Censuras a metro

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Não sei bem onde começou a coisa. Não foi nas noticias que li sobre a expulsão da Vénus de Cranach do Metro de Londres. Mas agora já parece certo, pelo menos a fazer fé na prosa inflamada do Blasfemo CAA. O cartaz foi proibido não por uma hiper-sensibilidade à sensibilidade alheia, nem em obediência às regras de afixação de publicidade nas paredes do Tube. Ná. «O Metro londrino pretendia “não chocar os utentes”, protegendo os seus clientes muçulmanos da visão ‘pecaminosa’ da nudez feminina» (negrito meu). E pronto. Se saiu assim no CM, deve ser verdade.

Nem vou discutir intenções para mim opacas. Parece-me apenas que muita gente se poderia chocar com o nu da lasciva senhora — do Bin Laden à minha avó. Mas está já aí o novo interdito: um cartaz da peça Fat Christ foi também proibido de circular em tão pudicos túneis. Por cá, o lindo reclame do menino a usar uma máquina de lavar roupa à laia de sanita também saiu do ar, talvez afugentado pela fúria dos escuteiros.

Valerá a pena proteger as almas sensíveis, ou é melhor deixar o mercado pespegar o que quiser à frente de quem não é tido nem achado na recepção de mensagens “provocadoras”? Mas isto é a minha costeleta moralista a teorizar. Há uns anos, não consegui resistir à tentação

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12 respostas a Censuras a metro

  1. gibel diz:

    Luis,

    qual Gavin Davis qual carapuça! Quando abri o 5dias e vi esta produção fotográfica julguei que eras tu o modelo!

  2. Luis Rainha diz:

    Bem-vindo, camarada! Mas olha que me falta a inocência no olhar e a pose garbosa…

  3. CAA diz:

    Obrigado pela dica. Vou já ‘inflamar’ mais um bocadinho.

  4. JN diz:

    Continua a valer a pena proteger as almas mais sensíveis.
    Afinal, há coisas que não convém banalizar.
    A blasfémia, por exemplo.

  5. Luis Rainha diz:

    Estamos cá para isso, camarada!

  6. Maria João Pires diz:

    Porque vem a propósito, eis um texto do João Pinto e Castro que é capaz de valer a pena ser lido:
    http://blogoexisto.blogspot.com/2008/02/como-se-atrevem.html

  7. tric diz:

    Inquisição Jacobina Espanhola

    http://es.youtube.com/watch?v=Plhq5_U69oE

    a jacobinda não evolui na mentalidade , só evolui no blabla bla

  8. A propaganda do MediaMarkt foi a coisa mais imbecil de que eu me lembro recentemente, Luís. Apesar dos protestos dos escuteiros, o mercado acabaria por dar conta daquilo. Creio eu…
    Outra propaganda que eu creio que não funciona é a do Pingo Doce. A malta não gosta de publicidade negativa.

  9. Luís Lavoura diz:

    “Hoje não o repetiria […] pela consciência de que nem tudo vale a pena para dar nas vistas.”

    Exatamente. Concordo.

    Para quê andar a ofender as sensibilidades dos nossos concidadãos? Qual o sentido disso? Qual a utilidade? Qual a necessidade?

  10. Luis Rainha diz:

    Luís,
    Lamentavelmente, a utilidade foi alguma. A campanha gerou vendas, deu-me o prémio para o melhor outdoor do ano, notoriedade à agência… enfim; a malfeitoria compensou mesmo.

  11. daniel marques diz:

    Note-se que a polémica da media markt não é so em Portugal. A empresa foi multada em 400.000 EUR na Hungria por anuncios similares (http://www.realdeal.hu/20071211/media-markt-fined-ft-100-million-for-stupid-ad).

    Já eu, parti-me a rir.

  12. Ui, é bruxedo; acabei de ler isto:

    “Howard Gossage, um dos meus sócios na agência de publicidade, indivíduo peculiar, atormentou-se durante anos até morrer em 1969, por trabalhar em tão absurda profissão. «Detestaria ir para a cova e ser lembrado como aquele que inventou as sweatshirts do Beethoven e as competições de aviões de papel».
    (…)
    Gossage sabia que a questão do trabalho publicitário não se resumia à maneira como enfatiza as trivialidades. Ele enfurecia-se com a própria função do trabalho, associando-a a uma invasão de privacidade a um nível muito mais extremo do que a instigação telefónica, simplesmente rude, o vendedor porta-a-porta ou mesmo o historial informático do nosso crédito bancário. Tratava-se de uma invasão do espírito que alterava o comportamento, alterava as pessoas”.

    Jerry Mander, “Quatro argumentos para acabar com a televisão”, Antígona

    Não pretendo fazer com isto qq juízo de valor; é apenas uma curiosa coincidência.

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