Grandes liberais e pequenos vigaristas (2)

Não há nenhuma reacção especial a registar na blogosfera ao meu texto Grandes liberais e pequenos vigaristas. No Blasfémias, Carlos Abreu Amorim bem se enrola em argumentação da “teoria liberal”, mas não consegue refutar um facto simples: a liberdade do consumidor fica salvaguardada retirando-se por completo o couvert da mesa. Qualquer couvert colocado a priori significa uma coacção. Tal como na questão do tabaco, Carlos Abreu Amorim só se preocupa com a liberdade dos donos dos restaurantes. Eu preocupo-me com os consumidores.

Bem mais interessantes foram as discussões nas caixas de comentários. Aqui no Cinco Dias o estimado Dorean Paxorales lembrou que  

Por exemplo, o português que visita o R.U. ou os E.U.A. também não sabe que há um custo adicional à refeição: é a gorjeta obrigatória que vai pagar o salário ao empregado. Parece-me um hábito mais vigarista pois, acabada a comezaima, já não se pode mandar nada para trás. E ainda por cima é contemporizador de uma filosofia contratual que me parece injusta. 

Devo esclarecer que estou completamente de acordo com o Dorean na sua apreciação ao sistema de gorjetas nos países anglo-saxónicos, algo que me incomoda bastante. Mas há uma diferença importante em relação ao caso português: o sistema é sempre o mesmo. O cliente pode sentir-se surpreendido na primeira vez, mas a partir daí já sabe sempre com o que conta. Pode sentir-se então revoltado (como eu me sentia nos EUA), mas nunca mais se sente enganado. A lei é a mesma, provavelmente estabelecida pelo governo central (estadual, nos EUA). Na pátria do liberalismo!Já em Portugal a regra varia de restaurante para restaurante: há os que só colocam pão e manteiga, e há os que colocam queijo, presunto e entradas mais caras. Há os que, honestamente, só cobram os bens consumidos, e há os que cobram um misterioso “couvert” onde cabe tudo, tenha sido consumido ou não. Há diferentes procedimentos perante a mesma lei, pelo que se justifica a intervenção do governo. 

Por sua vez no Blasfémias o João Miranda, nos comentários, aprofunda a questão, e expõe-nos o seu ponto de vista: 

O erro de muitas análises é que o couvert é um serviço, não é um produto. O cliente paga pela experiência de estar no restaurante, incluino pela tradição do couvert. A experiência do couvert não é igual se for opting in ou opting out. O valor para o cliente não é o mesmo. O custo para o restaurante também não. Logo, proibir o couvert com opting out impediria que essa experiência específica pudesse ser comprada por quem a quiser comprar. 

Acho estranho como os restaurantes fora de Portugal nunca descobriram essa espantosa ideia de que o couvert é um serviço, e não um produto. Sendo assim, por que é que o João Miranda não explora esse inexplicável nicho do mercado? Sugiro-lhe que abra uma cadeia de restaurantes em Londres, Paris e Nova Iorque com o lema “o nosso couvert não é um produto – é um serviço!”, e que coloquem as entradas sempre na mesa sem os clientes as pedirem. Estou certo de que fará sucesso. Força, João, mostra-nos o teu empreendedorismo! Mostra-nos de que é feito um liberal português!

Qualquer mecanismo que permita aos restaurantes distinguir clientes que valorizam pouco um serviço dos clientes que o valorizam muito contribui para a eficiência económica.

O próprio João reconhece que deve haver sempre a liberdade de recusar o couvert por parte do cliente. No meu modelo, o couvert só vem para a mesa se for pedido (senão, não há trabalho nenhum). No modelo do João, se o cliente quiser legitimamente recusar as entradas, há um duplo trabalho desperdiçado: o de pôr as entradas na mesa e o de as retirar. Qual é o modelo mais eficiente? (Nem falemos por agora das questões de higiene básica.)

O mesmo para mecanismos que permitam distinguir clientes ricos de pobres. O couvert desempenha essa função. Só aqueles que não valorizam o serviço ou que têm pouco dinheiro é que recusam o couvert. Os outros pagam. A mesma lógica aplica-se aos vinhos, à sobremesa e à gorjeta. Todas estas instituições permitem que os restaurantes cobrem pelo serviço preços diferentes a clientes diferentes.

Aqui temos uma divergência importante. É evidente que aceito que deve haver restaurantes diferentes, com categorias diferentes, serviços diferentes, clientes-alvo diferentes e preços diferentes. Mas a diferenciação social deve terminar aqui, na escolha de um restaurante. A partir do momento em que entro num restaurante que escolhi (e desde que tenha meios de pagar a conta), sou um cliente como os outros. Não aceito ser tratado como um cliente de segunda só porque não quero consumir entradas (ou porque tenho as mãos todas cagadas). Um admirador do liberalismo como o João Miranda dará conta de quão anti-americano é o que ele defende? Não tarda nada e temos o João Miranda a defender o “direito de admissão” (em nome da liberdade, claro).

Já agora, é uma ilusão pensar que quando se paga o couvert se paga o que se comeu no couvert. Os restaurantes vendem essencialmente serviços e não produtos. O que se paga no couvert é o serviço. Se o couvert fosse proibido, o preço do resto da refeição teria que subir para pagar o serviço.

Daqui se conclui que o couvert deve sempre ser cobrado, senão o restaurante tem prejuízo (caso contrário, o couvert só reflectiria o que se comeu, ao contrário do que o João afirma). É claro que reflectir este custo do serviço no preço da refeição, como se faz em todos os outros países (e não artificialmente no couvert), mesmo que aumentasse um pouco este preço, seria muito mais honesto e transparente. Mas transparência é algo a que os comerciantes portugueses são alérgicos. Pela desfaçatez com que esta posição é aqui defendida (e subscrita por outros comentadores), sou mesmo obrigado a concluir que estamos cheios de pequenos vigaristas. Que os nossos grandes liberais fazem questão de proteger e preservar.

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