SOBRE UM DEBATE EM COIMBRA (OU NO PAÍS?)

 

SOBRE UM DEBATE EM COIMBRA (OU NO PAÍS?)

 

AUTOR: José Manuel Pureza

Há um Presidente de Câmara que diz que nunca se investiu tanto em cultura porque há obras na calha para um centro de congressos e está para abrir um teatro que está pronto há mais de três anos. Há um vereador da cultura que reclama nos jornais que os protocolos com agentes culturais lhe custam “uma pipa de massa”. E há gente que não se fica e vem à rua dizer que isto é uma vergonha. “É amiguismo”, reage o Presidente, “querem é subsídios para os amigos”.

Há amigos da cultura, sim senhor. A tal ponto que se põem a imaginar, em vozes plurais, onde os leva essa amizade. Como pode a cultura ser motor do desenvolvimento das cidades?, tão simples como isto. Que papel terá a cultura na cidade prometida e como o vamos materializando na cidade concreta? 

Pensarmos isto em Coimbra é pensarmos o país e percebermos, magoados, como somos tão pouco europeus: desde a total ausência de uma rede de cidades médias substituída por uma bipolarização territorial que eucaliptiza o país, até à natureza avulsa da intervenção pública (central e autárquica) no domínio cultural, passando pelo desbaratar aviltante de capital instalado na diferenciação (cultural, claro) das concentrações urbanas ou pela repetição preguiçosa da ladainha do pecado da subsidiodependência – tudo nos mostra que a Europa está desgraçadamente longe daqui.

Pensarmos isto é também interrogarmos o desenvolvimento que temos. É reclamarmos que o lugar da cultura não é “um” lugar, acantonado e insular, nesse desenvolvimento mas os lugares todos, aqueles em que a sociedade respira, se revitaliza e se transforma a cada momento (não é isto o desenvolvimento?). É percebermos que a criatividade é a irmã gémea dessa respiração colectiva, mas que criatividade sem estratégia é fogo fátuo. É, enfim, darmos rosto político à consciência de que verdadeiramente é a cultura a única possibilidade de pôr o travão da solidez à deriva de liquefacção que marca crescentemente a nossa esfera pública.

 Não sei se os “Amigos da Cultura” (www.amigosdacultura2008.blogspot.com), em Coimbra e no país, conseguirão impor como inevitável nas próximas eleições locais o slogan “It’s culture,stupid!”. Mas, diante da grandeza das tarefas que este debate nos exige, respira-se por aqui um irreprimível “Yes, we can!” 

Sobre Joana Amaral Dias

QUARTA | Joana Amaral Dias
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17 respostas a SOBRE UM DEBATE EM COIMBRA (OU NO PAÍS?)

  1. Luís Lavoura diz:

    “Como pode a cultura ser motor do desenvolvimento das cidades?”

    Eu diria: subsídios das autarquias locais como motor de desenvolvimento das cidades.

    Francamente, tenho dificuldade em conceber que subsídios, sejam eles do Estado ou das autarquias, possam ser um motor de desenvolvimento. Eu diria antes que são uma forma de tirar dinheiro a uns para o dar a outros.

    “a total ausência de uma rede de cidades médias”

    Isto é grosseiramente falso. Se há coisa que distingue o Portugal dos últimos dois decénios é precisamente o crescimento e fortalecimento de muitas cidades médias que antes não passavem de umas vilas grandes. E já hoje em muitas dessas cidades médias há uma oferta cultural não desprezível.

    “bipolarização territorial”

    José Manuel Pureza está a confundir o Portugal de hoje com o Portugal dos anos 60 e 70 – um erro muito comum nos nossos políticos, que pensam, quase reflexivamente, que o país é sempre aquele que eles conheceram na sua juventude. Bipolarização territorial era o que havia quando José Manuel Pureza era um jovem imberbe. Hoje, cada vez há menos.

  2. ezequiel diz:

    “Como pode a cultura ser motor do desenvolvimento das cidades?”

    gostava mesmo que o Sr. Pureza tivesse respondido a esta pergunta. Faz a pergunta mas depois perde-se em considerações abstractas sobre a criatividade e a ausência de uma estratégia etc etc. Explique-se Sr. Prof!!

    Em Portugal as elites bem pensantes falam em “cultura” como se todos nós tivéssemos chegado a um consenso alargado sobre o significado do conceito. Na minha modesta (uuhh?) opinião comprar uma bica e mandar uma boca ao imbecil do empregado (Mal educado, uma besta!) que me está a servir o café é um acto cultural.

    É isto mesmo Ana (Matos Pires ou terá sido o Rui, refiro-me ao artigo sobre a ausência de estratégia)…somos todos uns líricos…eu concordo com a ideia central do Sr Pureza…mas preferiria saber o que é que ele tem para PROPOR de concreto (se já o fez, noutros fóruns, as minhas desculpas pela minha ignorância)

  3. ezequiel diz:

    Mas, cara Joana (nunca li uma respostazinha desta criatura :)) o que eu tenho, tenho mesmo, são muitas saudades daqueles teus textos fantásticos à l`enfant terrible…Nunca mais escreveste! 🙁 (bem, não tenho nada a ver com isso, deveria estar “calado”)

  4. Luis Rainha diz:

    Ezequiel,
    Partindo do princípio de que gostas do Bauman, já leste a introdução que ele fez à nova edição do “Culture as Praxis”? A sua leitura evitaria muitos textos como este…

  5. José Manuel Pureza diz:

    Luis Lavoura

    O país do aeroporto regional de Lisboa em Alcochete não foi o que eu conheci quando era um jovem imberbe. E não se engane: haver cidades médias não equivale a haver uma rede de cidades médias. Sabe tão bem quanto eu que as cidades médias do país estão hoje, e cada vez mais, engolidas em dinâmicas de afirmação das duas grandes áreas urbanas do país (Aveiro ou Braga integram a grande área urbana do Porto e Setúbal, Santarém ou Évora fazem parte da dinâmica urbana de Lisboa). Não é isto bipolarização territorial?

  6. ezequiel diz:

    Sim, gosto do Sr. Zygmunt Bauman…sempre gostei…fiquei apaixonado pelas ideias do velhote quando andava a estudar o leste europeu…ele escreveu um “seminal article” no Social Research onde explicava a condição “liminal”, um conceito a que recorro frequentemente! Mas nunca li o Culture as Praxis, infelizmente. Obrigado Luís.

    Ele, Claus Offe e Piotr Sztompka são 3 dos mais interessantes artesãos da sociologia (filosófica) contemporânea! But it is not my forte!

  7. ezequiel diz:

    “yes, we have no bananas…la-la-la… we have no bananas today…”

  8. ezequiel diz:

    mencionar as bananas é uma forma de dizer: Será que V. Exa poderia responder à perguntinha? Mas, noops. O que é que custa dar uma explicaçãozinha online?? Nada. Mexe-me com los nervales, sorry.

  9. CARLOS CLARA diz:

    A cultura, é certo que tem alguns contornos e vontades por vezes bastante alheias. Contudo, quando existe ela revela-se de forma natural. É na educação que o seu valor é acrescido. O processo, torna-se mais lento nas sociedades menos eruditas. Cultura, por cultura eu não conheço. Também não é com a tendência da “tábula rasa”, tão frequência em alguns meandros que se vai a algum lado. Isso serve apenas os oportunistas.

  10. José Manuel Pureza diz:

    Ezequiel
    Desculpe ter tardado na resposta. Divido a minha resposta em dois pontos. Em primeiro lugar, as actividades de criação artística ocupam um relevo crescente, em percentagem do PIB, seja em número de empregos seja em capacidade de atracção de gente qualificada, etc. Quer dizer, é substância económica não desprezível e deve fazer parte das equações de política de sdesenvolvimento no seu sentido mais restrito. Em segundo lugar, é evidentemente de uma acepção mais ampla de desenvolvimento que estou a falar. E por isso valorizo a capacidade única das actividades culturais para fazer evoluir as identidades, para formar consciências vivas, críticas, cosmopolitas e tolerantes e para armar os cidadãos contra a sedução da repetição dos valores em cada momento dominantes. Sem isto não há desenvolvimento completo, em meu entender.
    Como vê, não é arrogância de elite bem-pensante, mas apenas hipótese de reflexão à procura de interlocutores. Como foi o seu caso, e ainda bem.

  11. ezequiel diz:

    Caro José Manuel,

    Muito obrigado pela resposta.

    Agora que percebi que se referia às “actividades de criação artistica” posso dizer, sem hesitação: FANTÁSTICO.

    Concordo completamente. Este é um dos nossos grandes fortes. Sempre foi.

    melhores cumprimentos, ezequiel

  12. ezequiel diz:

    Caro José Manuel.

    regressei agora e vim aqui reler o que escreveu
    se me permite, gostaria de submeter algumas considerações à sua apreciação

    primeiro: concordo consigo quando afirma que as actividades de criação artística tem vindo a ocupar uma posição de relevo no sistema económico…a seguir diz que esta crescente importância justifica que estas actividades fazam parte das “equações de política de desenvolvimento” ( o que implica, naturalmente, que as actividades criativas estarão sujeitas, pela via das relações institucionais que se estabelecem neste tipo de coisa, a uma temporalidade que lhes é estranha: a temporalidade político-burocrática, que, convenhamos, não conhece a classe criativa, não sabe como funciona, não consegue acompanhar o seu ritmo…a lista poderia continuar, mas isto basta como ilustração, por assim dizer)

    Hoje, as revoluções tecnológicas (profundas mas silenciosas) introduziram ritmos temporais que não são compatíveis com os longos processos pol-burocráticos. Repare: a possibilidade da integração das actividades criativas num plano de acção governamental-estatal (as políticas de desenvolvimento) assenta no pressuposto, a meu ver erróneo, que é possível formalizar – teoricamente – as actividades criativas (non sequitur). O “sentido mais restrito” não alivia a situação. Podemos dizer que este é um prob estrutural.

    Quanto à valorização das actividades culturais. Quem é que não as valoriza? Mas transformá-las em instrumentos de política pública não só parece-me um absurdo. Parece-me tautológico. “Armar os cidadãos” com aquilo que eles já tem!

    Todo este raciocínio (o seu) emana de uma inversão curiosa: o social é transformado em plano. Eu sou a favor de vários intervencionismos, nas artes etc, mas não compartilho este seu fervor administrativo. Em suma, os criativos não querem ter que lidar com burocratas chatos nem com pessoas que querem administrar politicamente aquilo que eles fazem…Além disso, vendo as coisas de um ponto de vista sistémico-democrático, agrada-me a ideia de uma classe criativa que desenvolve capacidades reais de sustentação…o que lhes dá…autonomia reflexiva e, claro, condições reais que permitam a crítica, aquele elixir abençoado do liberalismo Milleano.

    Eu escolheria a educação…um determinado tipo de educação…como meio de política pública….de pequenino é que se torce o pepino…lá diz o ditado popular. Mas este é outro debate. Apenas queria mencionar a incongruência techcriative-politicalburo (no sentido de politburo eh ehe eh 🙂

    Muito agradecido por ter respondido à minha interpelação. Já li alguns papers seus. Gostei muito de os ler, apesar de muitas vezes não concordar com os seus argumentos.

    Cumprimentos, ezequiel

  13. Luis Rainha diz:

    Ezequiel, há uma resposta com três palavras apenas às tuas angústias: “Guggenheim de Bilbao”. Lembras-te?

    E esse óbice da “temporalidade” parece-me um pouco picuinhas: bastará para invalidar qualquer tentativa de dinamização da actividade artística por parte de entidades estatais? Não me parece. Os prémios literários também impõem prazos e não consta que o constrangimento sobre os autores seja razão para acabar com eles (os prémios, não os escritores)…

    Não vejo o fatalismo de a “valorização das actividades culturais” desaguar em tautologia: não é o mesmo uma cidade ter um bom espectáculo de teatro numa cave infecto-contagiosa com capacidade para uma dúzia de espectadores ou num teatro (municipal, p.ex.) de capacidade média. A tal cidade já tinha o activo mas não a forma de dele usufruir. E exemplos assim poderiam ser multiplicados ad nauseam.

    Por outro lado, exigir “capacidades reais de sustentação” aos artistas é bonito; mas em alguns campos é quase impossível (não imagino alguém a tornar-se num excelente violinista nos intervalos laborais do McDonald’s) e resultará quase sempre numa produção mais curta do que o possível. Quem perde? Escritores, músicos, pintores, etc. Mas também todos nós: só por exemplo, não seria bom se o tamanho do nosso mercado nos permitisse ter mais escritores em full time? (isto não é, repito, não é um apelo à distribuição de bolsas a todo o candidato a escrevinhador).

  14. José Manuel Pureza diz:

    Ezequiel, há uma evidente tensão entre criação e programação estratégica, claro que sim. Mas é isso: tensão, e não oposição. Afirmei no meu post que criatividade sem estratégia é fogo fátuo. E estou convencido de que o é, sobretudo na perspectiva de quem (os poderes públicos) tem a responsabilidade de prover os bens públicos essenciais para a fruição de todos. Na minha compreensão da democracia, o poder público está vinculado, no seu contrato com os cidadãos, a criar as condições para um exercício efectivo dos direitos de todos. Ora, é isto fervor administrativo? Não, é simplesmente a afirmação do primado de uma cultura de direitos (de todos), por oposição a uma lógica de negócio (de alguns).

  15. ezequiel diz:

    José Manuel,

    eu tb acredito que o estado deve “criar condições”…

    Sim, uma “tensão” não menos problemática (do que a oposição)…se nos dermos ao cuidado de explorar a sua natureza de forma mais precisa

    todos nós temos a responsabilidade de contribuir para as tais condições…

    os bens públicos essenciais JÁ existem antes da intervenção do estado

    na segunda escrevo um post sobre este assunto, que terá o seu texto&comentários como background…até lá.

    espero que apareça por cá para continuarmos esta interessante conversa.
    um bom fim de semana,
    ezequiel

  16. ezequiel diz:

    Caro Luís

    desculpa.

    tentarei responder aos teus comentários na segunda.
    bom fim de semana
    ezequiel

  17. mariana diz:

    de facto é muito engraçado sentarmo-nos todos numa mesa e vamos la falar sobre estes assuntos que cada um tem direito a sua opiniao.o pior é quando essa discussao é observada por milhares de pessoas e os argumentos apontados sao falsos.eu pergunto à espertalhona joana se por acaso faz ideia de que todas as pessoas a quem, como se referiu, fazem falta os 10 centimos, estao isentas de taxas?! é que é realmente ridiculo como é capaz de falar com a maior das certezas de assuntos que desconhece por COMPLETO. porque ler letras grossas de jornais, vir a net ver qualquer coisa que diz ‘aumento das taxas moderadoras’ nao chega para opinar dessa forma. foi ridicula a sua postura, nao so nesse tema, mas enfim esse tocou-me particularmente pelas parvoices que proferiu sem saber minimamente que todas as pessoas com devido direito estao isentos no sistema nacional de saude

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