas entendessem este tipo de comportamento, mas considero bem mais grave a atitude do motorista do autocarro.
e agora, quais são os limites? porque se um cidadão quiser passear na rua com uma coroa de espinhos na cabeça e sangue a escorrer pela testa tem esse direito?
desde que vi a foto pela primeira vez e que li alguns comentários mais exaltados que me lembro do Sir Paul McCartney e de como o Sir é engraçado-

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 2:59

aí está f. deste um exemplo de que me deveria ter lembrado e que é perfeito: a praxe. quando digo que à escola não lhe basta ser não religiosa para ser laica e lembrei que nem todos os fundamentalismos são religiosos estava a falar, por exemplo, das praxes, essa barbaridade. Aliàs, este post remeteu-me para a questão das escolas - e dos professores que têm que levar com casalinhos destes- porque não quero acreditar que alguém com mais de,vá lá, 25 anos, se preste, em público, a tamanha parvalheira.

Comentário de cfa
Data: 26 Fevereiro 2008, 3:03

Ao contrário do que pensas, Fernanda, esta discussão não me interessa especialmente, segui-a só pela qualidade de alguns argumentos. O que me fez escrever foi o que li e tu também leste. Se não te conhecesse diria que estás a desdramatizar. Mas, claro, seria só se não te conhecesse.

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 3:06

f, falei em sova no contexto sado-maso ( consentida e entre adultos, etc, etc) e não referindo-me a violência doméstica até porque essa é matéria que não invoco em vão…

Comentário de Carlos Pedro
Data: 26 Fevereiro 2008, 3:48

“e eu relembro - e acrescento - uma pequena frase do texto, atribuida à rapariga «… c’est (…) mon choix.»”

Mas porque não se aplica isto à empresa transportadora? A escolha quando nasce não é para todos? Só a rapariga é que pode escolher?

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 11:35

Depois de uma noite de sono deixem-me lá fazem uma espécie de ponto de ordem. Por muito incompreensível que isto seja para a maioria de nós (et oui, para mim também) estamos perante uma demonstração pública - bizarra, original, transgressora ou o que quiserem- de afecto, de relação. E aqui podemos voltar à escola, alexandra: não se estando perante um atentado ao pudor (e não vi ninguém nesta caixa de comentários afirmar isso) é lícito proibir determinadas demonstrações de afecto e outras não? Quem escolhe as “boas” e as “más”? Por muito que queiramos não escaparemos nunca à da minha moral é melhor que a tua.
Outra questão importante - e agora, ao que parece, vou ser muito monstruosa - tem a ver com marcas de discurso que vi aqui e que se aplicam na perfeição a manifestações de intolerância para com os homossexuais, sim. Para além do “façam-no em casa”, ouvi falar em “aberrações” e “Como é que eu vou explicar isto aos meus filhos?”. Passem em revista discursos preconceituosos sobre a homossexualidade e digam lá se não há semelhanças gritantes. Nenhum de nós está imune a preconceitos ou a manifestações de intolerância (ooh, como se eu não sofresse de tais maleitas), mas não nos faz mal nenhum sermos confrontados com elas.
Patetice, foi palavra muito lida por aqui… por muito patetas que me pareçam certas práticas e ou comportamentos quem sou eu para determinar que os meus é que estão certos?
E por falar em imposições, Nuno e Pedro, ainda me hão-de explicar - se estiverem para aí virados e nem precisa ser hoje - porque raio acham que têm que “acabar” com a burka? Não vos passa pela cabeça que há mulheres que escolhem, consciente e livremente, vesti-la? Acho que terão algumas surpresas se começarem a escavar esse filão.
Ah! Nuno, porque é que achou que eu o estava a denegrir? Faço exactamente o que o Nuno me recomenda, qdo discordo de algo que li e me apetece falar disso, faço-o usando os meus argumentos. Que foi o que fiz neste caso.
Carlos Pedro, como terá tido oportunidade de reparar a história do autocarro era uma questão menor no post, muito mais interessado nas indignações que andar de trela na rua provoca nos outros.
Só mais uma coisa (irrelevante), Alexandra, se é verdade que a estética gótica tem tendência a desaparecer com a idade o mesmo não se passa com as práticas SM.
Apetitosas, mas agora não tenho tempo de lá ir, são as referências ao racismo, à prostituição e à “mutilação”. Ficarão para outras núpcias

Comentário de Woman Once a Bird
Data: 26 Fevereiro 2008, 12:30

Questão complexa, de facto. Ainda assim, só para conferir algumas ingenuidades, gostaria de ver o mesmo exemplo, mas inversamente: uma mulher arrastando pelas ruas um homem de trela. Só pelo gozo de constatar as reacções…

Quanto à possibilidade de se encontrar um casal esteticamente brincalhão na escola… o dilema do professor ao chamar um ao quadro. Desatrela-se o duo? Vão os dois ao quadro? Ela pede primeiramente permissão ao companheiro? Ele pode recusar-lhe essa permissão? Que faz o professor no meio disto tudo?

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 13:03

“A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro.”, diz o Nuno, e eu pergunto onde é que a liberdade de ser passeado/a com uma trela colide com a liberdade dos outros?

Teresa, não desviando a conversa, o exemplo que dá – a cozedura dos dedos - ilustra um caso de conflito entre a “minha choix” e a “tua choix”: tu tens direito a querer e eu, que não tenho o direito de te obrigar a não querer, tenho o direito de não te o fazer.

Quanto à escola, Alexandra, e não querendo ser superficial, a verdade é que me lembrei de duas histórias – a mini-saia de Évora e o beijo das raparigas de Gaia.

Antes de terminar quero só esclarecer que não sou minimamente sensível à estética em questão nem, para ser franca, a outros aspectos subjacentes à cultura gótica (http://en.wikipedia.org/wiki/Goth_subculture)

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 13:51

Ana, mas essa era então a choix do motorista….

mas apetece-me pegar no choque da fernanda - dois miúdos com vontade de chocar… ora, isso é o que me parece também. E a tal diferença, nestes miúdos, não é a trela ao pescoço, mas a vontade de chocar. a atitude terá por eles próprios sido assumida - e já estou a esticar-me muito nas conclusões - como provocatória. isto significaria que eles usam os apetrechos não só por estética ou como afirmação de uma escolha de vida, mas como uma forma de embaraçar, chocar, provocar. E é aqui que me parece que se está a ver do fim para o príncipio. a estética é construída, de início, para chocar e depois justifica-se como uma escolha de vida. continua a ser legítimo, mas continuo a dizer que este direito de provocar usando a diferença não é absoluto, os “outros”, os alvos, têm direito a não querer ser chocados. Já não é o caso de não se aceitar a diferença, mas a própria diferença que é construída de forma a que não possa ser aceite porque essa é a finalidade dela. e isto, na minha opinião, é abusar do direito à diferença…

Toda esta atitude dos miúdos se desmonta fácilmente com o mon choix da rapariga. Se, realmente, ser submissa fosse a sua escolha de vida a resposta certa para andar a passear de trela seria sempre “son choix”…

Comentário de dr maybe
Data: 26 Fevereiro 2008, 14:42

teresa,
claro que se pode desmontar esta história dessa forma, mas não é também a natureza da adolescência e juventude a de provocar e questionar hipocrisias? e quando se vive em sociedade não se pode estar constantemente com o cuidado de não chocar, choca-se porque nos confrontamos com os outros.
ainda sobre o “mon choix”/”son choix” podia-se também discutir sobre o âmbito do que se fala. em práticas sádicas e/ou masoquistas há uma regra que é a palavra de segurança, a palavra que é dita pelo elemento submisso e/ou passivo dos actos e que representa o seu limite…

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 14:47

Parecem-me universos diferentes, Teresa, mas se insiste na comparação das actividades profissionais, acho que a comparação mais justa entre o meu papel de médica e o papel do senhor como motorista seria eu recusar-me a aceitar que a criatura entrasse na sala de consulta para avaliação da situação: isso eu não poderia fazer, não poderia dizer a ninguém, no desenrolar da minha actividade profissional, que não permitia a entrada a pessoas bizarras nem, se não fosse logo aparente a bizarria, expulsar alguém da sala de consulta por manifestar uma pretensão bizarra - recordo que o motorista disse «Les chiens ne sont pas admis, les personnes bizarres comme vous non-plus».

Só mais uma coisa, a reserva do direito de admissão existe para os transportes públicos, acho eu, mas será que contempla o “aspecto bizarro”?

Só para terminar, Teresa, estaria eu tramada se no desenrolar da minha actividade clínica excluísse as bizarrias - de aspecto, discurso, pensamento, comportamento ou outras ;-)

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 15:26

ana,

tenho feito por aqui o papel de advogada do diabo, que se excluisse as bizarrias também, profissionalmente já teria arrumado as botas e pessoalmente teria uma vida muito triste. em relação ao que se tem estado a discutir continuo a dizer que o direito à diferença não é um bem absoluto que possa justificar tudo e que a atitude do parzinho me choca. se isso faz de mim pior pessoa não sei, mas sei que lhes reconheço o direito de afirmarem a sua individualidade chocando os outros. não estou a qualificar comportamentos, mas estou seguramente a dizer que, para além de não me identificar com atitudes provocatórias gratuitas considero que há que haver limites, nem que sejam os impostos pela “cidade”, que responde às provocações defendendo-se - ou a provocação é banalizada perdendo assim o conteúdo, ou a norma instituida passa uma enorme rasteira aos provocadores e nomeia-os cavaleiros ou eles próprios vão, sem se aperceberem, e por uma questão de sobrevivência, jogando com as regras do jogo que não é o deles. Não eram os Pink Floid que no The Wall tinham uma enorme máquina picadora de carne? estes miúdos vão ser salsichas como os outros todos, mas os filhos deles cá estarão para novas provocações , eles irão sentir-se provocados e o equilibrio social mantém-se…

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 16:24

maria joão - as práticas SM não desaparem com a idade mas seja em que idade se pratiquem não me parece que tenham cabimento em público. O direito que temos a preservar a nossa privacidade é exactamente proporcional ao dever que temos de poupar os outros às nossas intimidades.
ana - a mini-saia de évora ou o beijo de gaia não me parecem sinceramente exemplos semelhantes e de qualquer um deles só vem bem ao mundo. que haja sempre muitas mini-saias e muitos beijos nas escolas. já o caso deste casal parece-me uma caixinha de más surpresas porque não estamos a falar apenas de aspecto bizarro (a rapariga não trás uma trela ao pescoço como se fosse um colar) mas de uma atitude ( a rapariga é puxada por uma trela como se fosse um animal). Pode não passar de uma simples provocação mas pode tornar-se muito mais do que isso. Já dei ontem este exemplo - e se a a miúda fosse negra, era racismo? vamos aceitar o racismo consentido entre dois jovens adultos, e permitir esse racismo nas escolas ou nos autocarros, à espera que passe com a idade? Ou vamos aceitar apenas se a rapariga for branca e ficar chocados se ela for negra? por exemplo…

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 26 Fevereiro 2008, 16:40

maria joão - (sobre as ‘boas’ e ‘más’ demonstrações de afecto) então as praxes não são justificadas como um ritual de iniciação que visa, dizem eles, a criação de laços cumplices e afectivos? É dada pelos que a praticam como uma manifestação de afectividade que deve deixar o caloiro honrado porque há um dia em que é o alvo da atenção. Concorda com as praxes dentro das escolas, como prática institucionalizada só porque há alguns que aceitam ser praxados? Eu não.

Comentário de Maria João Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 16:47

Alexandra, agora não posso mesmo ficar por aqui mas só queria deixar-lhe este minúsculo comentário: as praxes não fazem sentido serem metidas nesta guerra porque aí há, quer queiramos quer não, a coação (sentida ou não) do grupo.

Comentário de Algarviu
Data: 26 Fevereiro 2008, 17:05

Enfim… Dois imbecis com ar de atraso mental agravado resolvem acorrentar-se (ela, a acorrentada… - bem observado, Women Once a Bird) e bate-se o record de comentário desta semana: 74, com o meu 75! Bravo!

Comentário de abrasivo
Data: 26 Fevereiro 2008, 19:19

Curtidos. Mesmo.
Já pensaram em enviar-lhes todos estes comentários?
E se o fizerem em dia de sol? E em dia de chuva? A pé? E de autocarro? E nus? E vestidos? E só com as calças? Ou com a saia? E se der vento? E se não der?
Por mim, tudo bem. Desde que sejam todos muito felizes!

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 19:39

ok. tirei a prova dos nove. mostrei a foto à minha filha mais nova, dez anos, e perguntei se achava certo ou errado andarem assim na rua.
- aquilo é uma coleira?
- é
- humm…
- e?
- depende…
- de?
- se a rapariga não se importar, qual é o problema?

e afinal estava eu preocupada em como explicar… vou baralhar tudo e dar de novo, que errada estava eu!

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 20:55

Bingo, Teresa! Bem que eu a tinha avisado ontem (Por isso, Teresa, vai na volta e não tem que explicar nada às raparigas eheh) nha,nha,nha ;-)

Comentário de teresa
Data: 26 Fevereiro 2008, 21:22

e o que eu fico contente quando a gaijinha me dá uma resposta assim? pelos vistos, apesar de não ter deixado completamente de me armar em galinha, até tenho explicado tudo muito bem…

Comentário de Sérgio Pinto
Data: 26 Fevereiro 2008, 22:09

O ponto que eu queria abordar relaciona-se também com a existência/inexistência de limites, mas alargado a um âmbito um bocado diferente.

Há não muito tempo, por exemplo, houve umas mentes peregrinas lá para os lados da Juventude Popular que defenderam a abolição do salário mínimo porque, entre outras coisas, impedia quem estava disposto a trabalhar por menos de arranjar emprego. Não concordo com o argumento e não nutro a mínima simpatia pela JP, mas será razoável concluir que entre 500.000 desempregados, isso será verdade para alguns. O mesmo tipo de argumento se poderia estender a aspectos relacionados com a segurança laboral, número de horas semanais, etc. No fundo, o que os neoliberais/fundamentalistas de mercado (com quem nunca devo ter concordado) preconizam é precisamente a ausência de regras, em parte porque vêem o Estado como opressor. Sob o prisma aqui defendido da liberdade sem limite, a coerência não obrigaria à defesa da abolição de todas estas regulamentações, deixando tudo entregue à ‘liberdade’ e ‘bondade’ do mercado?

(Sim, eu sei que isto não vai directamente ao encontro do assunto do casal da trela. Podem dizer que eu ando um bocado alucinado e a misturar coisas que nada têm a ver, mas de qq forma gostaria de ter resposta a estas minhas dúvidas. E também porque me parece que, gostemos ou não, em última análise temos variadíssimas limitações à nossa liberdade.)

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 Fevereiro 2008, 22:55

Alexandra, não tinha reparado na sua interpelação. Cá vai, então.

Diz a Alexandra que da mini-saia de Évora ou do beijo de Gaia “só vem bem ao mundo”. Essa é a sua opinião, e a minha, mas há muita gente que não partilha esta nossa posição. E sim, concordo que não estamos a falar só de aspecto – mas também estamos, foi o primeiro impacto para o motorista e a justificação que deu, referiu “pessoas bizarras” –, também está em causa uma atitude - bizarra, anormal porque fora da norma, mas escolhida - agora não me parece que a mocinha esteja a ser “puxada”, não vejo qualquer tensão na corrente, melhor será “levada”.

“e se a miúda fosse negra, era racismo?” Para mim não, mas assumo que poderia ser lido dessa maneira, numa posição racista à partida, digo eu: mulher preta com trela levada por homem branco, logo racismo (esclareço que também acho uma forma de racismo inibirmo-nos de chamar estúpido a um negro que é, de facto, estúpido, só porque é negro). Em que está a pensar quando refere “racismo consentido entre dois jovens adultos”, Alexandra?

Comentário de alexandra tavares teles
Data: 27 Fevereiro 2008, 1:04

boa noite, ana. estou a pensar em alguém que eventualmente consinta e possa até ter prazer em ser mal tratador por ser de uma determinada raça. há tantas fantasias. imagine uma revisitação esclavagista…

Comentário de Maria João Pires
Data: 27 Fevereiro 2008, 12:59

Sérgio, dificilmente estaremos em presença de “iguais” numa relação patrão/empregado, o que, desde logo, a distingue desta situação.

Comentário de Pedro Nogueira
Data: 27 Fevereiro 2008, 17:19

Não respondi ao que foi escrito a seguir ao meu ultimo comentário. Acho que não merecia resposta. Mas enfim. Eu até tenho (porque já fui) mentalidade punk rock.Gosto da leveza,da atitude e da forma como no punk se fazem e dizem as coisas. Ainda mais a espontaneidade. Mas aqui o que pode ser defendido em relação á atitude daquele casal acho pura estupidez, em minha opinião. Que também vale o que vale. Mas enfim. Gostava de não voltar a tocar no assunto e gostava também que não me atacassem gratuitamente como o fizeram em relação aos homossexuais. Isso denota não só insegurança, como também intinto felino de apanhar ali qualquer coisa. Admito e respeito discordancias, mas sem batotas…

Pingback de Study Case « perspectivas
Data: 27 Fevereiro 2008, 17:54

[...] se pode ler aqui, há quem defenda que cada um deve ter a liberdade de fazer o que quiser com o seu corpo, e [...]

Comentário de Quintanilha
Data: 27 Fevereiro 2008, 20:01

Será para não lhe a foderem?

Comentário de Maria João Pires
Data: 27 Fevereiro 2008, 20:19

Pedro, tente fazer um exercício de auto-crítica ou de auto-análise e vai ver que não custa muito. Sei que não é muito fácil sermos confrontados com os nossos preconceitos, ainda para mais quando vivemos na ilusão de que os não temos, mas faz-nos bem, garanto-lhe. Faça o inventário de tudo o que escreveu nestes dias sobre o tema e veja lá se os seus argumentos não se limitaram a achar que este comportamento do casal gótico (ou o uso da burka) não devem ser tolerados porque não estão certos… de acordo com o seu sistema de valores. Ainda lhe dou mais um conselho, releia o que escreveu, sim, estou a falar de “fazer coisas em casa” e “aberrações” e, sem filtros de auto-complacência, veja lá se não lhe soa a um discurso que, noutros contextos, acharia repugnante. Ah! já agora, não há só uma minoria erótica no mundo, sabe?

Comentário de Yana
Data: 29 Fevereiro 2008, 3:37

bem… se há coisa que existe na “cultura gótica” é coaccção de grupo, e bem sentida, sobre as raparigas para serem submissas aos seus “homens”. Ainda assim, só entra no jogo quem quer e quem lhe ache piada (de lembrar que o meio gotico e o sado-maso costumam flirtar um com o outro). Quanto ao casalinho, o que a maior parte das pessoas aqui não percebe é que aquilo é um role play, e que eles chegam a casa e ficam horas a rir das reaccções que provocaram ao longo do dia. Quanto ao senhor motorista, não me parece que ele tenha ficado “chocado”, mas apenas quiz ser sacana e ofendê-los publicamente recorrendo à sua pretensa autoridade como motorista… é só isto… parem de complicar…. :P

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