Balcanices

Deram-lhes um pretexto, agora tenham medo. Tenham muito medo.
Claro que por cá, na Europa cool, nada há a recear em relação ao Alto Adige/Südtirol, à Transilvânia, ao Schleswig/Holstein, aos sórbios do Brandeburgo, à Alsácia, à Bretanha, ao Ulster, à Catalunha, até ao País Basco, a sei lá que mais sítios – muito menos a Olivença ou Rio de Onor. Nem à Costa da Caparica, que um dia destes tem mais farofa que sardinhas. Talvez Barrancos resolva um dia chatear, não sei. A ver vamos.
Enfim, chatear os sérvios-da-gleba tem sido um passatempo europeu recorrente, pelo menos desde 1914. Eu sei que eles se põem a jeito. Mas a verdade é que estão sempre a embirrar com eles.
Que se lixe. Agora que os Balcãs estão de novo na ribalta, fica aqui o que E. M. Cioran dizia dos seus povos:

Esse gosto pela devastação, pelo tumulto interior, de um universo parecido com um bordel em chamas, essa perspectiva sardónica sobre cataclismos acontecidos ou iminentes, essa aspereza, esse farniente de insones ou de assassinos, tão rica e tão pesada herança será nada, será nada esse legado de que benificiam os que de lá vêm? E que, feridos por uma “alma”, por essa mesma circunstância provam conservar um resíduo ainda de selvajaria? Insolentes e desolados, gostariam de se espojar na glória, cujo apetite é inseparável da vontade de se afirmarem e afundarem, da tendência para um crepúsculo rápido. Se as suas falas são virulentas, as suas entoações inumanas e por vezes ignóbeis, é porque mil razões os impelem a gritar com mais força que esses civilizados que esgotaram os seus gritos. Únicos “primitivos” da Europa, dar-lhe-ão talvez um impulso novo; será isso que, por seu turno, ela não deixará de considerar como a última das humilhações.

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11 respostas a Balcanices

  1. Caro José Pedro Barreto,
    Temos de ver as coisas pelo lado positivo no que a nós portugueses diz respeito :
    – pode ser que o Alberto João Jardim declare unilateralmente a independência da Madeira, Porto Santo de Desertas.
    Eu por mim era já…mas parece que o Alberto já veio dizer que não está para aí virado. Bruxo que o gajo não é parvo.
    Cumprimentos

  2. José Pedro Barreto diz:

    Pois é, não tinha visto a coisa por esse lado…

  3. Coitados dos Sérvios… o melhor mesmo era abolir essa coisa parva da autodeterminação dos povos…

  4. José Pedro Barreto diz:

    Essa coisa parva da autodeterminação dos povos era o que queriam – por exemplo – os sérvios da Krajina croata (curiosamente, descendentes dos que no século XVI tinham fugido do Kosovo, empurrados pelos turcos, procurando abrigo naquela região de fronteira – “krajina” – do império dos Habsburgos, e usados posteriormente por estes para a colonizarem e defenderem).
    Eram maioritários naquela região há quase quatro séculos, e acharam que tinham direito a essa parvoíce. Só que estavam do lado dos “bad guys,” e não tiveram sorte nenhuma. Em 1995, o preclaro democrata de Zagreb, Franjo Tudjman, finalmente com um exército armado, financiado e treinado pelo chamado Ocidente, resolveu a coisa, submetendo a Krajina e expulsando 150 a 250 mil sérvios. “Se o povo não gosta do Governo, mude-se o povo,” não era o que dizia o Brecht? E tanto pior para essa coisa parva que é a autodeterminação.
    Não acho que os sérvios sejam melhores do que os outros. Não acho que ninguém seja melhor do que ninguém. O que eu acho, simplesmente, é que ou há moralidade ou comem todos. Capice?

  5. Independentemente de outros episódios isso não justifica a nenhum nível a condenação da independência do Kosovo. Por se ter cometido um erro não somos obrigados a repeti-lo eternamente por uma questão de igualdade. Capice?

  6. José Pedro Barreto diz:

    O exemplo que dei não foi para condenar a independência do Kosovo, mas para apontar o “double standard” com que estas coisas são tratadas. Eu gostava de ver os campeões da autodeterminação dos povos meterem-se com a China, por causa do Tibete, com a mesma coragem com que se metem com a Sérvia. Mas não vejo. É que a China são para aí 150 Sérvias. É muita gente.
    Falar de “repetir um erro” pressupõe uma ordem histórica cronológica que não existe. “Erros” desses continuam e continuarão a cometer-se, conforme interesse ou não cometê-los.
    Não foram os lindos olhos dos kosovares que lhes garantiram o reconhecimento do seu direito à autodeterminação. Repito que não acho os olhos da Sérvia mais bonitos que quaisquer outros. Mas retalhá-la, neutralizá-la, evitar que naquela região exista um poder hegemónico, é uma constante da história europeia (sobretudo da sua componente germânica). A muitas coisas ela se tem vergado (como se vergou a quase todos os pontos do ultimato austríaco de 1914, e mesmo assim para nada). E até aceitou há pouco tempo a separação do Montenegro, que significava a sua saída para o mar, e onde nem sequer havia uma diferenciação étnica como existe no Kosovo.
    Não condeno a independência do Kosovo. Condeno, sim, a ligeireza com que ela foi aceite e até encorajada, e a falta de empenho em suscitar alternativas que não ferissem a alma sérvia (Porque é disso que se trata, dessa coisa vaga, mas pela qual os homens morrem mais depressa do que por um poço de petróleo. De resto, o Kosovo não interessa nem ao menino Jesus). Alternativas essas que dessem aos kosovares um estatuto digno e até talvez mais promissor.
    Uma integração da Sérvia na UE, com um Kosovo gozando de uma autonomia “à espanhola”, por exemplo. Em vez de acenar a Belgrado com a cenoura da integração se desistisse de Pristina, porque não acenar a Pristina com a cenoura da integração se ela aceitasse permanecer ligada a Belgrado e ficarem todos mais ricos e prósperos?
    Mas esse seria um interesse europeu, não necessariamente norte-americano. Aliás, as bandeiras que se agitaram em Pristina não eram as da UE, mas dos Estados Unidos. Como na vizinha Albânia (embora isso não tenha evitado que lá gamassem o relógio ao Bush).
    E pronto, agora fico à espera das acusações de anti-americanismo e, se calhar, de bolchevismo.

  7. José Pedro Barreto diz:

    Adenda: a população da Vojvodina, região da Sérvia que fica a norte de Belgrado, é maioritariamente húngara. Se amanhã quiserem a autodeterminação, que vamos fazer?
    E se os 120 mil sérvios do Kosovo quiserem amanhã a autodeterminação, e fazer um “Kosovozinho” em versão concentrada?
    Os Balcãs são uma verdadeira matrioshka, e nunca se sabe quantas bonequinhas há dentro de cada uma delas.

  8. José Pedro Barreto diz:

    Ah, é verdade: ainda existe na Sérvia uma coisa chamada Sandjak de Novi Pazar. Fica a sudoeste, na fronteira com o Montenegro e o kosovo. São “sérvios” muçulmanos. Porque não lembrar-lhes que também têm direito à autodeterminação?

  9. Ninguém disse que não havia double standard! Obviamente que todas as questões de direitos humanos são relativizadas quando existem interesses de uma grande potência em jogo, é injusto mas é verdade – e já agora, nunca considerei a questão do Tibete como essencialmente diferente, é claro que a China cometeu um acto de agressão a outro estado e deve ser condenada se não o é é porque os jogadores da real politik não valorizam a vida humana ou questões de direitos humanos.

    Agora independentemente de todos os interesses em manter uma Sérvia fraca (o que eu relembro é algo relativamente positivo para minimizar a influência Russa, assumindo que somos europeus isso é positivo já que temos projectos políticos divergentes e concorrentes por influência em muitas regiões) todos os povos têm direito à autodeterminação! Os kosovares não são uma excepção. O que realmente parece irritar alguns é que isto sirva os interesses dos EUA e da UE – assumindo que nesta área esses interesses convergem (estabilização e contenção da influência Russa) e que todos somos europeus juro que não compreendo essa tendência auto-mutiladora.

  10. José Pedro Barreto diz:

    Parece que concordamos finalmente: não é o direito à autodeterminação que determina tudo, mas os interesses de terceiros.
    Resta saber se interessa mesmo à UE – ou apenas a alguns países da UE. À Espanha não interessa muito, parece. Fico-me pelo exemplo mais próximo de nós. Resta também saber o que significa “minimizar a influência russa”. Não estaremos a atirar a Sérvia, definitivamente, para dentro dessa influência? A tirá-la não estamos, de certeza.

  11. Carlos Luna diz:

    UMA ANÁLISE DE ESQUERDA DO PROBLEMA DE OLIVENÇA

    UM TEXTO, ESPERO QUE ORIGINAL, DE REFLEXÃO POLÍTICA…À ESQUERDA… SOBRE OLIVENÇA
    (A QUESTÃO DE OLIVENÇA NUMA PERSPECTIVA DEMOCRÁTICA )(à Esquerda)
    TEXTO DE ANÁLISE HISTÓRICA E POLÍTICA
    TEXTO
    (A QUESTÃO DE OLIVENÇA NUMA PERSPECTIVA DEMOCRÁTICA )(à Esquerda)

    UM LITÍGIO FRONTEIRIÇO
    SEMI-ESCONDIDO PELO
    ESTADO PORTUGUÊS HÁ
    … QUASE 200 ANOS!!!

    A ROMANIZAÇÃO E O COLONIZADO

    (…) os mais propensos há pouco a rejeitar a língua de Roma ardiam agora em zelo para a falar eloquentemente. Depois isto foi até ao vestuário que nós temos a honra de trajar, e a toga multiplicou-se, progressivamente, chegaram a gostar dos nossos próprios vícios, do prazer dos pórticos, dos banhos e do requinte dos banquetes, e estes iniciados levavam a sua inexperiência a chamar civilização ao que não era senão um aspecto da sua sujeição.
    Tácito, político e historiador (sécs I-II d.C.). Vida de Agrícola

    (Tácito, Sécs. I – II n.E.)

    Carlos Eduardo da Cruz Luna
    Rua General Humberto Delgado, 22 R/C
    (Telf. 268-322697) 7100-123 Estremoz

    LITÍGIO FRONTEIRIÇO ESCONDIDO…
    COM O “RABO” DE FORA !

    PREÂMBULO

    Poucas histórias terão sido tão mal contadas, vilipendiadas, e ridicularizadas como a que toca ao chamado “Litígio de Olivença” (ou “Questão de Olivença”). Os dados do problema estão tão baralhados, os juízos de valor são tão díspares e disparatados, que manter a cabeça “fria” ao tentar-se estudar VERDADEIRAMENTE o problema é uma tarefa quase hercúlea.
    Falar na questão de Olivença é provocar muitas vezes o riso. Se se fala nela a uma pessoa de Esquerda, ela tenderá a considerá-la uma polémica alimentada, se não criada, pelo Salazarismo, e, portanto, uma provocação ou um motivo de chacota. A este propósito, basta ver o filme “O Barão de Altamira”, obra (?) do mais absurdo preconceito, para se entender esta afirmação. Aliás, por regra, a Esquerda considera tal assunto indigno, classificando-o mesmo como manifestação de uma pretensão colonialista, o que, historicamente, não tem pés nem cabeça, pois o colonialismo, aqui é exercido CONTRA um território que deveria ser Português. Se se fala da Questão de Olivença a uma pessoa de Direita, ela dirá que Portugal já perdeu Angola, Moçambique, … sabe-se lá que mais, e que já não há vontade, nem necessidade… nem um chefe à altura. Aqui, cita-se Salazar como modelo.
    A maior parte das pessoas tem ideias muito confusas sobre a Questão , ou considera-a desprovida de qualquer interesse, ou ainda manifesta um extremo pessimismo. A ideia de que é um assunto anedótico surge mesclada com praticamente todas as anteriores opiniões citadas.
    É no meio de todo este pântano desinformativo que alguém honestamente interessado no assunto se vê mergulhado. Rareia a informação objectiva.

    NÃO HÁ FRONTEIRA !

    E, todavia, há algo estranho em tudo isto. Na verdade, A POSIÇÃO OFICIAL DO ESTADO PORTUGUÊS NÃO MUDOU DESDE 1808-1814/15 ATÉ HOJE (2000): Olivença é considerada TERITÓRIO “DE JURE” PORTUGUÊS, ESPANHOL “DE FACTO”. Haverá afinal algo, neste caso, que não seja conhecido ?
    Na verdade, há. Qualquer pessoa poderá verificar, em mapas OFICIAIS (Mapas Militares, por exemplo), que não há fronteira Internacional no Guadiana entre as Ribeiras de Olivença e Táliga (ou de Alconchel). Ela existe, mas não TRAÇADA, entre as Ribeiras de Táliga e Cuncos (próximo de Mourão), pois o Estado Português nega-se a aceitar qualquer fronteira na Região sem se resolver, de acordo com o Direito Internacional, a “Questão de Olivença”.
    Não se trata de uma posição de meia dúzia de indivíduos. É a POSIÇÃO OFICIAL do ESTADO PORTUGUÊS. Ela é muito pouco conhecida, porque pouco divulgada… ainda que não seja propriamente um Segredo!
    Para além dos Mapas, há alguns exemplos concretos e recentes. Vejamos!
    Em 1988, o Presidente da Comissão Internacional de Limites da época (Dr. Carlos Empis Wemans) afirmava, em entrevista ao Diário de Lisboa, que a Região de Olivença obedecia legalmente à Bandeira Portuguesa, não sendo o Guadiana fronteira Internacional na Região. Portuguesa “de jure”, Olivença era espanhola por administração (ilegal), “de facto”.
    Em 1994, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português vetava uma ponte “internacional” no Guadiana, entre Elvas e Olivença, no lugar da Ajuda, por considerar não poder considerar “internacional” uma ponte legalmente NACIONAL pelo facto de as duas margens do Guadiana serem consideradas território Português. Após alguns incidentes (com muita Xenofobia de algumas autoridades espanholas), o mesmo Ministério, então sobraçado por Durão Barroso, assumia a construção INTEGRAL POR PORTUGAL da Ponte (Agosto de 1994).
    Em 1995, vários jornais lembravam que, POR CAUSA DA QUESTÃO DE OLIVENÇA, a Espanha não punha grandes reservas ao ALQUEVA. No mesmo ano, o jornal “Expresso” noticiava que o Estado Português, nos relatórios de Impacto Ambiental enviados para Bruxelas a propósito do mesmo Alqueva, NÃO RELACIONAVA NUNCA OLIVENÇA COM A SOBERANIA ESPANHOLA, antes a DISTINGUIA!!!
    Em 1996, assinava-se um acordo para a construção de uma Ponte no já referido Lugar da Ajuda (Guadiana; entre Elvas e Olivença), de carácter MUNICIPAL e INTEGRALMENTE PAGA POR PORTUGAL, por, disse-se, NÃO PODER PORTUGAL ENVOLVER-SE EM NENHUM ACORDO QUE IMPLICASSE RENÚNCIA DE SOBERANIA SOBRE OLIVENÇA!!!
    Em Outubro de 1999, o Instituto Geográfico do Exército publicava um Mapa de Portugal onde a fronteira, no Guadiana, ostensivamente NÃO está traçada. O presidente da Comissão Internacional de Limites, Dr. Júlio Mascarenhas, esclareceu a Imprensa, dizendo que a Questão de Olivença não era uma prioridade portuguesa, mas que a Região era TERRITÓRIO PORTUGUÊS ILEGALMENTE OCUPADO POR ESPANHA, e que Portugal considerava válidos os Tratados de 1815 (Viena de Áustria), decorrentes da situação criada em 1801 (Tratado de Badajoz: cedência de Olivença à Espanha) e 1807 (anulação, pela Espanha, do Tratado de Badajoz, por agressão não justificada a Portugal, em conjunto com os exércitos de Napoleão), bem como o de 1817 (aceitação total, pela Espanha, do estipulado em 1815 em Viena de Áustria).
    Muito honestamente, todas estas posições, declarações, e malabarismos, levam a duas conclusões: a primeira, é a de que existe, de facto, um problema fronteiriço por resolver; a segunda, é a de que há muito secretismo, e, portanto, hipocrisia, em torno do facto.

    DIREITA OU ESQUERDA ?

    Antes de se passar, porque é necessária, a uma História da “Questão de Olivença”, há, talvez, que responder desde já a uma angústia que pode assaltar neste momento um militante/activista de Esquerda: afinal, a polémica em torno de Olivença é alimentada por Democratas ou Salazaristas? A resposta nem é difícil: pelos dois… e por nenhum.
    Em 1910, os revolucionários republicanos viram-se confrontados com o problema. Diplomatas espanhóis insinuaram que a aceitação da Soberania Espanhola sobre Olivença poderia facilitar o Reconhecimento do Novo Regime, o qual não se prestou a tal capitulação.
    Em 1919, em Versalhes, a delegação portuguesa, dirigida por Afonso Costa, tentou que, no Tratado de paz que concluíu a Primeira Guerra Mundial, se incluísse uma cláusula a obrigar a Espanha (que nem beligerante fôra) a devolver Olivença a Portugal, o que se gorou. Entretanto, o estado Português acenava com a alternativa de um referendo na Região disputada… a que o Estado Espanhol não se dignava responder.
    Nas décadas de 1920 e 1930, tanto pensadores (e políticos) democráticos como conservadores protestaram contra a situação de Olivença, nomeadamente oliventinos refugiados, com destaque para o Intelectual Ventura Ledesma Abrantes, o fundador do Grupo de Amigos de Olivença.
    Ora, este grupo NÃO ERA SALAZARISTA. Pela sua Direcção passaram, de facto, algumas pessoas afectas ao Regime (que diligenciavam para que a sua actividade fosse reduzida ao mínimo…), mas também oposicionista! O presidente do Grupo em 1974 era, nem mais menos, que o PROFESSOR HERNÂNI CIDADE !!!
    O Grupo de Amigos de Olivença encontrava sempre uma barreira intransponível: desde a vitória de franco em Espanha, Salazar negava-se a pressionar o Estado Espanhol, exercendo mesmo repressão sobre os que se atreviam a ser demasiado veementes em relação à Questão de Olivença.
    A Associação protestava, indignada, contra a colonização e a repressão exercidas em Olivença, mas o Estado Novo nunca lhe deu ouvidos, mesmo porque a sua Política Colonialista em África não lhe permitia ser… anti-colonialista em Olivença!
    É curioso ver, nos relatórios da Polícia Espanhola da década de 1950, classificando como “mação, judeo-maçónico, de inspiração inglesa (Questão de Gibraltar), oposicionista”, o Grupo de Amigos de Olivença. Diz-se mesmo que por trás da reivindicação da Cidade andam elementos próximos do… Partido Comunista!!!
    Afinal, onde está a tradição Salazarista na História do Grupo?
    Em 1974/75, os Serviços de Informação espanhóis começam a deixar de chamar “mações” aos Amigos de Olivença, e, num volte-face surpreendente, começam a classificá-los como… saudosistas, velhos salazaristas, conservadores! E, porque era uma intenção política e um preconceito que estava por de trás de tais afirmações, houve mesmo um Historiador Comunista Oliventino que, quiçá entusiasmado, citou vários antigos salazaristas do Grupo, mesmo quando o não eram, não hesitando, por manifesta ignorância, por neles incluir… o Professor Hernâni Cidade!!!
    Em Portugal, as Movimentações Anti-colonialistas acabaram por cair numa armadilha, talvez ajudadas por insinuações espanholas: em vez de levarem o seu colonialismo até ao fim, coerentemente, passaram a considerar a Questão de Olivença como derivada do Imperialismo/Colonialismo Salazarista, INVERTENDO A REALIDADE HISTÓRICA E POLÍTICA, já que, como veremos, se estava perante um caso em que uma “parcela” genuinamente (e legalmente) portuguesa fôra (e continuava a ser) VÍTIMA DE COLONIALISMO!
    Entretanto, na Direcção do Grupo de Amigos de Olivença, passavam a predominar elementos conservadores… ainda que nem sempre Salazaristas. De qualquer forma, o problema, como veremos, não reside aí, mas em saber se, de facto, EXISTE ALGUMA RAZÃO PARA A “QUESTÃO DE OLIVENÇA” SE MANTER, APESAR DE TUDO, COMO ALGO CONCRETO PARA O ESTADO PORTUGUÊS, AINDA QUE POUCO CONHECIDO!!!
    È isso que vamos tentar analisar!!!

    OLIVENÇA COLONIZADA (1801? – 1936)

    Após a ocupação espanhola de Olivença (1801), iniciou-se um processo de “aculturação”, que ainda mais se pareceu acelerar a partir de 1815, data em que, segundo Portugal, o território foi de novo reconhecido como legalmente Português. Em 1840, foi proibido o uso do Português, nomeadamente nas Igrejas.
    Uma das maiores ironias verificou-se nas décadas de 1880/1890, quando um Professor Espanhol, após o falecimento de uma velha Mestra que ensinava a ler e a escrever em Português, tomou a seu cargo escolarizar o maior número possível de crianças oliventinas. E fê-lo. Só que, às mães que, em Português, lhe entregavam os filhos, dizia que na escola só se ensinava espanhol, e que se quisessem ensino em Português se dirigissem a Juromenha, a onze quilómetros em linha recta, do outro lado do Guadiana, onde Guardias espanhóis lhes impediram a passagem! Deste modo, ao alfabetizar-se, Olivença colonizou-se.
    Nos finais do Século XIX, surgem alguns movimentos pró-portugueses no território, logo desarticulados. Alguns dos seus mentores preferiram vir para o Alentejo ou para Lisboa, vindo-se a destacar, nesta cidade, a figura de Ventura Ledesma Abrantes.
    Nas décadas de 1910 e 1920, começa a circular em Olivença uma história falsa, destinada a ter muito sucesso: a de que Olivença passara para Espanha por troca com Campo Maior. Aliás, paralelamente, começou-se a propalar que a região viera para Espanha como Dote de uma Rainha. A confusão vai-se estabelecendo!
    Entretanto, Táliga ou Talega, uma antiga aldeia oliventina, torna-se Concelho Autónomo.

    OLIVENÇA COLONIZADA (1936-1975)

    A Guerra de Espanha abriu um novo capítulo na descaracterização/colonização de Olivença. Maioritariamente progressista e Republicana, a população, logo em 1936, ficou sob domínio franquista. Alguns oliventinos forma fuzilados em Badajoz. Muitos refugiaram-se em Portugal, onde, criminosamente, as autoridades salazaristas “devolviam” os fugitivos espanhóis, sabendo condená-los assim à morte. Os oliventinos escaparam quase totalmente a esta sorte, se podiam provar a sua origem pronunciado correctamente algumas palavras em Português (a mais usada “cinza”). Em 1939/40, regressaram a Olivença, sendo então vítimas de repressão… perante a impassividade de Salazar, que proibira mesmo a um oficial português entrar em Olivença com o seu Regimento, em 1938!!!
    O Franquismo levou a castração cultural de Olivença ao seu auge. Mudaram-se apelidos, topónimos, referências históricas. Falar Português era um anátema, sinal de atraso, vergonha, ignorância. As classes possidentes, muito comprometidas com o franquismo, salvo honrosas excepções, “espanholizaram-se” ao máximo, procurando estender tal atitude a toda a população. Não havia professores, funcionários, polícias, quadros, em Olivença… que nela tivessem nascido. Suspeita-se que houve mesmo algumas emigrações intencionais, embora 80% da população, mais ou menos, seja de raiz portuguesa ainda hoje. Estimulou-se o chamado “auto-ódio”. Os oliventinos passaram a orgulhar-se duma História que não era a sua, e na qual não passam afinal de presas de Guerra. Passaram mesmo a considerar a sua maneira de falar Português como um “chaporreo”, um Português incorrecto… atitude reforçada pelo facto de se tratar do falar alentejano, diferente do Português ouvido na Rádio, primeiro, e na Televis
    ão, depois.
    Quando economicamente a Espanha ultrapassou Portugal, reforçou-se a rejeição a tudo o que era Português. Por via das dúvidas, criaram-se imagens ultra-preconceituosas sobre o Português (miserável, pobre, bruto, agressivo em relação ao pacífico e “genuinamente” espanhol burgo oliventino, que queria roubar (!!!) a Madrid). Em resumo: um típico processo de colonização!

    CONCLUSÃO/SOLUÇÃO (?)

    A Democracia em Espanha (1975) permitiu “abrandar” a pressão sobre Olivença. E, todavia…
    Todavia, não se ensinou aos oliventinos a sua verdadeira História, antes se continuou, persistentemente, a Ensinar apenas a História de Espanha. Todavia continuou-se a ensinar só o idioma castelhano. Mesmo quando se passou a ensinar algum Português, foi sempre enquanto opção, mais ou menos sentimental ou exótica, e enquanto língua estranha à região , pois não se recuperou o “falar” tradicional alentejano que ainda e teimosamente sobrevive falado principalmente nos meios rurais e por pessoas idosas… e muitas vezes “clandestinamente”…
    Todavia… os textos sobre o problema da posse de Olivença estão só ao dispor de alguns, longe do Ensino… e ainda assim truncados, na versão “censurada” que a Polícia Espanhola recebia, habilmente elaborada por um pseudo historiador… ainda que, actualmente, impressa em papel de muito boa qualidade, a patrocinada por altas instâncias.
    Pior ainda… toda esta “actuação” tem sido ajudada por Responsáveis portugueses, democratas e de esquerda, quase sempre de boa fé, mas que , ao caírem na armadilha de considerar a “Questão de Olivença” como um tema salazarista, fazem coro com uma administração que não descoloniza, ainda que se diga democrática, e coro também (mais irónico ainda!) com os velhos e novos franquistas!
    Isto perante um Estado que se reclama anti-colonialista em Gibrlatar, mas é colonialista em Ceuta e Melilla,… e em Olivença, claro. Um Estado que agora já aceita um plebiscito em Olivença… depois de não aceitar o resultado do plebiscito de 1967 em Gibraltar (99% de votos a favor da Grã-Bretanha; 12.138 votos contra 44!)!
    O que pode levar certos políticos e Estados a considerar injustos casos de colonialismo como os de Gibraltar, Malvinas, Timor-Leste, Hong-Kong, Curdistão, Tibet… e justos casos de colonialismo em Olivença, Ceuta e Melilla, Chipre… ?
    Como pode um Estado (o Português!) manter um litígio, que se prolonga desde 1815, sem nunca o considerar prioridade? Como pode ao mesmo tempo protestar… e pactuar? Como pode aceitar uma solução mediante “aceitação de facto consumado” ao pé da porta… e negar tal tipo de “soluções” em todo o resto do mundo?
    Por esta lógica (a do facto consumado…), por quanto tempo terá um agressor de ocupar um território para ser “desculpado” e para ser considerada válida a ocupação? Que diabo de Direito Internacional é este?
    Por que razão, aproveitando a tão propalada democraticidade e abertura dos regimes “civilizados” da Europa, nomeadamente da Europa Comunitária, bem como o facto de as fronteiras não serem barreiras “físicas”, se não avança com um projecto pacífico, por exemplo, de administração conjunta da Região Disputada, com a generalização do Ensino da História e Língua autóctones e a salvaguarda de privilégios adquiridos, nomeadamente no que concerne ao nível de vida, administração conjunta durante um prazo a definir, dando-se depois resolução final ao litígio… a exemplo do que o Estado Espanhol propôs para Gibraltar?
    Irão os homens e mulheres de Esquerda continuar a defender posições historicamente erradas, politicamente “correctas”, socialmente (?) apreciadas… pactuando com uma situação colonial e de desrespeito pelo Direito Internacional, ao lado, nomeadamente, de pensadores franquistas? Ou terão a coragem de, pela primeira vez, tentarem enquadrar correctamente uma solução viável para este diferendo?
    Não bastará de hipocrisia? Ou não será verdade que “SÓ A VERDADE É REVOLUCIONÁRIA”?

    Estremoz, 14 de Janeiro de 2000

    Carlos Eduardo da Cruz Luna

    O ENSINO DO PORTUGUÊS EM OLIVENÇA

    Envia: Carlos Eduardo da Cruz Luna, prof. Hist. Ensino Secundário em Estremoz, Rua General Humberto Delgado, 22,r/c 7100-123-ESTREMOZ, Portugal, 268322697 939425126

    O ENSINO DO PORTUGUÊS EM OLIVENÇA : PASSOS QUE FALTA DAR….

    O ENSINO DO PORTUGUÊS EM OLIVENÇA

    A História da sobrevivência da Língua Portuguesa em Olivença terá que ser feita um dia. Mais do que sobrevivência, é uma História de Resistência, dados a pressão e os condicionalismos vários, ainda muito mal estudados.
    Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola (1801), o Português foi proibido em Olivença, inclusivamente nas Igrejas. O combate contra a Língua de Camões já vinha de trás, todavia. Em 1805,as Actas da Câmara tinha começado a ser redigidas em Castelhano, o que fizera uma vítima, digamos que um mártir: Vicente Vieira Valério. Este, negando-se a escrever na Língua de Cervantes, teve de ceder o lugar a outro. E acabou por morrer à mingua de recursos, personificando um drama cujo desenvolvimento se processaria, geração após geração.
    Algumas elites forma aceitando o castelhano. O Português foi-se mantendo, teimosamente, principalmente a nível popular. Numa deliciosa toada alentejana, que logo as autoridades, vigilantes, classificaram como “chaporreo”, palavra de difícil tradução (talvez “patois”; talvez “deturpação”), que criou complexos de inferioridade nos utilizadores, levando-os, cada vez mais, a usar a Língua Tradicional apenas a nível caseiro, dentro do aconchego do lar, em público, quase só por distracção, ou com amigos próximos.
    O hábito e o amor-próprio levavam o oliventino a, quase constantemente, “saltar” do castelhano para o português. De tal forma que, depois de duzentos anos de pressão, ele é entendido e falado por cerca de, pelo menos 35% da população, segundo cálculos da União Europeia (Programa Mosaic).
    Como sucede, contudo, neste casos, em qualquer ponto do Globo, o Português foi perdendo prestígio. Não sendo utilizado nunca em documentos oficiais, na toponímia (salvo se traduzido e deturpado), ou em qualquer outra situação que reflectisse a dignidade de um idioma, manteve-se, discretamente, por vezes envergonhadamente. A Televisão e a Rádio vieram aumentar a pressão sobre o seu uso e compreensão.
    A Ditadura Franquista acentuou a castelhanização. Agora oficialmente, o Português era uma Língua de quem não tinha… educação! Uma Língua de Brutos, ou, como também se dizia, uma Língua Bárbara!
    Não obstante, ela sobreviveu. Mesmo nas ruas, surgia e ressurgia, a cada passo… raramente na presença da autoridades. Mesmo algumas elites continuavam a conhecê-la, embora numa fracção minoritária.
    Nas décadas de 1940, 1950, e 1960, era raríssimo, mesmo impossível em alguns casos, encontrar professores, polícias, funcionários em geral, que fossem filhos da terra oliventina, na própria Olivença. Colonizadores inconscientes, peões numa política geral de destruição das diferenças por toda a Espanha.
    Se há ironias na História, esta pode ser uma delas. Alguns desses cidadãos “importados”, com muito menos complexos que os naturais porque não tinham, quaisquer conflitos de identidade, ou os seus filhos, puseram-se a estudar os aspectos “curiosos”, “específicos”, da cultura oliventina! “Oliventinizados”, por vezes até, ainda que ligeiramente, em termos linguísticos, acabaram por produzir trabalhos de valor sobre a cultura da sua Nova terra, que podem chamar para sempre, e sem contestações, de Terra Mãe, por adopção, por paixão, ou já por nascimento.
    A Democracia veio abrir novas perspectivas, ainda que os fantasmas não desaparecessem de todo. Alguns cursos de Português foram surgindo, com maior ou menor sucesso. Por vezes ao sabor de questões políticas, como durante a Década de 1990 por causa dos avanços e recuos no atribulado processo que levou à construção de uma nova Ponte da Ajuda o Guadiana, entre Elvas e Olivença.
    Em 1999/2000, continuando em 2000/2001, a Embaixada de Portugal em Madrid, e o Instituto Camões, passam a apoiar o apoiar o ensino do português no Ensino Primário em todas as Escolas de Olivença. Incluindo as Aldeias. Apenas Táliga, antiga aldeia de Olivença transformada no Século XIX em município independente, está ainda de fora deste projecto, para o qual foram destacados, primeiro três, depois quatro professores portugueses. Diga-se ser urgente acudir a Táliga, onde só 10% da população ainda tem algo a ver com a Língua de Camões. Urgentíssimo!
    Está dado um primeiro e importante passo. O Estado Português deverá tentar influenciar a tomada de outras medidas, dada até a sua posição sobre o Direito de Soberania sobre Olivença: o ensino da História (que não é feito em parte nenhuma em Olivença), por exemplo: a utilização prática da Língua, em documentos oficiais, toponímia, etc.; a continuação do Estudo do Português até níveis de ensino mais avançados; e tantas coisas mais que se poderiam referir!
    E, já agora, deixe-se continuar o Ensino do Português no Secundário, como sucede em Badajoz e noutros locais. TER-SE CONSIDERADO QUE TAL, EM OLIVENÇA, ERA PERIGOSO, é ridículo…
    Para já, aplaude-se, com vigor, com entusiasmo, o passo dado, a que se junta uma sugestão: faça-se um estudo do Português-Alentejano falado em Olivença, e ligue-se o mesmo ao Português-Padrão ensinado nas Escolas, de modo a fazer a ligação entre as gerações e produzir uma normal continuidade que deveria naturalmente ter ocorrido. Assim se corrigirá a distorção introduzida pela pressão do Castelhano.
    Para um alentejano, isto é particularmente importante. Estudará a sua própria maneira de falar num lugar onde se manteve quase integralmente pura!
    Longa vida, pois, ao Ensino do PORTUGUÊS em Olivença!

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