A Mão Invisível em actividades masturbatórias

João Miranda, o nosso generoso reservatório de sapiência multipurpose, publicou mais um édito contra os ímpios que ousam duvidar dos caminhos do mercado. Imagine-se que algumas dessas almas perdidas até se atrevem a achar os lucros da banca “escandalosos”. A conclusão do nosso Adam Smith caseiro é a esperada: «se os lucros da banca são escandalosos então os salários dos administradores são mais que merecidos. E se houve gestão danosa no BCP não é possível que esse banco tenha tido lucros escandalosos.»

Não vou discutir  a justeza das remunerações passadas da administração do BCP, sobretudo à luz das últimas notícias sobre as suas formas criativas de manter as cotações em alta e camuflar prejuízos resultantes. Nem vou insistir no óbvio: que os lucros do BCP no exercício de 2007 não prometem grandes voos. Poderia sim relembrar que existem em Portugal bancos que coagem os seus funcionários de modo a extrair-lhes mais horas de trabalho sem qualquer remuneração — e inferir que para o João ideal seria o regresso da escravatura; esse sim, traria gigantescas e sempre merecidas prebendas a tais administradores…

O melhor vem a propósito de um comentário do mesmo autor: «Numa economia de mercado a única penalização eficaz para comportamentos abusivos é a falência.»

Ou seja: não adianta querer evitar  abusos, atropelos, chicanas várias, por meio de regulação. O Santo Mercado encarregar-se-á, por si só, de castigar os pecadores e recompensar os justos. E de forma “eficaz”. Mas eficaz para quem? Uma empresa vai à falência; os trabalhadores, os accionistas e clientes sofrem. E que se terá passado entretanto com os seus administradores? Esses, como o provaram Enron e a WorldCom, sabem cuidar de si: tratam de vender as acções da empresa que (di)gerem, bem antes desta ser castigada pelo mercado. Depois, estão prontos para outra. A arder ficam trabalhadores, accionistas e até, nos casos americanos, pensionistas, atingidos pela excessiva exposição dos seus fundos à queda das acções das próprias empresas.

Mas, para o João Miranda tudo é claro no mundo maravilhoso do mercado livre: “Só se os accionistas forem estúpidos” é que uma administração inepta ou aldrabona os pode lixar. Ele escreveu mesmo isto. Ele esquece que nem todos são o Berardo; andam por aí milhares e milhares de pequenos accionistas sem know-how nem músculo financeiro para afectar seja o que for na gestão de uma grande empresa. Mas para tudo o presciente blasfemo tem resposta: «só um pequeno accionista muito estúpido é que compra acções a contar que pode de alguma forma controlar o risco de má gestão». Só lhe digo uma coisa: deixe espalhar como cogumelos este tipo de casos, sem fiscalização nem outra punição “eficaz” que não a falência (e sem exemplos eloquentes, como os 25 anos de cadeia que o CEO da WoldCom apanhou) e logo verá o que acontece ao nosso mercado de capitais: nem o day trader mais aventuroso lá meterá os pés.

PS: Esta discussão ainda prossegue no post em questão. Lamentavelmente, não vou poder participar mais: este esquerdista proteccionista tem afazeres empresariais que lhe vão tomar toda a tarde. Os empenhados defensores do mercado talvez tenham mais tempo livre para estes temas teóricos.

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14 respostas a A Mão Invisível em actividades masturbatórias

  1. Al diz:

    Os lucros de 2007, ano em que os mais sólidos bancos do mundo apresentam maus resultados – havendo mesmo bancos que, pela primeira vez em 100 anos, têm prejuízos – não podem, por essa singularidade, justificar o que afirma.

  2. CARLOS CLARA diz:

    Já nada espanta quanto ao nojo de coisas que por aí são ditas. E quanto aos salários dos outros, os salários que Salazar controlava e não permitia que alguém pagasse acima, também já se faz – de outra maneira.

  3. JN diz:

    A regulação não pode nada contra as falências.
    Os maus exemplos que menciona nada têm que ver com regulação ou a sua falta.
    São só maus exemplos que não fazem a regra.
    Com ou sem regulação o mercado manda sempre mais que qualquer grau de regulação.
    Porque no fim da linha está sempre o consumidor. E esse é que manda.

  4. Al diz:

    “Nem vou insistir no óbvio: que os lucros do BCP no exercício de 2007 não prometem grandes voos.”

    Os lucros do exercício de 2007 não serão os ideais para extrapolações.

  5. Isto mais parece uma reciclagem mercantilista do argumento teológico de só Deus poder castigar e que enquanto isso nada podemos (ou devemos) fazer contra determinadas personagens que lá vão perdendo a sua moralidade…

  6. Luis Rainha diz:

    JN,
    O caso da Enron não teve a ver com a desregulação do mercado da electricidade? Fabuloso: acaba de descobrir algo de que ninguém até hoje desconfiava! Mais lhe digo: esta empresa até andou a fazer lóbi, com grande sucesso, aliás, para acabar com muita da regulação existente nesse mercado. E a WorldCom também nada teve a ver com desregulação? Mais uma vez, anda meio mundo à míngua da sua sabedoria!

    Al,
    A administração do BCP já atribuiu causas à baixa de lucros e elas nada têm a ver com factores externos. Sorry.

  7. Al diz:

    Ah, não tenho acções do BCP e não li. Sobre o que diz Miranda é inatacável isto: se a gestão é danosa não pode produzir lucros «escandalosos».
    De resto, as afirmações de miranda – mas só conheço de ler em blogs, esquecem que não há – nem nunca houve – decisões de mercado puras de outras considerações que não as estritamente económicas.

  8. Tárique diz:

    […]se a gestão é danosa não pode produzir lucros «escandalosos».[…]

    Depende de para quem é que é “danosa” …

  9. Luis Rainha diz:

    Ora nem mais: basta ver como a Enron camuflou prejuízos tremendos, apresentando sempre balanços azulados…
    De qualquer forma, eu nunca escrevi nada contra os lucros de ninguém, desde que honestos e assentes em práticas de negócios minimamente éticas.

  10. Rouxinol diz:

    “Uma empresa vai à falência; os trabalhadores, os accionistas e clientes sofrem.”

    E os contribuintes estão em falta nessa enumeração. Se um banco abrir falência, lá vem o Estado salvar o sistema financeiro e dividir o mal pelas aldeias (socializando as perdas quando os lucros são privados). Pensar que os bancos só respondem aos accionistas e que podem falir como a mercearia do Senhor Joaquim…enfim…

  11. nuno magalhães diz:

    Sim, é verdade: foi por isto que João Marcelino mandou embora o Medeiros Ferreira, o Rubem de Carvalho, a Joana Amaral Dias e o Sarsfield Cabral. Abençoada renovação de comentadores que tal cronista nos trouxe.

  12. nuno magalhães diz:

    O caso DN é aliás curioso em termos de mercado. António José Teixeira conseguiu trazer recuperação de vendas ao jornal – o que à partida é ter bom mercado, vende mais e por conseguinte capta publicidade – mas logo a seguir foi despedido. O que falhou na sua actuação? Oliveira saberá dizê-lo. Os resultados de Marcelino não são famosos. E foi buscar João Miranda para quê? Será que há mais gente a lê-lo do que ao Medeiros Ferreira, à Joana Amaral Dias, Rubem de Carvalho ou Sarsfield Cabral? Miranda (e os outros que vieram com ele) valem mais no mercado do que os comentadores que substituiu? Não me parece.

  13. joão diz:

    Na maioria das vezes os lucros dos bancos não são tratados da melhor maneira.
    Se o lucro é a retribuição do capital para se saber se o lucro é grande ou não, é preciso saber de quanto é o capital, capaz de gerar aquele lucro.
    Por exemplo se o banco A tiver um lucro de 20.M€ e remunerar o capital dos accionistas a 10 € por acção, é diferente do Banco B se tiver um lucro de 100M€ e remunerar os accionistas em 5€ e no entanto a voz comum é que o Banco B teve muitos lucros, apesar de remunerar os accionistas em metade do Banco A.
    A pergunta correcta a proposito dos lucros dos Bancos é: qual é a remuneração dos capitais dos Bancos Portugueses.
    E a resposta é que é das maiores da União Europeia.

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