A última batalha de Fidel

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Tenho muito pouco tempo. Vou tentar escrever sobre o assunto no fim de semana. As boas reportagens dão que pensar. São mais ambiguas do que as certezas. E muito mais cinzentas do que o branco e o negro, a cor dos moros y cristianos no prato dos cubanos . Cínicas, irónicas, têm um pouco de vida nas letras. Leiam esta. Leitura longa, como tudo o que não é demagógico.

Há alguns meses, traduzi, com ajuda de um amigo, este artigo da New Yorker. Parece-me muito interessante, para quem quer entender o que se pode passar em Cuba. Esclareço as habituais criaturas que salivam cada vez que ouvem falar sobre Cuba, que não sou obrigado a concordar com todas as palavras desta excelente reportagem. Lee Anderson é um profundo conhecedor de Cuba e autor de umas das melhores biografias de Che Guevara, nesta reportagem feita para a New Yorker, 24/7/2006, anterior a hospitalização de Fidel, faz um retrato do momento que se vive na ilha.

No fim de uma tarde de sexta-feira de Março, uma multidão concentrou-se numa manifestação no centro de Havana para protestar contra um incidente que tinha ocorrido na tarde anterior em San Juan, Porto Rico. Durante uma partida entre Cuba e a Holanda, no primeiro Campeonato Clássico de Basebol Internacional, um espectador levantou uma placa para as câmaras de TV que dizia “abaixo Fidel” e gritou opiniões semelhantes para os cubanos presentes.
Entre eles estava António Castro, um cirurgião ortopédico que é o médico da equipa cubana e um dos filhos de Fidel Castro. Uma autoridade cubana dirigiu-se com irritação ao manifestante, enquanto policias de Porto Rico o detinham.
O homem foi libertado depois de receber um sermão sobre liberdade de expressão. Cuba venceu por 11 a 2, mas, no dia seguinte, em tom de grande ressentimento, o jornal oficial do Partido Comunista de Cuba, “Granma”, lamentou as “provocações cínicas e contra-revolucionárias” de autoridades dos EUA e de Porto Rico.
A manifestação realizou-se, como a maioria desses eventos, em Havana, diante da Secção de Interesses Americanos, um prédio de sete andares numa parte curva do passeio à beira-mar, o Malecón. Na ausência de relações diplomáticas entre os EUA e Cuba, a Secção de Interesses serve como uma embaixada de facto (o prédio tecnicamente faz parte da Embaixada da Suíça).
Seis anos atrás, durante a batalha pela custódia de Elián González, o menino de cinco anos que foi salvo depois da sua mãe e outros terem-se afogado enquanto tentavam alcançar a Florida num barco, Castro ordenou a construção de um fórum de protesto permanente numa “ilha” da rua diante da Secção de Interesses.
Hoje o Tribunal Anti-imperialista, como é conhecido, consiste num palco elevado, dotado de reflectores, em cima de um centro de comando do tipo “bunker”. Uma grande faixa ostenta uma fotomontagem de homens armados, casas incendiadas, pessoas a chorar e o terrível veredicto: “Vocês fizeram isso”.
A manifestação não foi aberta ao público em geral. Evitando a aproximação, em barricadas de rua havia dezenas de policias. Algumas centenas de pessoas, na maioria autoridades desportivas, atletas e seus parentes, escutaram enquanto um jogador de basebol disse à multidão: “Diante do roubo vergonhoso dos nossos jogadores e dos constantes ataques contra o nosso povo, eles ainda não conseguiram minar a qualidade da nosso equipa!”.

Poucas aparições
Um homem negro e idoso subiu ao palco e disse que, na juventude, jogara basebol nos EUA. “Aprendi sobre o racismo daquele país pessoalmente, quando fui obrigado a sentar-me na parte traseira dos autocarro, a comer nas cozinhas”, disse. Foi seguido pela mãe de um dos jogadores. Depois de denunciar a “provocação” em Porto Rico, ela terminou com “viva Fidel!”.
Fidel não estava lá, embora, como a maioria dos cubanos, leve o basebol muito a sério (durante anos existiu um mito popular de que, quando era estudante, ele foi sondado por um dos equipas da liga principal norte-americana). Castro, que deverá comemorar seu 80º aniversário no dia 13 de Agosto, aparece com cada vez menos frequência em público, e só raramente em eventos onde há estrangeiros presentes.
Durante décadas, a legendária energia de Castro serviu-lhe. Ele tinha 32 anos quando derrubou o ditador cubano Fulgencio Batista, em 1959, com um exército guerrilheiro de combatentes barbudos que incluíam Ernesto (Che) Guevara.
Castro apresentou-se como um nacionalista determinado a erradicar a cultura de casino dirigida por gangsteres em Cuba e a eliminar a sua reputação de “bordel do Caribe”. Ao tomar o poder, moveu-se rapidamente para a esquerda, nacionalizou grandes plantações (a de sua mãe foi uma das confiscadas), empresas de propriedade estrangeira e aproximou-se da União Soviética.
Em 1961, a CIA, com a ajuda de emigrados cubanos, organizou a invasão da baía dos Porcos para remover Castro do poder. A invasão foi derrotada vergonhosamente e, desde então, apesar do embargo comercial americano e de diversas tentativas de assassinato, Fidel Castro sobreviveu a nove presidentes norte-americanos. É o governante há mais tempo no poder em todo o mundo.

Sinais da idade

Em Junho de 2001, Castro desmaiou de exaustão causada pelo calor durante um longo discurso público e, em 2004, depois de uma alocução, tropeçou e caiu, quebrando o joelho e o braço direitos.
Embora continue fazendo os longos discursos pelos quais é famoso, as suas mãos às vezes tremem, e caminha com hesitação; às vezes tem acessos de esquecimento e incoerência; e às vezes adormece em público.
Num relatório ao Congresso Americano no ano passado, a CIA informou que Castro sofria de mal de Parkinson. Ele zombou do relatório e disse que, mesmo que fosse verdadeiro, ele poderia continuar no cargo – citando o papa João Paulo II como modelo.
No primeiro semestre, um amigo de Castro, um veterano no partido, disse-me que o líder cubano estava “angustiado” com a idade e obcecado pela ideia de que o socialismo pudesse não sobreviver a ele. Em consequência, Castro lançou a sua última grande luta, que ele chama de “batalha das ideias”.
O objectivo de Castro é envolver os cubanos nos ideais da revolução, especialmente os jovens que amadureceram durante o que ele chamou de “período especial”. No início dos anos 90, o colapso da União Soviética provocou o fim abrupto dos subsídios a Cuba, e a economia implodiu. A crise obrigou Castro a permitir uma maior abertura na vida económica e civil da ilha, mas hoje ele parece decidido a reverter isso.
Num discurso, em Novembro passado, disse: “Este país pode autodestruir-se, esta revolução pode destruir a si mesma”. Referindo-se aos norte-americanos, afirmou: “Eles não podem destruí-la, mas nós podemos. Podemos destruí-la, e seria culpa nossa”.
Em Maio, durante um acalorado debate na TV, que durou sete horas e que tinha convocado para protestar contra a sua inclusão na lista dos líderes mais ricos do mundo feita pela “Forbes” (a revista estimou o valor líquido em 900 milhões de dólares), Castro disse: “Devemos continuar a pulverizar as mentiras que dizem contra nós… Essa é a batalha ideológica, tudo é a batalha das ideias”.
Castro abordou a campanha como um marechal-de-campo, com um comando central de seguidores ideológicos extraído da União da Juventude Comunista, a UJC. Alguns cubanos referem-se a eles sarcasticamente como “os talibãs”.
Uma analogia melhor poderia ser a de guarda vermelha: em certo sentido, a batalha de ideias tornou-se a Revolução Cultural de Cuba, embora não tenha a mesma intensidade violenta.
O Comando Central de Castro organiza marchas e envia “batalhões” especialmente recrutados entre trabalhadores sociais, que hoje intervêm em quase todas as áreas da vida quotidiana. No início deste ano, quando Castro anunciou que os cubanos deveriam começar a usar lâmpadas mais económicas, os batalhões foram de casa em casa, por todo o país, entregando as lâmpadas e garantindo que fossem instaladas.
Em particular, muitos cubanos consideram a batalha de ideias um espectáculo que devem tolerar, mas que é irrelevante para as suas vidas. A maioria deles não ganha o suficiente para comer bem, muito menos para viver confortavelmente.
Em consequência da escassez endémica na ilha, quase todo mundo tem algum contacto com o mercado negro de Cuba.
A tensão entre a Cuba pública das manifestações e dos tribunais e essa oculta é crescente, e vários cubanos e autoridades norte-americanas com quem falei temem que o caos reprimido possa irromper numa rebelião aberta por ocasião da morte de Castro: saques, rebeliões e mortes por vingança.
O senador Mel Martínez [Republicano], da Florida, que deixou Cuba aos 15 anos, em 1962, disse: “A minha esperança é que haja uma dessas maravilhosas revoluções europeias, como a Revolução de Veludo [em 1989, em Praga], sem violência, mas, devido ao que aconteceu – a repressão e a mão-de-ferro do poder durante tanto tempo -, poderá haver um vácuo, e isso cria um potencial para a violência”.
Os cubanos temem a reacção dos Estados Unidos e da comunidade de exilados em Miami – que se prepara para a partida de Castro há décadas. Para eles, e para os possíveis sucessores de Castro, este é um momento de extrema ansiedade.
Piadas sobre a suposta imortalidade de Castro já formam um cânone em Havana. Numa delas, Castro recebe de presente uma tartaruga de Galápagos, mas recusa-a depois de saber que ela pode viver mais de cem anos. “Esse é o problema dos animais de estimação”, diz Castro. “Afeiçoa-se a eles, e depois eles morrem.”
Hoje, a maioria das piadas parte da premissa oposta. Por exemplo: Castro morreu e o seu corpo está a ser velado.
O público fez uma fila para lhe prestar homenagem. Na frente da fila está Felipe Pérez Roque, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, de 41 anos, que costuma ser chamado de Felipito (pelas costas ele também é chamado de talibã).
Pérez Roque pára diante do caixão de Castro, de cabeça baixa, enquanto Ricardo Alarcón, o presidente da Assembleia Nacional de Cuba, espera a sua vez.
Os minutos passam; Alarcón fica impaciente e bate no ombro de Pérez Roque, murmurando: “Felipito, o que é que está à espera? Sabe que está morto”. Pérez Roque murmura de volta: “Eu sei que está. Mas ainda não descobri como lhe contar isso”.
Muito poucos cubanos falam abertamente sobre a “sucessão”. Castro recentemente confirmou que, como muitos cubanos acreditavam, espera que seu irmão Raúl, que é o ministro da Defesa, herde a liderança do Partido Comunista de Cuba. Numa entrevista a um jornalista europeu, disse que “não tinha dúvida” de que, se ele morresse, a Assembleia Nacional elegeria Raúl.
Mas, devido à idade de Raúl – 75 anos -, o senso comum em Havana é que dividirá o poder com um triunvirato civil formado por Pérez Roque, Alarcón (69 anos) e Carlos Lage, o czar da economia nacional, de 54.

“Haverá confrontos”
Aurelio Alonso, um sociólogo e editor que é membro do Partido Comunista, disse-me: “Esse assunto costumava ser tabu, mas Fidel começou a falar a respeito dele ultimamente. De todo o modo, a saída de Fidel não me preocupa em termos de quem o sucederá; sabe-se que há uma equipe preparada”. Citou Alarcón, Pérez Roque e Lage. “Isso não quer dizer que não haverá problemas. Haverá.”
Certa noite de Abril, encontrei-me com Alarcón no salão presidencial barroco do Hotel Nacional. O Nacional, com quartos com vista para o Malecón, foi construído em 1930 e, nos tempos pré-Castro, foi a residência, em Havana, de gangsteres como Meyer Lansky.
Hoje é o hotel preferido de visitantes como Leonardo DiCaprio, Muhammad Ali e Naomi Campbell. Enquanto examinávamos a lista, o director informou-me que Al Capone certa vez jantou na mesma sala.
Ao ouvir isso, Alarcón sorriu com certo mal-estar. Ele é um homem elegante e loquaz, com um rosto de menino e testa proeminente, e usava, como sempre, uma camisa “guayabera” branca. Começou por falar sobre o longo e complexo relacionamento com os EUA. “Cinquenta anos da mesma política americana, que, deve-se dizer, fracassou”, afirmou.
“É claro que agora estão à espera da próxima geração, baseados na ideia de que este governo está acabado. Bem, se for assim, acho que eu também estou acabado, porque sou um membro da geração de saída.”
Alarcón fez uma pausa. “Passou-se meio século em França desde a época da monarquia de Luís XVI, a grande Revolução, a guilhotina, toda a contra-revolução que se seguiu, o bonapartismo, a república burguesa dos anos 30. Todas as voltas e revoltas que a França sofreu ocorreram no mesmo período de tempo em que conseguimos manter a Revolução Cubana no poder. Nem mesmo Robespierre poderia dizer isso. Napoleão não poderia dizer isso. Caramba, fizemos muita coisa!”
Alarcón lida com americanos há mais de 40 anos. Ele deixou a Universidade de Havana para chefiar o escritório americano do Ministério das Relações Exteriores em 1962, quando tinha apenas 25 anos, e tornou-se embaixador de Cuba na ONU em 1966. Em 1992, Castro nomeou-o ministro das Relações Exteriores, mas menos de um ano depois removeu-o para um cargo de perfil comparativamente baixo, de presidente da Assembleia Nacional. Na época, a nomeação foi amplamente considerada uma despromoção, mas deu a Alarcón experiência com a política interna de Cuba pela primeira vez desde sua juventude. E continuou a ser o principal assessor de Castro sobre os EUA (Alarcón interrompeu o nosso jantar para receber uma ligação de Castro no seu telemóvel). Alarcón também esteve intimamente envolvido no caso de Elián González, actuando como principal assessor do pai do menino, Juan Miguel González, que viajou aos EUA para disputar com os parentes de Miami a custódia do filho. Dois meses e meio depois, quando ele foi finalmente mandado para casa, Alarcón recebeu-o no aeroporto. Para Castro, a volta de Elián foi uma importante vitória simbólica contra os seus adversários da comunidade no exílio. A última causa de Alarcón envolve os “cinco heróis”, como são conhecidos em Cuba cinco espiões cubanos que cumprem pena de prisão nos EUA. Em Janeiro de 1996, Alarcón, a meio de negociações secretas com o governo Clinton para melhorar as relações, disse aos americanos que Cuba tinha recebido informações de que os Irmãos para o Resgate, um grupo de exilados em Miami, estavam a planejar voos ilegais para despejar panfletos sobre Havana. Já tinham feito esse tipo de voo, e o governo americano oferecera-se para fazer o possível para detê-los. A Casa Branca passou a informação de Alarcón para a sede do FBI na Florida, mas nada foi feito para evitar que os aviões descolassem. A força aérea cubana derrubou dois deles, matando quatro cubano-americanos. Em retaliação, o presidente Clinton assinou a Lei Helms-Burton, endurecendo o embargo contra Cuba. O FBI também intensificou a busca de fontes em Cuba, e os cinco foram presos em Setembro de 1998. Em 2001, um júri de Miami considerou-os culpados de acusações que incluíam “conspiração de espionagem” e, no caso de um deles, o assassinato dos pilotos dos Irmãos para o Resgate.
Os presos tiveram sentenças que vão de 15 anos a duas prisões perpétuas consecutivas (em Agosto passado, um tribunal de apelo ordenou um novo julgamento, dizendo que os homens não tinham tido um julgamento justo por causa do “preconceito generalizado da comunidade”).
Alarcón reconhece que os cinco eram espiões, mas afirma que não pretendiam prejudicar os Estados Unidos e que seu único objectivo era evitar o terrorismo. “Veja, eram cinco pessoas que estavam a desempenhar uma missão”, disse. “Assim como os EUA acreditam que devem ter uma maior capacidade de conhecer e prever, Cuba há muito tempo tem necessidade de se defender, com a diferença de que o terrorismo contra Cuba foi patrocinado pelos EUA.” Alarcón assumiu como cruzada pessoal trazer os cinco para seu país; qualquer conversa com ele acaba neste assunto. Perguntei-lhe se há nisso um elemento de consciência culpada. Cuba não teria, indirectamente, traído a presença dos homens em Miami? Alarcón respondeu: “Não pense por um minuto que Cuba deu inadvertidamente informações que levaram os americanos a encontrá-los. Podemos ser amadores no basebol, mas nesse assunto realmente somos profissionais”. Assim como a maioria das pessoas do círculo próximo a Castro, Alarcón é discreto em público e nunca contraria o chefe, mas, por causa da sua amabilidade e da sua longa experiência com os americanos – que geralmente gostam dele -, a maioria dos cubanos considera-o moderado. É uma figura familiar e tranquilizadora para os estrangeiros que visitam Cuba; enquanto estive em Havana, ele recebeu uma delegação do Vietname e também Louis Farrakhan [líder do grupo negro e religioso norte-americano Nação do Islão]. Alarcón é há muito tempo candidato ao cargo de primeiro-ministro num possível governo de transição. Mas nada está certo; Castro é conhecido por mudar as pessoas subitamente de um cargo para outro. Alarcón também pode ter uma séria concorrência de Pérez Roque, que é visto como o principal porta-voz da batalha de ideias de Castro. Pérez Roque é um homem baixo e robusto, cujas maneiras lembram um Buldogue. Tornou-se secretário pessoal de Castro aos 21 anos e permaneceu no cargo por sete anos. Ninguém duvida que seja dedicado a Castro, cujas opiniões e políticas assume com um fervor sem paralelo, mesmo em Cuba. Em 1999, Castro nomeou-o seu ministro das Relações Exteriores. Pérez Roque tinha apenas 34 e parecia pouco à vontade, despreparado; foi apelidado de “Fax”, no sentido de que era apenas um transmissor das declarações de Castro. Cresceu nesse papel, contudo, e ganhou certo respeito, senão popularidade. O veterano seguidor disse-me que estava claro que Castro tinha “escolhido” Pérez Roque para liderar a equipa de sucessão, sob a supervisão temporária de Raúl, mas que Pérez Roque tinha uma “mentalidade estreita demais” para a próxima geração de cubanos. Outros cubanos com quem conversei concordaram. Todos lembraram que, após Castro ter desmaiado em 2001, foi Pérez Roque quem se aproximou do microfone e, numa demonstração de zelo, animou a multidão com gritos de “viva Fidel! Viva Raúl!”.

Repulsa pelo turismo
Vivi em Havana durante o período especial. O governo não podia importar combustível; as bicicletas substituíram os carros nas ruas de Havana, e havia cortes de energia diários que duravam até 12 horas. Muitas pessoas não tinham o suficiente para comer, sobrevivendo com o prato básico cubano, “chicharo” (papa de ervilha) ou com açúcar e água. A criminalidade aumentou. Castro reagiu permitindo algumas empresas privadas, o uso legal do dólar e abrindo Cuba ao turismo de massa, medidas que salvaram o regime. No ano passado, Castro – reforçado por carregamentos de petróleo barato de Chávez e por investimentos chineses – instituiu um pesado imposto sobre transacções em dólares. Isso tornou Cuba muito mais cara para os estrangeiros, embora os turistas de pacotes europeus continuem a ficar em estabelecimentos exclusivos, onde têm pouco contacto com os cubanos. Hoje esse parece ser o modo como Castro quer as coisas. “Fidel sente sempre repulsa pelo turismo porque é um incentivo à prostituição e aumenta as desigualdades sociais”, disse-me Aurelio Alonso. “O turismo é mau porque cria um contraste entre uma população que vive muito mal e uma população que vive muito bem.” Num discurso recente, Castro referiu-se aos restaurantes privados dirigidos por famílias cubanas, os “paladares” (nome criado pelos cubanos, baseado numa telenovela brasileira. NT) outra concessão do período especial, dizendo: “Sei que isso incomoda os nossos vizinhos do norte, mas é muito possível que dentro de alguns anos não haja mais “paladares” em Cuba”. As reformas do período especial foram implementadas por Carlos Lage, o terceiro membro da equipa de sucessão. Ultimamente, porém, Lage parece ter sido afastado, pelo menos em termos das políticas económicas internas que estariam a ser micro-administradas por Castro, segundo uma fonte interna do partido. “Isso preocupa as pessoas, porque todos sabemos que economia não é o principal qualidade de Fidel”, diz. Um diplomata da Europa Oriental afirmou: “Para mim, uma característica clara dessa ditadura (acrescentou rapidamente: “Mas, por favor, não use essa palavra”) é como Fidel está a construir o que virá depois. O problema dele era que, depois que abriu a sua economia nos anos 90, surgiu uma nova camada social; ela tem as suas próprias opiniões políticas e produziu líderes que apoiam essas opiniões. Depois de certa estabilização da situação económica, os líderes começaram a pensar em como se livrar dessas camadas sociais”. Continua: “Eles estão a fazer tudo isso para se preparar para os problemas sociais que serão inevitáveis quando Fidel morrer”. As contradições da sociedade cubana são perturbadoramente evidentes. As antenas de televisão via satélite estão proibidas, mas muitas pessoas instalam-nas secretamente e com frequência sintonizam as estações anti-castristas de Miami. As prostitutas, que se reuniam abertamente nas ruas de Havana nos duros anos 90, hoje são menos visíveis, mas, apesar da repressão ao comércio sexual, elas continuam lá.

Prostituição

Certa noite fui a uma casa nocturna popular em Havana na praça da Revolução, bem em frente ao quartel-general do Comité Central do Partido Comunista Cubano. Estava cheio de jovens “jineteras”, como são chamadas, e seus “namorados” estrangeiros, na maioria italianos ou espanhóis bem mais velhos. Uma rapariga perguntou-me se eu queria companhia, parecia ter 15 anos ou menos. Visitei uma veterana do partido que, enquanto nos sentávamos em seu terraço a beber sumo de tamarindo, queixou-se extensamente sobre a mais recente medida de Castro – uma campanha de economia de energia, proclamada com grandiloquência, que tem como uma das principais características fornecer a cada residência cubana uma panela de pressão de fabrico chinês. “Depois de 47 anos de revolução, recebemos panelas de pressão?”, disse ela amargamente. E as panelas nem sequer são de graça. “A energia é sua última obsessão, e, como todas suas outras obsessões do passado – ela enumerou algumas das mais quixotescas, incluindo o esforço fracassado de Castro nos anos 80 para criar uma “supervaca”-, não temos opção senão aceitá-la”. Ela disse-me que está na hora de Castro se demitir. “Quando vejo Fidel falar hoje, é como se estivesse a ver o meu bisavô a falar sem nenhum discernimento. Ele não tem mais nada a dizer. Tenho uma grande pena”, disse. “As pessoas aqui ainda o respeitam -apesar de não o ouvirem. Depois dele, não há ninguém. Por isso seus sucessores vão ter que abrir as coisas, porque será preciso. Eles não são idiotas. As pessoas estão cansadas.” Numa tarde de domingo, fui ao parque Lenine, na periferia de Havana. Uma banda de salsa estava a tocar para uma multidão de 400 ou 500 pessoas, na maioria jovens, que dançavam e bebiam cerveja em copos de papel. Quando o espectáculo terminou, algumas centenas de jovens começaram a sair do parque, estavam a caminhar pela estrada até a cidade. Uma carrinha da polícia que estava estacionada no meio da estrada, com uma dezena de policias uniformizados de azul parados à volta dela. De repente, um deles atingiu um adolescente com seu bastão. Outros policias aproximaram-se e juntaram-se a ele, pontapeando e batendo no menino. Depois arrastaram-no para a carrinha e o enfiaram-no lá dentro. Vários jovens estavam com as mãos nos rostos e a tropeçar, percebi que os policias os tinham atordoado com spray de pimenta. Nos cinco minutos seguintes, os agentes espancaram e prenderam oito ou nove jovens, nenhum dos quais, até onde pude ver, fizera nada para provocá-los. Pessoas da multidão simplesmente olhavam ou afastavam-se, saindo do alcance dos policias. Perguntei a um homem o que os rapazes tinham feito, e ele disse calmamente: “Nada. Provavelmente alguém disse alguma coisa a um deles. Os policias estão apenas tentando mostrar quem manda. Eles fazem sempre isso”. Os jovens poderiam ser muito menos contidos na ausência de Castro. Durante o verão de 1994, no auge do período especial, depois de choques entre as autoridades e candidatos a imigrantes, centenas de homens e jovens manifestaram-se no Malecón.
Castro foi ao local com seus guarda-costas nervosos e penetrou na multidão. Os manifestantes seguravam pedras e tijolos, mas, quando viram Castro, deixaram-nos cair e aplaudiram. O tumulto, que estava alastrando-se perigosamente, começou a dissipar-se.
Depois que Castro foi embora, os esquadrões da polícia de choque chegaram, juntamente com caminhões de homens armados de bastões e da brigada de trabalhadores de elite, que então perseguiram, espancaram e prenderam os manifestantes que restavam.
É difícil imaginar que algum sucessor de Castro tivesse autoridade para tomar essa medida, e um surto de rebelião poderia espalhar-se por toda a ilha, se não fosse contido ou se as forças de segurança reagissem excessivamente.
Se Raúl estiver no comando, a moderação não será uma conclusão evidente. Apesar de sua reputação de simpático, Raúl pode ser impulsivo, dogmático e às vezes brutal. Em 1959, ele supervisionou a rendição de Santiago, a segunda cidade do país, enquanto Fidel marchava para Havana.
Lá, no acto mais notório de vingança que se seguiria à vitória dos guerrilheiros, Raúl presidiu a execução de mais de 70 soldados e oficiais, que foram metralhados e depois enterrados numa vala comum. Mais recentemente, em 1996, Raúl orquestrou um expurgo dos intelectuais do partido, que ele acusou de estarem contaminados por “ideias capitalistas”.
Nos últimos anos, Castro aumentou o número de policias em Havana consideravelmente, e deu-lhes salários equivalentes aos dos médicos. Muitos policias são recrutados nas Províncias do leste rural de Cuba, onde o governo tem forte apoio, e são alvo de desprezo de muitos moradores de Havana, mais “cosmopolitas”.
Após os tumultos de 1994, Castro aliviou um pouco a pressão do regime, permitindo temporariamente que pessoas deixassem a ilha por mar. Cerca de 30 mil cubanos tentaram chegar à Florida em três semanas, no que se tornou conhecido como a “crise dos balseiros”.
Para impedir outro êxodo marítimo, os EUA aumentaram significativamente sua cota de imigração legal para cubanos e instituíram uma política de “pé seco, pé molhado”, pela qual os que forem interceptados no mar pela Guarda Costeira serão deportados, e os que conseguirem atingir a terra seca terão permissão para ficar.
Isso reduziu o número por algum tempo, mas, no ano passado, quase 3.000 cubanos foram detidos no mar e repatriados – o dobro de 2004.
Há receios, tanto em Cuba quanto nos EUA, de que a instabilidade social depois da morte de Castro possa provocar uma enorme onda de emigração. Segundo alguns cenários, isso poderia ser usado para justificar a intervenção militar americana.

Juventude rebelde

Muitos jovens em Cuba hoje só desejam emigrar. Na minha última viagem, um antigo membro do partido confessou que havia recentemente ajudado seu filho a deixar Cuba. “Temos muitos jovens bons, mas eles não gostam de ser administrados”, ele disse. “E temo que a revolução ainda não tenha aprendido que a consciência dos outros não precisa ser administrada.”
Randy Alonso Falcón, 36, é uma das figuras mais identificáveis na batalha de ideias. Alonso, apresentador do programa de entrevistas políticas “Mesa-Redonda Informativa”, está no directório nacional da União da Juventude Comunista e também é membro do Comando Central da Batalha de Ideias. Todos o chamam de Randy.
Numa manhã de Abril, encontrei Alonso, um homem baixo de maneiras descontraídas e o rosto marcado por sarampo, diante do Tribunal Anti-imperialista. Ele fez um gesto na direcção da mais recente inovação do tribunal, o Monte de Bandeiras, um grupo de 138 mastros de aço, com cerca de 30 metros de altura e sobre uma série de bases de cimento, com bandeiras pretas que bloqueiam a visão da Secção de Interesses Americanos desde a rua.
O Monte de Bandeiras foi a resposta de Castro à instalação, pelo encarregado de negócios americano, em Janeiro, de um placar electrónico nas janelas da secção oferecendo notícias sem censura 24 horas por dia.
Para abrir espaço para as bandeiras, os cubanos apropriaram-se do estacionamento dos americanos. “Naturalmente, se eles vão chatear-nos, nós também vamos chateá-los “, disse Alonso.
Conduzimos para leste saindo de Havana para a vila pan-americana, um complexo de instalações desportivas construído para abrigar os Jogos Pan-Americanos de 1991. Um prédio foi transformado em Escola de Trabalhadores Sociais.
Iniciada em 2000, para jovens carentes, e potencialmente anti-sociais, a escola já produziu mais de 10 mil graduados, e seus alunos formam o núcleo dos batalhões de trabalhadores sociais.

Sondagens sobre a opinião dos cubanos
Alonso disse que os líderes da batalha de ideias decidem para onde enviar os batalhões estudando “pesquisas de opinião” secretas. “Todos os dias recebemos 5.000 opiniões que vêm de todo o país”, ele disse. “Não é uma pesquisa. Há activistas que ouvem coisas e depois mandam exactamente o que foi dito.” Essas pesquisas, se podem ser chamadas assim, são uma das fontes preferidas de informação de Castro.
Na escola, um grande prédio de concreto pré-fabricado decadente, encontramos Enrique Cabezas Gómez, o director, que é um dos protegidos de Castro. Ele nos convidou para uma sala de recepção com três de seus alunos e começou a discorrer sobre o papel da escola na batalha de ideias. Ele continuou durante três horas ininterruptas.
Enquanto falava, os estudantes ouviam em silêncio. Era difícil avaliar seu entusiasmo. Cabezas mencionou que, recentemente, quando Castro, como parte de uma medida anti-corrupção da batalha de ideias, substituiu os empregados dos postos de gasolina de Cuba por trabalhadores sociais, descobriu-se que os anteriores trabalhadores faziam roubos sistemáticos.
Alguns cubanos com quem falei previram que era apenas questão de tempo para que os próprios trabalhadores sociais se corrompessem.
A maioria não acredita que a campanha anti-corrupção funcione, porque os vários esquemas que os cubanos inventaram para sobreviver estão profundamente incutidos. Um cubano me disse que, após o governo ter equipado uma frota de caminhões com GPS para evitar desvios, os motoristas descobriram que podiam usar camisinhas cheias de água para desarmar os equipamentos.
Confirmando essa história, um diplomata europeu me contou que sua maior preocupação sobre o futuro de Cuba é a perspectiva de que surja uma poderosa rede de máfias criminosas, como ocorreu nos países da antiga Europa socialista.
Em Havana, visitei um casal cubano que conheço há vários anos e fiquei chocado ao ver como eles estavam vivendo. Alguns de seus móveis tinham sido vendidos, e os dois pareciam magros. Agora na casa dos 60 anos, eles estão sobrevivendo com o equivalente a US$ 60 [50 euros] mensais -na verdade, mais do que ganha a maioria dos cubanos.
A mulher disse-me: “Você sabe, para viver em Cuba só temos três alternativas, conhecidas como os três erres: roubar, remar ou resignar-se”.
Em 2 de Junho, véspera do 75º aniversário de Raúl Castro, o “Granma” publicou um suplemento especial de oito páginas intitulado “Raúl de Perto”.
O artigo incluía títulos como “O Chefe”, “Valores Patrióticos” e “Capaz, Responsável e Brilhante”. Numa passagem típica, Raúl é descrito como “afável, afectuoso, humano, compreensivo; sabe ser sério e exigente, mas ao mesmo tempo é amigável e capaz de escutar uma história ou apreciar uma piada -uma pessoa profundamente humana”.
O artigo termina com Fidel explicando por que Raúl deve sucedê-lo: “Eu o escolhi não por ser meu irmão, pois todo mundo sabe o quanto detestamos o nepotismo, mas porque, por minha honra, o considero dono de qualidades suficientes para substituir-me amanhã, caso eu morra nesta luta”.
Alguns dias depois, recebi um e-mail de um amigo em Havana sobre o suplemento: “Toda a gente aqui pensa que isso significa que a “campanha eleitoral” já começou” -isto é, a campanha para preparar os cubanos para a ascensão de Raúl ao poder.
Raúl raramente aparece em público com seu irmão mais velho. Os jornalistas estrangeiros nunca são convidados para seus discursos, e ele nunca dá entrevistas. Nas minhas visitas a Cuba nos últimos 15 anos, só vi Raúl em pessoa uma vez, na manifestação anual de Primeiro de Maio, na praça da Revolução, em 1993.
Ele estava, juntamente com o restante do “politburo”, sobre um palco, próximo, mas não ao lado, de Fidel. Enquanto Fidel observava solenemente os procedimentos, Raúl conversava com os outros.
Naquele tempo, um manto de segredo cercava o clã Castro. A maioria dos cubanos não sabia o nome da mulher de Castro nem quantos filhos eles tinham. Desde então, porém, vários membros da primeira família cubana começaram uma espécie de “début” gradual, que parece destinado a prepará-los para funções mais públicas.
Dalia Soto del Valle, a mulher de Castro há 40 anos (não está claro quando -ou se- eles se casaram legalmente), tornou-se mais visível desde o caso Elián González. Ela é mãe de cinco de seus filhos: Alexis, Alexander, Alejandro (Castro é fascinado por Alexandre, o Grande), Antonio e Angel.
Em 2000, almocei com António Castro, o mais velho, no hospital ortopédico de Havana, onde trabalhava antes de ser contratado pela equipa de basebol; ele foi educado, mas reservado.
Alexis seria um filho mais problemático; alguns anos atrás, no entanto, começou a aparecer como fotógrafo do “Juventude Rebelde”, o jornal da UJC. O irmão menos conhecido é Alexander, que trabalha como câmara para a televisão cubana; Alejandro, que é programador de computador; e Angel, o mais novo, que não tem profissão declarada.

Filho “incompetente”

Castro divorciou-se de sua primeira mulher, Mirta Díaz-Balast, mãe de seu primogénito, Fidel, em 1955. Ela casou-se novamente e vive em Madrid há muitos anos, mas viaja com frequência a Cuba para visitar seu filho. Ela nunca falou em público sobre seu ex-marido, mas seu sobrinho, Lincoln Díaz-Balast, um congressista republicano da Florida, é um dos críticos mais ardorosos de Castro.
Fidel Castro Díaz-Balast, ou Fidelito, é um físico nuclear educado na União Soviética e dirigiu a comissão de energia atómica de Cuba até o início dos anos 90, quando foi removido do cargo. Castro disse durante uma viagem à Espanha que havia demitido seu filho por “incompetência”.
Ultimamente, porém, Fidelito ressurgiu e hoje seria assessor do pai. Certa noite, em Abril passado, eu estava num restaurante na Velha Havana quando um Lada dirigido por motorista encostou e Fidelito entrou. Ele usava barba e tinha uma semelhança notável com seu pai, com o mesmo nariz romano e perfil orgulhoso. Era como se o próprio Fidel Castro, 30 anos mais jovem, tivesse acabado de entrar.
Castro também tem uma filha, Alina Fernández, produto de um caso com uma mulher da sociedade, Naty Revuelta, no fim dos anos 50. Em 93, Alina, que há muito não se dava com o pai, fugiu para a Europa disfarçada e mais tarde instalou-se em Miami, onde tem um programa de rádio, “Simplesmente Alina”, dedicado a atacar o pai (recentemente foi contratada pela CNN para comentar a doença de Fidel, NT).

A madrinha LGBT

Raúl Castro e sua mulher, Vilma Espín, que estudou no MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] e é directora da Federação das Mulheres Cubanas, têm quatro filhos, e eles também têm estado mais visíveis ultimamente.Quando jantei com Ricardo Alarcón, ele me contou que a filha mais velha de Raúl, Mariela Castro Espín, uma sexóloga, estava fazendo lobby na Assembléia Nacional para reformar as leis cubanas em benefício dos transexuais e travestis. Ela está “a enlouquecer-me”, disse Alarcón, sorrindo.Eu tinha ouvido falar no papel de Mariela como madrinha dos transexuais e travestis de Cuba quando assisti a um show de travestis numa casa no oeste de Havana. A ocasião era o aniversário de Imperio, uma das mais famosas transformistas da ilha, um mestiço magro e belo de 30 e poucos anos.Numa grande sala no andar superior havia um bar onde uma centena ou mais de homens gays aplaudiam e mandavam beijos enquanto Imperio dançava e fazia playback de canções de Gloria Gaynor e Rocío Jurado.Fiquei surpreso diante da abertura do evento; eu tinha estado num show de travestis em Havana no final dos anos 90, mas era um acontecimento clandestino. Até muito recentemente, os gays de Cuba -e os travestis em particular – eram reprimidos e frequentemente detidos pela polícia. Amigos de Imperio me disseram que a mudança deve-se a Mariela Castro.Fui ver Mariela Castro no Centro Nacional de Educação Sexual, o Cenesex, que fica em uma antiga mansão do século 19, no bairro de Vedado, com uma ampla varanda e árvores frondosas. Mariela, uma mulher atraente e descontraída de menos de 40 anos, é directora do Cenesex desde 2000. Sentamo-nos num pequeno escritório no andar superior para conversar.”Olhe, muita gente acha que conseguimos fazer o que fizemos por causa de relações familiares”, disse. “Pelo contrário, às vezes as conexões de minha família são um obstáculo na vida – não posso fazer minhas propostas por meio de meu pai ou de minha mãe porque nenhum deles permitiria. Tudo o que faço é por canais oficiais. O que acontece, porém, é que, quando vou a esses canais oficiais, as pessoas não sabem como reagir por causa de minhas ligações familiares. E perguntam “O que é que o seu pai diz sobre isso?”, e eu digo: “Não importa o que meu pai diz”.”Três anos atrás, Mariela disse que alguns travestis se queixaram a ela de que a polícia os assediava e pediram sua ajuda. “Eu senti muita pena deles, porque achei que a revolução tinha algumas propostas muito bonitas, mas mudar a atitude das pessoas às vezes demora muito mais do que gostaríamos.”
Quando há problemas com a polícia, “vamos directamente à esquadra”, disse. “Falando francamente, o nível cultural dos policias não é bom.”
Ela tinha falado com o Ministério da Defesa -dirigido pelo pai -, mas disse que inicialmente foi difícil convencer o pai de que havia necessidade de mudanças.
Nos anos 60 e 70, os militares, sob o controle de Raúl, presidiram conhecidos campos conhecidos pela sigla de Umap (Unidades Militares para Ajudar a Produção), onde os homossexuais -incluindo Reinaldo Arenas, o falecido autor de “Antes que Anoiteça” [Editado na ASA]-, assim como alguns cubanos desempregados e religiosos, foram “reabilitados” por meio de trabalhos forçados.
Nos anos 80, homens HIV positivo foram postos em quarentena em asilos médicos conhecidos como “sidatórios”. Na última década, as políticas oficiais foram relaxadas, mas as leis que garantem a liberdade sexual ainda não existem.
Mariela disse-me que sua equipe jurídica está preparando um relatório que propõe mudanças específicas nos códigos penal e civil; por exemplo, os transexuais que sofreram operações de mudança de sexo poderiam casar-se e ter os mesmos direitos de herança e pensão que os casais heterossexuais. Ela disse que seu próximo projecto é garantir direitos semelhantes para gays, lésbicas e bissexuais em Cuba.
Primeiro, porém, Mariela está recrutando os travestis para a batalha de ideias. “Eu achei que seria bom se eles tivessem uma missão social.” Ela disse que dois grupos de travestis já tinham terminado a formação de trabalhadores sociais de saúde sexual.
“Sempre que temos uma cerimónia de formatura, deixamos que eles montem seus shows de travestis – todo o espectáculo, como eles gostam. Talvez não seja o meu gosto estético -Mariela sorri -, mas é o deles, e respeitamos isso.”
Mariela Castro e Ricardo Alarcón deixaram claro que a batalha de ideias iniciou uma espécie de abertura social e cultural. Durante nosso jantar no Nacional, Alarcón mencionou que se ofereceu para inaugurar uma recente exposição de fotografias de Robert Mapplethorpe em Havana. “Isso causou algumas críticas”, disse.
A abertura política é uma questão diferente: num período de quatro dias, em Março de 2003, começando na véspera da invasão do Iraque pelos EUA, as autoridades cubanas prenderam 78 dissidentes, incluindo sindicalistas, activistas de direitos humanos e jornalistas; muitos continuam presos.

Arte prestigiada

Mas o governo parece falar sério sobre suas iniciativas artísticas, como uma série de novas escolas de artes e dança e programas de extensão educacional, em parte como meio de tirar os jovens das ruas.
Abel Prieto, ministro da Cultura de Cuba, me disse: “O apetite por cultura, o prestígio social do artista, do intelectual, do escritor aumentou enormemente. Houve uma época em que os pais achavam que as artes transformariam seus filhos em gays ou suas filhas em prostitutas, mas hoje todo mundo quer ter um artista na família”.
Prieto tem mais de 1,80 m e, com suas patilhas fartas e cabelos até os ombros, é uma figura improvável como alto membro do Partido Comunista.
Uma das conquistas de que mais se orgulha é ter uma praça da Velha Havana baptizada de parque Lennon, com uma estátua em bronze de John Lennon (nos anos 60, a música “decadente” dos Beatles foi proibida). Ele fala abertamente sobre usar programas pirateados na televisão estatal: “Não pagamos direitos autorais por material televisivo -estamos bloqueados. Por isso pegamos muita coisa do Discovery Channel, por exemplo”.
Quando visitamos o principal museu de arte de Havana, um séquito de admiradores o seguiu de galeria em galeria.
Prieto tinha-me dito que o cenário das artes em Havana tornou-se menos convencional e mais “perturbador”, embora eu tenha visto poucas evidências disso no museu. Alguns dias depois, porém, visitei uma exposição independente montada por estudantes na Escola de Belas Artes. Seu trabalho era muito mais político do que o que eu tinha visto em outros lugares.
Em um deles, uma moeda de peso cubano com o slogan oficial, “Pátria Livre ou Morte”, havia sido cortada de modo a mostrar “Pátria Livre ou Sorte”. Em uma parte da sala, um antigo gravador de rolo e alto-falante reproduziam em um ciclo interminável um trecho de um discurso patriótico de Castro, e na frente dele havia um cartaz se lia: “Fale comigo só sobre basebol”.
O maior obstáculo de Castro, para que possa garantir que seu plano de sucessão lhe sobreviva, são os EUA, que vêm tentando forçar uma transição em Cuba há cinco décadas. Nesse tempo, o relacionamento entre Washington e a comunidade de exilados em Miami foi extremamente próxima, mais do que seria saudável.
Durante os primeiros anos do governo Castro, a política americana foi tentar derrubá-lo à força ou assassiná-lo. A CIA montou um escritório em Miami -então o maior da agência para operações clandestinas- e recrutou milhares de exilados, formando uma organização paramilitar que atacava os interesses cubanos.
Esse aspecto das operações da CIA diminuiu muito nos anos 70, mas então os anti-castristas tinham formado grupos próprios. Exilados cubanos com ligações com a CIA realizaram atentados À bomba e assassinatos visando Cuba e seus aliados, incluindo o assassinato, em 1976, de Orlando Letelier, embaixador do Chile nos EUA.
A linha dura na comunidade de exilados cubanos em Miami constitui-se na sua maioria, por homens idosos, mas ainda são um factor volátil. Castro usou o caso de Luís Posada Carriles para afirmar que os Estados Unidos têm um duplo critério na sua guerra ao terror.
Posada Carriles, um cubano que tem cidadania venezuelana, passou os últimos 45 anos tentando matar ou derrubar Castro. Ele é procurado na Venezuela por alegadamente ajudar a planear a explosão em pleno ar de um jacto de passageiros cubano perto de Barbados, em Outubro de 1976, que matou as 73 pessoas a bordo (os cubanos, citando documentos há pouco tempo revelados da CIA e do FBI que parecem sustentá-los, acusam o órgão de ter tido conhecimento antecipado do ataque).
Entre escapar de uma prisão na Venezuela e -como admitiu ao “Times”- planejar colocar bombas de hotéis no verão de 1997, matando um turista italiano, Posada Carriles trabalhou para o programa de Oliver North para abastecer os Contras na Nicarágua.
No ano passado, ele surgiu dando uma entrevista colectiva em Miami, e Hugo Chávez pediu sua extradição.
Posada Carriles foi detido, mas depois de vários meses um juiz federal decidiu que, embora ele tivesse entrado no país ilegalmente, os EUA não o poderiam deportar para Cuba ou a Venezuela porque ele poderia ser torturado. Hoje ele está a apelar para ficar nos EUA, alegando que trabalhou secretamente em seu benefício durante muitos anos.
Em Miami, encontrei-me com Santiago Alvarez, um destacado exilado cubano e íntimo aliado de Posada Carriles, no seu escritório em um shopping center. Alvarez, que tem uma empresa de construção, é um homem duro, mas de boa figura, de 64 anos.
“Olhe, o Posada Carriles não é santo. Ele é um combatente da liberdade cubano e cometeu alguns erros”, disse Alvarez. “Mas o que aconteceu aqui é que Fidel Castro montou com isso uma grande operação de propaganda.”
Alvarez continuou: “Como anti-castrista, vi com certo prazer a tentativa de Bush de endurecer o embargo. Por outro lado, vejo que afrouxá-lo poderia ser a melhor arma contra Castro. Por exemplo, um relaxamento das restrições a visitas à ilha poderia ajudar-nos a conspirar contra o regime. Não acredito que Fidel Castro saia do poder algum dia por meio da actividade de alguns dissidentes. Afirmo que isso deve ser realizado por força armada”.

Atacar em vida
Alvarez disse que a hora de atacar é enquanto Castro está vivo. “Depois que Fidel morrer, tudo será diferente”, disse. “E o que acontecerá se ele durar mais dez anos? Não podemos esperar tanto. Eu sentiria vergonha se esperasse a sua morte para voltar.”
Pouco depois de nosso encontro, Alvarez foi preso por posse ilegal de metralhadoras e um lança granadas. Aguarda julgamento.
O senador Martinez não quis comentar directamente o caso Posada Carriles, porque está nos tribunais. Mas negou que tivesse algo a ver com a guerra ao terrorismo.
“Cuba começou a praticar o sequestro de aviões e, se Luis Posada Carriles colocou uma bomba num avião – Martinez fez uma pausa -, sem querer justificar qualquer acto específico de violência, havia um ambiente hostil na época. Isso já não acontece, e está apenas a ser usado por um regime decrépito para manter as pessoas tensas. Precisamos de falar sobre o futuro, e não do passado.”
Em Dezembro de 2003, o presidente Bush indicou o senador Martinez para presidir a Comissão de Ajuda a Cuba Livre, juntamente com Colin Powell [ex-secretário de Estado dos EUA]. A sua missão era encontrar maneiras de “apressar o fim da tirania de Castro” e desenvolver “uma estratégia abrangente para preparar uma transição pacífica para a democracia em Cuba”.
O resultado de seu trabalho foi um relatório de 500 páginas, apresentado em 2004, que incluía directrizes para tudo.
Desde montar uma economia de mercado até realizar eleições. Ele também recomenda “minar a estratégia de sucessão do regime”. “Eu procurei lições no Iraque de coisas que os cubanos vão precisar”, disse Martinez. “Por exemplo, uma estrutura governamental deveria permanecer. Como no Iraque, em Cuba há aqueles que têm as mãos sujas de sangue, mas não é o caso de todos. E há questões como a rede eléctrica, habitação e alimentação. O que aprendemos no Iraque é que haveria uma ruptura dessas coisas num momento extraordinário.” O relatório, que o governo Bush adoptou como política, recomendou a indicação de um coordenador da transição em Cuba. A pessoa citada para o novo cargo seria Caleb McCarry, cuja ocupação anterior foi de director de gabinete da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental do Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
Quando falei com McCarry, ele disse: “Minha função é ser o principal oficial americano encarregado de planear e sustentar uma genuína transição democrática em Cuba e trabalhar para isso agora”. Ele é, na verdade, o “Paul Bremer” indicado para Cuba. Como no Iraque, porém, os EUA são prejudicados pela sua incapacidade de operar abertamente em Cuba e pela sua dependência de informações de exilados e dissidentes. E não parecem ter um candidato para substituir Castro. McCarry disse que “estaremos lá para oferecer um apoio muito concreto”. McCarry enfatizou que o governo não consideraria a ascensão de Raúl Castro como um resultado satisfatório, mesmo que fosse acompanhada de reformas económicas. “Continuaremos a oferecer apoio para uma transição real”, disse. “Você sabe, isso não é uma imposição. É uma oferta, e uma oferta muito respeitosa, com respeito pelo sentimento nacionalista cubano.”

Ruptura total
Nem todos os exilados concordam com a política americana. Damian Fernández, um cubano-americano que dirige o Instituto de Pesquisa de Cuba na Universidade Internacional da Florida, disse-me: “Há algumas lições a tirar da experiência no Iraque. Nós realmente queremos uma transição, uma ruptura total com o passado, ou queremos a sucessão, que significaria manter parte do velho Estado e a ordem que isso traria? O facto é que é improvável que haja uma tábua rasa depois da morte de Fidel. Mas o governo americano tem essa ideia sobre a transição, de que, “se forçarmos, poderemos fazê-la acontecer”. Em Havana, o “plano Bush” é regularmente denunciado em outdoors e pelos vices de Castro. Felipe Pérez Roque disse que o plano de transição americano “tiraria a terra dos cubanos, suas casas e escolas para devolvê-las a seus antigos proprietários da época de Batista, que voltariam dos EUA”. Os cubanos são receptivos a esse discurso. Muitos vivem em casas que foram confiscadas de proprietários que fugiram do país, e a perspectiva de ficar sem tecto com a volta dos exilados os assusta. “O dia em que os cubanos se erguerão será quando os cavalheiros de Miami chegarem e tentarem se apropriar das casas das pessoas e dar ordens”, disse um professor cubano. Martinez, cuja sua casa de infância hoje é um centro de jovens, disse que poderia-se criar um “procedimento” para devolver as casas dos exilados ou indemnizá-los, mas reconheceu que os cubanos da ilha também têm direito a elas.

Che em pop-art
“A última coisa que queremos é fazer as pessoas que já sofreram tanto sentirem-se mais inseguras”, disse. “Acho que os exilados deveriam ter uma palavra e acho que serão úteis em termos de fornecer recursos e ideias. Eles podem ajudar a levar Cuba ao milagre económico, que, diante das capacidades do povo cubano, acho que devem ter. Também é um direito deles – devo dizer, nosso direito – ter um papel.” Em um discurso em Março, Ricardo Alarcón chamou o plano Bush de ” anexionista e genocida”. Em particular, mais tarde, ele foi apenas um pouco menos definitivo, dizendo que era “profundamente irresponsável, criado por pessoas que preferem ignorar a realidade e que tentam mudá-la por caprichos. Talvez seja uma coisa messiânica”. Acrescentou: “Para nós, nossa relação com os EUA é um grande tema, o grande problema. Não há uma única questão de tamanha força ou importância tão permanente e universal para nós do que os EUA normalizarem as relações com Cuba”. Sob o governo Bush, todos os contactos cessaram, disse-me, com a única excepção das reuniões de baixo nível sobre a política de imigração do “pé molhado, pé seco”. “Não há absolutamente nada a acontecer.” Cuba não venceu o Clássico de Beisebol, mas chegou perto. Na noite do jogo final, em San Diego, em 20 de Março, contra o Japão, telões de vídeo foram montados em toda Havana. Eu assisti ao jogo no parque Central, na Velha Havana, junto de centenas de cubanos. No final do primeiro “inning”, quando Cuba marcou, a praça tinha-se transformado num muro de ruído e comemoração. Mas a vantagem não se manteve, e o Japão acabou vencendo por 10 a 6. Mesmo assim, no dia seguinte as autoridades de Havana prepararam uma enorme recepção à equipa, com um desfile da vitória em Havana, pelas ruas cheias de jovens pioneiros agitando bandeiras, culminando numa manifestação no estádio desportivo da cidade, que foi presidida pelo próprio Fidel. As arquibancadas estavam cheias com milhares de estudantes e trabalhadores sociais. Um enorme cartaz mostrava o rosto de Che Guevara numa versão pop-art em azul, vermelho e amarelo. Também notei algumas pessoas usando camisetas decoradas com uma imagem de Hugo Chávez.

O grito da juventude

Esperávamos Fidel. Eu estava no meio de um grupo de jornalistas cubanos. O primeiro membro do politburo que apareceu foi o velho general Guillermo García Frías, um ex-camponês e combatente da guerrilha que é famoso pela sua paixão pelas brigas de galo. Depois veio Ricardo Alarcón. Enquanto os minutos arrastavam-se, os estudantes no estádio começaram a entoar “Fi-del! Fi-del!”. Carlos Lage apareceu em seguida, e o irmão de Chávez, Adan, embaixador da Venezuela. De repente, todos levantaram-se e, enquanto um bramido erguia-se dos jovens nas arquibancadas, localizei o guarda-costas de Castro, José Delgado, um homem careca, com peito de touro e olhos preocupados. Se Delgado estava lá, queria dizer que Castro ia chegar. Ele surgiu atrás da tribuna e, no meio das ovações, sentou-se. Seu secretário pessoal, Carlos Valenciaga, um homem pálido com uma grande pasta preta, sentou-se atrás. A cerimónia começou imediatamente. Dançarinos vestindo roupas camponesas foram seguidos por dançarinos modernos em malhas de licra amarela. Finalmente, a equipa de basebol de Cuba entrou e manteve-se em formação, cada jogador segurando a mão de uma criança uniformizada, enquanto uma cantora o saudava por recusar a oferta de “milhões de dólares” para “trair a pátria”. Nos momentos apropriados, Castro, como todos, acenava uma pequena bandeira cubana. Um jornalista local indicou um fotógrafo pálido e gordo e me disse que era Alexis Castro. Como os outros fotógrafos, Alexis passou mais tempo olhando para o palco, observando o pai, do que olhando para os atletas e levantava sua câmara com uma longa lente zoom para tirar fotos dele. Um a um, os jogadores passaram para cumprimentar Castro. Ele dava pancadinhas nas costas de cada um deles, sorrindo, e os presenteava com novos tacos, que duas jovens em túnicas militares entregavam-lhe. Quando Antonio Castro, o médico da equipa, avançou, porém, ele e seu pai apertaram as mãos formalmente. Então chegou a altura de Castro falar. Num tom de avô fazendo advertência, Castro disse que tantos cubanos tinham assistido ao Clássico que “nossa rede eléctrica quase entrou em colapso”. Disse que a conquista da equipe cubana foi colossal. “O facto de uma modesta e pequena ilha do Caribe ter conseguido competir contra um país como o Japão em num evento desportivo internacional é um acontecimento de grande magnitude!” Então Castro começou a folhear alguns recortes que tinha trazido; ele resmungou que estavam fora de ordem. Passaram-se alguns minutos antes que encontrasse o que procurava, um artigo elogiando o desempenho de Cuba no Clássico, de uma agência de notícias internacional, e começou a lê-lo em voz alta. A voz de Castro estava trémula. Terminou de ler a notícia. Então leu outra, e outra e outra, por mais de meia hora. Os estudantes nas arquibancadas ao meu redor estavam claramente entediados. Muitos brincavam ou conversavam. Alguns dormiam. Enquanto Castro lia comentários do “El Nuevo Herald”, de Miami, da ESPN e da BBC, percebi que ele estava divulgando informações de fontes que eram inacessíveis à maioria dos cubanos. Mas, se tinha consciência do paradoxo, não o demonstrou. Quando terminou os artigos, falou por mais uma hora sobre as conquistas de Cuba na medicina e na educação. A inquietação no estádio crescia, mas Castro parecia insensível. Tentei ler os rostos dos membros do politburo que estavam sentados perto dele, mas só vi suas caras disciplinadas e neutras.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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