Uma visita ao MNAA (3)

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Devo confessar que esta visita ao museu das Janelas Verdes, mesmo não sendo a primeira, me trouxe algumas surpresas. Por exemplo, não me lembro de antes ter dado a atenção merecida à espantosa obra de Hans Holbein, o Velho, Virgem, o Menino e Santos, também conhecida por Fonte da Vida — em consonância com a inscrição em Latim nela visível.
Sendo com toda a probabilidade uma peça retabular, originalmente deveria ser admirada de baixo; o ponto de vista primordial que a obra hoje oferece assume como foco não a figura da Virgem, nem os anjos que se deixam entrever atrás do pórtico granítico ao centro da imagem, mas sim o lento enevoar da paisagem de fundo, o horizonte distante mas ainda material do Reino dos Céus. Eis como a simples alteração do posicionamento espacial de uma pintura pode operar subtis mas importantes efeitos sobre o nosso olhar contemporâneo, dando novos pontos de fuga, novos focos ao simétrico esplendor da composição original. Mas trata-se de uma obra-prima que vale por muito mais do que apenas por essa curiosidade: o detalhe quase alucinatório de que se reveste cada dobra de tecido, cada cabelo, cada animalejo minúsculo, investe o conjunto de uma claridade hipnótica, como que concedendo ao espectador a graça do olhar sobre-humano, o único capaz de assimilar a sobrecarga de informação visual, a infinita hiperrealidade do Além. Um prodígio técnico e evocativo.
A curiosíssima colecção de Virgens do Leite, nada menos que cinco peças, foi uma outra surpresa para mim. O tema da Virgem que amamenta, embora hoje nos pareça algo bizarro, é a mais antiga representação de Maria com o menino que se conhece: exemplos arcaicos ainda sobrevivem nas catacumbas de Roma, talvez inspirados por imagens egípcias de Ísis a amamentar o seu rebento Hórus. Mas, à medida que a crença na ausência de Pecado Original em Maria se impôs, mormente depois de o franciscano Bernardino de Bustis ter escrito, ainda no século XV, o “Ofício da Imaculada Conceição”, qualquer menção à humanidade física e corpórea da Virgem começou a ser vista como indecorosa e o tema desapareceu. Mais raro ainda é encontrar imagens de Maria grávida; sobreviveu a de Piero della Francesca (Madonna del Parto) e poucas mais.
Por fim, uma decepção: o espólio do português Domingos Sequeira. Uma série de pinturas, sobretudo retratos, com modelos congelados em poses forçadas e ademanes de simbolismos explícitos, tudo executado com uma técnica sobretrabalhada e artificiosa, culminando numa Virgem Maria rodeada por uma espécie de arco-íris que só me traz uma palavra à cabeça: “piroso”. Não se entende bem o que faz tanta obra deste pintor do século XIX no MNAA e muito menos como é que alguns especialistas lusos o compararam a Delacroix.

Enfim, pode ser que na minha próxima visita o Museu Nacional de Arte Antiga se deixe visitar por inteiro; ou que pelo menos eu lá entre menos cínico e mais conformado com a nossa pequenez centenária…

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Uma resposta a Uma visita ao MNAA (3)

  1. JOÃO PEREIRA diz:

    Tenho de concordar com muito do que diz sobre o MNAA, mas quanto ao pintor Sequeira, e ainda que convenhamos não seja o maior génio da pintura universal, não posso deixar de o defender. A pintura a que se refere é quanto a mim muito interessante. A simetria da composição, a forma como o tema é tratado é quanto a mim muito original. Sequeira não foi um pintor genial mas soube assimilar e adaptar-se as mudanças estéticas da sua época, passando se composições abertamente neoclassicas para outras onde se consegue intuir uma abertura ao movimento romãntico, como a citada pintura da virgem ou o juizo final que se encontra numa colecção privada. Por excesso de nacionalismo, porventura se tenha sobrevalorizado a obra do pintor, daí comparações com outros pintores europeus. Mesmo sendo essas comparações exageradas, não podemos deixar de referir que a obra de Sequeira, quando inserida no panorama pictórico nacional, se destaca por ser bem superior à media. Antes de terminar, gostaria de o felicitar pelo seu blog.

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