A esquerda assim-assim (Crónica no Meia-Hora)

A esquerda do Partido Socialista é literalmente uma utopia. Como é sabido, “utopia” quer dizer “lugar nenhum”. Por uma estranha coincidência e fidelidade ao conceito, os homens e mulheres da esquerda do PS tendem a nunca serem encontrados. Muitas vezes, não passam de um estado de espírito passageiro ou um simples soluço dissonante no silêncio da governação, modificados por uma suave brisa ou pancadinha nas costas do primeiro-ministro. Não há nada como o pragmatismo dos lugares para acalmar a fugidia ética das convicções. Como dizia o poeta: ‘tudo isto é triste, tudo isto é fado’. Não fosse o país tão cómico, era trágico. Portugal precisa de uma ala esquerda dos socialistas que perante a governação à direita de José Sócrates assuma uma política de clareza e de ruptura. Os alemães têm Oskar Lafontaine para fazer este papel e a nós resta-nos Manuel Alegre. Para além de ser óbvio que os alemães escolheram primeiro, dificilmente vamos a qualquer lado com esta esquerda assim-assim. As declarações de Manuel Alegre de que não se revê na política do governo do Partido Socialista, mas que daí não tira nenhuma consequência, são o corolário desta impotência tão lusitana. No fundo, a esquerda do PS é como os portugueses no seu melhor, perante qualquer conflito, só conseguem gritar: “agarra-me senão eu bato-lhe!”.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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