A remodelação invisível

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Confirma-se: o senhor acima retratado agarrou a pasta das obras públicas e não mais a largará. Primeiro, foi a escolha da localização do novo aeroporto. Agora, é a implantação da nova travessia do Tejo que fica a cargo do LNEC e do seu presidente, Carlos Matias Ramos.
Planeamento da criação de pólos de desenvolvimento? Trocado pelas fórmulas da mecânica de solos. Concepção global do sistema de transportes português? Substituída pela máquina de calcular orçamentos. Ideias políticas para modelar as infra-estruturas das próximas décadas? Para quê, se basta ver onde é que os aterros saem mais baratos e se gasta menos cimento?
Mário Lino, encafuado no ministério a fazer não sei bem o quê, já deve ter saudades dos seus dias na Acção Revolucionária Armada, do PCP: então, só era preciso mandar coisas abaixo, sem ter de aturar batalhões de auto-nomeados especialistas a criticar qualquer coisa que se queira construir. Lá ia bomba e pronto. Agora, do Miguel Sousa Tavares ao Zé dos Anzóis, todos têm ideias firmes e originais sobre obras públicas.
O chefe Sócrates, para não ter de aturar este incómodo cardume, segue o caminho que se lhe afigura mais inatacável: anula a política e transforma tudo em técnica. Entre os estudos financiados não se sabe por quem e as infalíveis bulas dos especialistas, sobrará a praxis tão cara ao líder: produzir “imagem” e tentar gerar “optimismo”. O problema é que mais umas remodelações deste jaez e ficaremos sem perceber muito bem para que servem eleições ou governos.
Entretanto, acabo por ter pena de Lino. Um homem que não tem pejo em sair dos maçudos conselhos de ministros para dar umas baforadas nos Cohibas de estimação merecia fado mais alegre.

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9 respostas a A remodelação invisível

  1. xatoo diz:

    aleluia LR
    até que enfim alguém traz uma lufada analistica desempoeirada a um blogue que está a ficar desbotado com o tom magazinesco
    parabéns

  2. Excelente Artigo. Óptimo comentário… Avante!

  3. bloom diz:

    Penso ser esta posta desprestigiante para o Zé dos Anzóis, que tem há muito tempo “ideias firmes e originais sobre obras públicas”, embora tenha começado a carreira nos Assuntos do Mar.

  4. “dos seus dias na Acção Revolucionária Armada, do PCP: então, só era preciso mandar coisas abaixo…”

    Explica lá melhor essa,que eu nao sei. Desde quando é que o PCP mandou mandar coisas abaixo? Desde quando é que o PCP alguma vez fez mal a alguém?

  5. Luis Rainha diz:

    Hmmm… detecto o não mui discreto rumor da ironia. Mas, pelo sim pelo não, podes começar por aqui em busca de informação sobre a ARA.

  6. Era meio a brincar, meio a sério. De facto a referência que dás confirma a impressao que eu tinha:

    “Uma característica peculiar da ARA e rara neste tipo de organizações, noutros países, era o facto de ter a preocupação de não causar danos pessoais com as suas acções. De facto, apenas na acção contra a escola técnica da PIDE, em 1970, houve uma morte, a de um jovem trauseunte vitimado acidentalmente pela explosão, alta madrugada, da bomba colocada à porta da referida escola.”

    Mas pronto, tu de facto falas em mandar “coisas abaixo” – e nao “pessoas pelos ares”. Tudo bem.

  7. João diz:

    E tu não tens saudades do pcp?

    eu no teu lugar tinha…

  8. CARLOS CLARA diz:

    xatoo

    O blog está mesmo frouxo. Contudo este post fica bem no alinhamento. Já se sabe muito mais o porquê de Alcochete do que se previa saber. fazes bem Mario Lino – deixa andar, que o aeroporto ainda acaba na Portela arrasada e feito por lá um aeroporto racional sem chulos a fazerem remodelações como até hoje.

  9. Pingback: cinco dias » Novos êxitos da madeirização

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