Balcanices

Deram-lhes um pretexto, agora tenham medo. Tenham muito medo.
Claro que por cá, na Europa cool, nada há a recear em relação ao Alto Adige/Südtirol, à Transilvânia, ao Schleswig/Holstein, aos sórbios do Brandeburgo, à Alsácia, à Bretanha, ao Ulster, à Catalunha, até ao País Basco, a sei lá que mais sítios – muito menos a Olivença ou Rio de Onor. Nem à Costa da Caparica, que um dia destes tem mais farofa que sardinhas. Talvez Barrancos resolva um dia chatear, não sei. A ver vamos.
Enfim, chatear os sérvios-da-gleba tem sido um passatempo europeu recorrente, pelo menos desde 1914. Eu sei que eles se põem a jeito. Mas a verdade é que estão sempre a embirrar com eles.
Que se lixe. Agora que os Balcãs estão de novo na ribalta, fica aqui o que E. M. Cioran dizia dos seus povos:

Esse gosto pela devastação, pelo tumulto interior, de um universo parecido com um bordel em chamas, essa perspectiva sardónica sobre cataclismos acontecidos ou iminentes, essa aspereza, esse farniente de insones ou de assassinos, tão rica e tão pesada herança será nada, será nada esse legado de que benificiam os que de lá vêm? E que, feridos por uma “alma”, por essa mesma circunstância provam conservar um resíduo ainda de selvajaria? Insolentes e desolados, gostariam de se espojar na glória, cujo apetite é inseparável da vontade de se afirmarem e afundarem, da tendência para um crepúsculo rápido. Se as suas falas são virulentas, as suas entoações inumanas e por vezes ignóbeis, é porque mil razões os impelem a gritar com mais força que esses civilizados que esgotaram os seus gritos. Únicos “primitivos” da Europa, dar-lhe-ão talvez um impulso novo; será isso que, por seu turno, ela não deixará de considerar como a última das humilhações.

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